Repetindo o colega escritor, posso dizer que ultimamente tenho pensado muito na morte; só espero que não seja recíproco. Dito isto, ...

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Repetindo o colega escritor, posso dizer que ultimamente tenho pensado muito na morte; só espero que não seja recíproco. Dito isto, vou primeiro tratar da morte do segundo homem mais bonito do mundo de acordo com Dona Creusa Pires, que foi Alain Delon. O primeiro nem precisa dizer, né?

O sol da manhã se derramou sobre a aldeia no norte da Itália. As casas simples, de pedra e madeira, respiravam quietude. Sophia atrav...

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O sol da manhã se derramou sobre a aldeia no norte da Itália. As casas simples, de pedra e madeira, respiravam quietude. Sophia atravessava a pequena praça com um cesto de remédios e lençóis. Tomás, ao longe, ajudava um vizinho a consertar o telhado. A filha Clara corria entre as oliveiras, leve, livre.

“Casalzinho lindo”, observava, costumeiramente, dona Tereza, a costureira. “Esses dois nasceram um para o outro”, profetizava dona Al...

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“Casalzinho lindo”, observava, costumeiramente, dona Tereza, a costureira. “Esses dois nasceram um para o outro”, profetizava dona Alta, viúva de grande intimidade com os santos e os ritos católicos pois fabricante das hóstias que iam à boca e ao espírito daquele povo. Eu e parte dos meus amigos, por volta dos 10 ou onze anos, comíamos aquelas sobras. Tinham gosto de farinha crua e não se prestavam à mínima comunhão enquanto não merecessem as bênçãos do vigário nem entronizadas fossem no nicho do

Tudo que há está se desmanchando, então olho não para a morte de tudo, mas para novos arranjos. É o que acontece, por exemplo, com o ...

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Tudo que há está se desmanchando, então olho não para a morte de tudo, mas para novos arranjos. É o que acontece, por exemplo, com o que se come.

O conceito de morte, no pensamento do filósofo, escritor e professor alemão Martin Heidegger (1889-1976), gravita no seu livro Ser e T...

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O conceito de morte, no pensamento do filósofo, escritor e professor alemão Martin Heidegger (1889-1976), gravita no seu livro Ser e Tempo, publicado em 1927. Para Heidegger, a morte é um fenômeno existencial que revela aspectos sobre o sentido da vida do ser humano. O pensador defende que compreendê-la é essencial para analisar a maneira específica como as pessoas se relacionam com o mundo e com suas existências. Para isso, ele introduz a noção de “ser-para-a-morte” para descrever a relação que o ser humano tem com a finitude.

Nos dias atuais, a sociedade enfrenta desafios sem precedentes que exigem uma reflexão profunda sobre nosso estilo de vida e o impact...

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Nos dias atuais, a sociedade enfrenta desafios sem precedentes que exigem uma reflexão profunda sobre nosso estilo de vida e o impacto que nossas escolhas têm no mundo ao nosso redor. A crescente preocupação com questões ambientais, sociais e econômicas nos leva a questionar: qual é a nossa responsabilidade coletiva e individual? As respostas a essas perguntas

      DESCASO Disseram-me para ser o homem da casa quando já não havia lar, quando queria eu ser mais menino e ter o direito ...

 
 
 
DESCASO
Disseram-me para ser o homem da casa quando já não havia lar, quando queria eu ser mais menino e ter o direito de chorar.

Esclareço de antemão que sou um defensor da tradução, muitas vezes a única opção que temos para conhecer um texto. Do mesmo modo, r...

agamemon menelau troia traducao tradutor
Esclareço de antemão que sou um defensor da tradução, muitas vezes a única opção que temos para conhecer um texto. Do mesmo modo, ratifico a boutade do Conselheiro Ayres, personagem de Machado de Assis, no caso específico, em Esaú e Jacó, ao afirmar que nenhuma tradução vale o original. Gostaria de deixar claro que as duas proposições não se excluem, antes se complementam. Sempre será melhor poder ler no original.

Tire sua dor do meu caminho Não é de hoje que ouço, ou algumas vezes leio, a máxima de que a felicidade é uma prerrogativa dos idiot...

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Tire sua dor do meu caminho

Não é de hoje que ouço, ou algumas vezes leio, a máxima de que a felicidade é uma prerrogativa dos idiotas. Ousam dizer por aí que criaturas geniais, poetas, escritores, músicos, artistas, cientistas, filósofos, criaturas dos mais diversos segmentos têm, cada uma delas, de amargar uma dor lancinante na alma para atestar o valor de sua obra. Dito assim, o sofrimento perece ser uma virtude, ou um atributo quase imprescindível a toda gente que coloca a massa cinzenta, vulgo cérebro, para funcionar em regime quase de servidão. Atrelada a essas alegações, fica implícita a ideia de que criaturas felizes são intelectualmente inferiores.

Título: CONTANDO PRA MIM Autora Letícia Alminhana

Título: CONTANDO PRA MIM
Autora Letícia Alminhana

Em reconhecimento aos vultos da Igreja de elevado conhecimento nas áreas do saber filosófico e teológico, a Academia Paraibana de Let...

dom marcelo carvalheira apl jose loureiro lopes
Em reconhecimento aos vultos da Igreja de elevado conhecimento nas áreas do saber filosófico e teológico, a Academia Paraibana de Letras concedeu o título de sócio honorário a Dom Marcelo Pinto Carvalheira, Arcebispo Metropolitano da Paraíba, quando este exercia atividades pastorais nas terras paraibanas.

O beijo é o selo da paixão. Não se concebe sem ele o encontro de duas pessoas que se desejam. Hollywood, ...

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O beijo é o selo da paixão. Não se concebe sem ele o encontro de duas pessoas que se desejam. Hollywood, em suas produções românticas, consagrou-o como uma marca de final feliz. Para os casais apaixonados, ele é o prólogo de outras entregas. Daí o seu fascínio.

Minha existência se estende para além das fronteiras do "eu". Subir os degraus de qualquer monumento a cada manhã me perm...

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Minha existência se estende para além das fronteiras do "eu". Subir os degraus de qualquer monumento a cada manhã me permite ver com clareza, como se o mundo, por um instante, se revelasse sem véus. Seria gratificante compartilhar esse brilho com os olhos alheios.

Assim começou o ano. Digo o pós-carnaval. Com chuva e o mar ficou amarronzado. E fui a Cabedelo comer umas delícias e fiquei a contem...

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Assim começou o ano. Digo o pós-carnaval. Com chuva e o mar ficou amarronzado. E fui a Cabedelo comer umas delícias e fiquei a contemplar o Farol e um navio que passava na linha do horizonte. Praia Formosa, esse lugar do meu passado, da família e das histórias re-contadas. O cheiro da maresia de manhã cedo. Os banhos de mar. Passeios até Ponta de Mato. Assustados. E os navios. Sempre os navios a passar. E eu fiquei a vê-los, mas não como no ditado. Ficar a ver navios não é algo paralisante, e sem nada. Mas contemplativo.

A colunista Ruth de Aquino, de O Globo, já escreveu tudo sobre o assunto, na edição de 14/3/2025. Não há, definitivamente, o que se a...

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A colunista Ruth de Aquino, de O Globo, já escreveu tudo sobre o assunto, na edição de 14/3/2025. Não há, definitivamente, o que se acrescentar. Mas há matérias, o leitor sabe, que não se esgotam e sempre podem render uma palavrinha a mais, nem que seja para reforçar, mesmo que não seja preciso, o que já foi dito. É o caso.

“Despertai, a brisa da manhã de Nowruz está a regar o jardim com flores.” Sa’di de Shiraz “Soprou a brisa da manhã e a fragrânc...

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“Despertai, a brisa da manhã de Nowruz está a regar o jardim com flores.”
Sa’di de Shiraz
“Soprou a brisa da manhã e a fragrância do Nowruz No desejo dos amigos e na sorte vitoriosa Feliz seja para ti este ano e todos os anos Abençoado seja para ti este dia e todos os dias.”
Jorge Luis Borges in “Limites”

De 20 para 21 de março, em países como o Irão, Iraque, Afeganistão, Azerbaijão, Índia, Cazaquistão, Paquistão, Tajiquistão, Turquemenistão, Uzbequistão e em outros países do Médio Oriente, Ásia Central e onde existam comunidades persas, comemora-se a chegada do Nowruz (Nawruz, Nauryz, Nevruz, Novruzi, Navruz, Navrouz, Norooz ou Norouz, de acordo com a pronúncia entre as várias línguas e dialetos), o Ano Novo Persa de 1404, data que, segundo o calendário persa ou Jalaali, celebra a chegada da Primavera no hemisfério norte. Festividade que a Organização das Nações Unidas reconheceu, em 2010, através da sua resolução A/RES/64/253, como merecedor do seu Dia Internacional, descrevendo-o como uma festividade de origem persa que é celebrada há mais de 4.000 anos.

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Tabriz, Irão: festejos tradicionais do Nowruz.Gov. AZ / Wikimedia
O termo Nowruz, efetivamente de origem persa, é formado pelas palavras now que significa “novo” e ruz, “dia” ou “luz do dia”. Esta solenidade está associada a várias tradições regionais, oriundas da religião zoroastriana. Os rituais que acompanham a festa incluem canções, danças, decorações, banquetes e distribuição de presentes entre famílias, amigos e vizinhos.

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Bukhara, Uzbequistão: família reunida para a celebração do Nowruz.R. Wilson / Flckr
Três semanas antes do Nowruz, são feitos verdadeiros rituais de limpeza geral (Khaneh Tekani) nas casas, lavando tudo, pintando as paredes, livrando-se de utensílios velhos, para receber o ano novo com frescor e positividade. Duas semanas antes, é altura de plantar o sabze, brotos de trigo, cevada ou lentilha, simbolizando o crescimento para o novo ano. Uma semana antes, fazem-se as compras (roupas novas, objetos decorativos e ingredientes especiais para as comidas típicas). Na noite da véspera da última quarta-feira do ano (a Chahar shabe Suri ou “quarta-feira vermelha”), soltam-se os fogos de artifícios e pulam-se as fogueiras
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Istambul, Turquia: celebração do Nowruz.B. Videt
(Chaharshanbe Suri), entoando “Zardie man az to, Sorkhie to az man” (literalmente “a minha fraqueza para ti, a tua força para mim”), numa clara referência à substituição das fraquezas em troca de energia e saúde.

Outros rituais curiosos desta quarta-feira, em regra celebrados entre os iranianos, é o Kūze Shekastan, que significa “quebrar o vaso de barro”, destruindo simbolicamente todo o infortúnio, o Gereh-goshāi, que consiste em dar um nó numa das pontas de um lenço ou de uma toalha de mesa e pedir à primeira pessoa que se encontre para o desfazer, a fim de anular tudo aquilo que “amarre a vida”, e o qashogh-zani (bater com a colher) que simboliza afastar a má sorte através do barulho de panelas ou de colheres a bater em tigelas de metal. As crianças e jovens vão de casa em casa, mantendo o rosto e o corpo escondidos com lençóis para não serem reconhecidos. Ao parar em frente a cada porta recebem, de quem lá mora, doces, frutas secas ou outros pequenos presentes.

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Teerão, Irão: crianças se divertem durante o NowruzIran Jasmin
Os doces e pratos podem diferir com base nos costumes das regiões, mas geralmente alguns dos doces são Sohan (bolinhos de farinha, gemas de ovo, açúcar, óleo vegetal, açafrão, cardamomo, lascas de amêndoa e pistacho), Noghl (amêndoas cobertas de açúcar), Gaz (nougat de pistache, amêndoa e claras de ovos), Baghlava (massa folhada recheada com nozes picadas e adoçada com xarope ou mel), Nan-e berenji (biscoitos de arroz), biscoitos de grão de bico, biscoitos de amêndoa e biscoitos de noz. O conceito de doçura também está ligado à crença popular de que, na manhã do Nowruz, ao acordar e provar um pouco de mel, tomando-o com três dedos e acender uma vela, se estará a salvo das enfermidades.

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A. Israfilov
Outros pratos populares do Nowruz incluem ainda Sabzi Polo ba Mahi (arroz tingido de verde vivo com ervas e servido com peixe frito, preferencialmente, salmão branco do Cáspio), Reshteh Polo (arroz cozido com aletria), Kookoo Sabzi (omelete com ervas, salsa, coentro, espinafre, cebolinha e nozes) e Ash-e Reshteh (sopa espessa, com reshteh, massa fina, feijão, grão-de-bico, ervas e um produto lácteo azedo, feito de iogurte cozido ou seco chamado kashk).

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Roxana Kitchen
É costume ser montada uma mesa simbólica (Sofreh-Haft-Sin, cujo significado pode ser traduzido como “Mesa dos Sete S”). Alguns dias antes do Ano Novo, essa mesa é coberta com uma toalha especial e sobre esta são colocados sete artigos, cada um iniciado com a letra Sin, ou ‘S’ do alfabeto persa, nomeadamente: um espelho (ayneh), uma vela (sham), um livro sagrado (Avesta, Torah, Bíblia ou Alcorão, de acordo com a religião da família) e sete artigos que deverão começar pela letra S “Sin” do alfabeto persa, cada um com um significado especial, representando os desejos para o ano novo que se inicia, nomeadamente: sir (alho) – simbolizando a saúde e a cura das doenças, sib (maçã) – símbolo de beleza, renascimento e saúde, serkeh (vinagre) – o amadurecimento e a paciência, sabzeh (trigo germinado) – renascimento e crescimento, samanu (pudim de brotos de trigo) – a força e a vitalidade, somaq (sumagre) – simboliza a cor alaranjada do sol e senjed (azeitona persa) – o Amor.


Além destes, poderão ser ainda acrescentados outros artigos como sonbol (jacinto) – simboliza a chegada da Primavera, sekkeh (moedas) – simbolizam a prosperidade, um sa’at (relógio) – simbolizando o tempo, sepand (arruda), sepestan (sebestena) e um samovar (utensílio culinário utilizado para aquecer água e servir chá). Algumas famílias também acrescentam um pequeno aquário com peixes dourados (mahi) – simbolizando o progresso, ovos coloridos (os tokhme morgh) – simbolizando a fertilidade –, uma flor de laranjeira a flutuar numa tigela de água, romãs, castanhas e passas (entre elas a ajil-e moshkel-gosha ou “frutos que resolvem problemas”).

Na cultura iraniana, o número sete sempre foi considerado um número com uma forte carga cabalística, de bom presságio, desde os tempos mais antigos, e os sete itens representam os sete anjos anunciadores da vida:
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Mohammad-Baqer Majlesi, em gravura do século XVII (Dinastia Safávida) ▪ Fonte: Wikimedia
renascimento, saúde, felicidade, prosperidade, alegria, paciência e beleza.

Mohammad-Baqer Majlesi, na obra Bihar al-Anwar (“Oceanos de Luzes”, uma compilação enciclopédica em árabe de tradições imamitas) escreve a dado trecho:

“Os céus são feitos de sete camadas, e assim é a terra; e sete anjos guardam-nos; e se no momento em que o Ano Novo tomar o lugar do antigo recitares sete versos ou sete suras do Alcorão que começam com a letra ‘S’ do alfabeto árabe, então estarás protegido de todos os infortúnios na terra ou no céu durante todo o ano”.

Também Ferdowsi, na obra Shāh-nāmeh (“O Livro dos Reis”), registou que os céus e a terra são “feitos cada um de sete estratos”. E também narrou as “sete façanhas maravilhosas de Rostam”, as mais populares entre os heróis da tradição épica persa. Em textos de tempos distantes, as “sete histórias do inferno” são frequentemente mencionadas, e é feita referência a um “rei das Sete Terras” (o texto introdutório de Shāh-nāmeh também menciona “sete terras” ou “sete regiões”).

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Gravura de antiga edição do Shāh-nāmeh: o herói Rostam enfrenta o dragão, cumprindo o terceiro de seus sete desafios. ▪ Fonte: LoC.
Finalmente, ao 13º dia (Sizdah Bedar, que pode ser traduzido como “evitar o dia 13”, ou “dia 13 fora de casa”) e para encerrar as festividades de Nowruz, marcando também o fim das férias escolares para as crianças, as famílias saem e fazem passeios ao ar livre, jogos e piquenique nos parques ou nas montanhas (pois crê-se que dará azar ficar em casa), em harmonia com uma nova estação que se inicia.

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Iranianos celebram o Sizdah Bedar nos Países Baixos. ▪ Crédito: Persian Dutch Network, via Wikimedia
Sizdah significa 13, que muitos acreditam ser um número de azar. O conceito de evitar o número treze simboliza o desejo de afastar todo o mal no ano novo. Acredita-se que Sizdah Bedar seja também um dia especial para pedir a benção da chuva. Na Pérsia antiga, cada dia tinha o seu próprio nome e pertencia a um anjo diferente. O dia 13 de Farvardin pertencia ao Anjo da Chuva, que é retratado sob a efígie de cavalo, sendo que, para os amantes dos jogos de sorte, o Sizdah Bedar seja igualmente um dia propício para os jogos competitivos em especial aqueles que envolvem corridas de cavalos. Neste dia, as raparigas e os rapazes têm por costume dar um nó num pé de
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Fonte: tizgasht
relva e fazer um pedido para que possam encontrar um bom marido ou esposa. Quando o nó se abrir, acredita-se que a sua sorte será liberta e os seus desejos se tornarão realidade. Os recém-casados também fazem este ritual na intenção de terem um bebé, uma casa ou outros desejos que ambicionem. O atar da relva representa a união de um homem e de uma mulher. Esta é a canção que as raparigas cantam enquanto fazem o nó: Sizdah-Bedar sal-e deegar khooneh shoohar, bacheh baghal que, em persa, se poderá traduzir como “No próximo Sizdah-Bedar, na casa do meu marido, a segurar um bebé”. Outro ritual interessante realizado no final do dia de piquenique é o de deitar fora o sabzeh utilizado na mesa do Haft-Sin. Acredita-se que o sabzeh tenha recolhido todas as dores, doenças e males no caminho da família durante todo o ano que se segue. A partir do 14 º dia, a vida volta à rotina normal.

Graças ao estudo do sânscrito e ao profundo conhecimento de cultura da Pérsia e da Índia, o astrónomo, matemático, etnógrafo, antropólogo, historiador e geógrafo al-Biruni oferece muitas informações sobre o Nowruz, especialmente nos livros Asar Al-Bagiah e Al-Qanun al-Masoudi.
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Naneh Sarma ▪ GD'Art
Entre as lendas mais populares, que agora fazem parte das fábulas persas, salienta-se a de uma das personagens do imaginário folclórico associada ao Nowruz, Naneh Sarma, uma sábia anciã de cabelos brancos como a neve, costas arqueadas pela idade e de face enrugada, que terá vivido numa cabana no topo da Montanha Alborz. Também conhecida por “Avó Geada” ou “Senhora do Gelo”, representa o Inverno. Esta figura é a representante feminina do trio de personagens associados ao Ano Novo que inclui o Khawja Piruz e o Amu Nowruz, aquele que traz as flores do início da Primavera e presentes para as crianças, o que nos faz pensar que provavelmente possa ser, por analogia, um primo distante do Pai Natal ocidental. Simbolizando a Primavera, Nowruz, o filho de Naneh Sarma, seria um jovem alto e belo. De tal forma gentil e amável com todas as criaturas que, por onde caminhava, devolvia a vida, clima agradável, saúde e boa sorte a todos.

Relativamente ao Khawja Piruz, conta a tradição que, ainda hoje, em países como o Irão, durante a celebração do Nowruz, um bando de simpáticos trovadores conhecidos como Haji Firuz, com os rostos pintados de negro, vestidos com roupas coloridas
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Haji Firuz em Teerão, Irão. ▪ Foto: Ninara, via Wikimedia
de cetim e chapéus em forma de cone, provavelmente um resquício dos antigos guardiães do fogo zoroastrianos (acredita-se que a cor negra a cobrir o rosto representará o escuro das cinzas) desfilam pelas ruas, cantando e dançando com pandeiros, tambores e trombetas espalhando alegria e trazendo a todos bons votos para o novo ano. O nome destes personagens advirá de Khawja Piruz (Khawja significa “Mestre” e Piruz “vitória”, em persa). Alguns acreditam que a personagem de Haji Firuz costumava cantar nas ruas anunciando a todas as pessoas que a Primavera tinha chegado. Em troca, as pessoas davam-lhe presentes ou dinheiro por ter trazido boas notícias. Outros acreditam que a personagem de Haji Firuz estará relacionada com a criação de uma atmosfera feliz nas famílias. O Dia de Ano Novo deve começar com felicidade e alegria, para que durante o resto do ano as famílias continuem felizes.

Enquanto o Haji Firuz é um jovem e animado palhacinho que toca tamborim e dança anunciando a festa do Ano Novo, o Amu Nowruz é mais conhecido como a figura de um ancião respeitável, de barbas brancas, túnica verde e cajado na mão representando, com a sua longevidade, a presença histórica do Nowruz, cuja tradição passa de geração em geração. Por outro lado, o Haji Firuz passa pedindo Eidi (presentes em dinheiro), enquanto o Amu Nowruz
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Amu Nowruz ▪ GD'Art
é aquele que presenteia, atende os pedidos das crianças e assegura que elas tenham um ano novo repleto de saúde e felicidade. Embora os dois cheguem sempre juntos, parece que o Haji Firuz passou a ser um ícone mais comercial da data, já que a imagem de Amu Nowruz quase sempre fica num plano mais tradicionalista.

Descrito pelo astrónomo e poeta persa do século XI Omar Khayyam como “a renovação do mundo”, o termo Nowruz aparece pela primeira vez em documentos do século II a.C., mas há razões para acreditar que a celebração seja bem mais antiga e que provavelmente seria já um dia importante durante a dinastia Aqueménida (cerca de 559 a.C. - 330 a.C.). Um dos exemplos mais significativos é o de Ciro, “o Grande”, quando declarou esta data como feriado nacional, em 538 a.C., estabelecendo assim a importância cultural do Nowruz para os persas.

O Nowruz está intimamente ligado ao Zoroastrismo, antiga religião pré-islâmica fundada por Zaratustra (mais amplamente conhecido fora do Irão como Zoroastro, a forma grega do seu nome). Os zoroastrianos (parsis) acreditavam que a primavera anunciava o triunfo do bem (o deus da luz, Ahura Mazda, “Senhor Sábio”) sobre o mal (o deus da escuridão, Angra Mainyu, o Druj, “a Mentira”). O festival representava o renascimento da vida, da natureza e a vitória do bem sobre o mal.

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O sultão Husayn II distribui presentes no Ano Novo, em Isfahan, Irão. Anon., 1721 ▪ Museu Britânico, via Wikimedia
É possível que o célebre complexo palaciano de Persépolis (ou pelo menos algumas das suas edificações, como a Apadana e o “Palácio das Cem Colunas”) tenha sido construído para ser utilizado nas celebrações do Nowruz, e entre as evidências estará uma moeda de ouro de 416 a.C. As mais antigas referências a esta festividade remontam à época parto-arsácida (247 a.C. - 224 d.C.), existindo ainda referências específicas à celebração durante o reino de Vologases I (51-78). Detalhes substanciais sobre a celebração do Nowruz aparecem desde o reinado de Artaxes I, fundador da dinastia Sassânida (224 - 650). Sob os reis sassânidas, o Nowruz era o dia mais importante do ano.
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Sadeh: celebração de fogo e luz, no Irão. ▪ Fonte: Wikimedia
A maior parte das tradições reais – como as audiências públicas do rei, os presentes e o perdão aos prisioneiros – foi estabelecida durante o período sassânida e chegou até a nossa época. Assim como a tradição do Sadeh ou Sada (“cem”, em persa, referindo-se à celebração dos 50 dias e noites para o início da primavera), o Nowruz sobreviveu na Pérsia após a introdução do Islamismo, em 650. Há indicações de que os quatro grandes califas do Islão (Abu Bakr, ‘Umar Ibn Al-Khattab, Uthman Ibn Affan e ‘Ali Ibn Abi Talib) terão assistido a comemorações do Nowruz, e que inclusivamente este dia seria dia de descanso no período Abássida. Após a queda do califado e a restauração das dinastias persas, o Nowruz foi elevado a um nível ainda mais importante.


O Nowruz é mais do que a chegada de um novo ano. É um momento eterno de celebração, vida renovada, esperança, primavera e a beleza da natureza. As suas raízes estão arreigadas nas antigas tradições persas. Abrange linhas religiosas e culturais e reúne milhões de pessoas ao redor do mundo em valores compartilhados de gratidão, união e de esperança. Da mesa simbólica aos exuberantes eventos sociais e ao ar livre, o Nowruz representa a necessidade humana universal de novos começos e um relacionamento harmonioso com a natureza.


Como curiosidade suplementar, este ano celebra-se o Nowruz no mesmo período em que decorre o Ramadão (28 de fevereiro - 30 de março). Esta coincidência deriva da diferença entre o calendário lunar islâmico (Hijri) e o calendário solar persa (Jalaali). Para os muçulmanos que celebram o Nowruz, pode ser um desafio conciliar o espírito festivo e as principais celebrações do ano novo com as exigências do Ramadão, especialmente com o jejum (sawm) durante o dia. Alguns poderão optar por celebrar o Nowruz com jantares mais simples após o pôr do sol, durante a iftar enquanto refeição que quebra o jejum.

Sâl-e no mobârak. Que o Ano Novo Persa traga a todos Saúde, Amor, Alegria, Renovação, Paz, Prosperidade e Sabedoria.
UM CERTO ORIENTE
um certo oriente
O autor convida os leitores a acompanhar seu programa semanal Um Certo Oriente, com músicas e temas orientais, transmitido nas seguintes emissoras e horários (de Portugal), via internet: Segunda-feira 15h—16h Rádio Portimão 106.5 FM 19h—20h Rádio Alta Tensão 20h—21h Rádio Azores High (21h—22h em Portugal Continental) Terça-feira 22h—23h Rádio Metropolitana Porto Quarta-feira 03h—04h Rádio Castrense 93.0 FM 21h—22h Rádio Via Aberta 22h—23h Rádio Marmeleira Quinta-feira 09h—10h KajiFM (10h—11h em Angola) 11h—12h Rádio Alcobaça 23h—24h Rádio Cantinho da Madeira Sexta-feira 01h—02h Rádio Tejo 102.9 FM 19h—20h Rádio Paixão FM 20h—21h Rádio Tejo 102.9 FM 23h—24h Rádio Onda Certa Sábado 03h—04h Rádio Castrense 93.0 FM 08h—09h Rádio Surpresa 10h—11h Rádio Nova Oeste 15h—16h Rádio Antena Mais (16h—17h em Luxemburgo) 18h—19h Antena Web (Canal 1) 20h—21h Rádio Portimão 106.5 FM 21h—22h Rádio Horizonte Atlântico 21h—22h Rádio Clube Penafiel 91.8 FM Domingo 03h—04h Rádio Via Aberta 08h—09h RCP FM 92.6 FM 10h—11h Rádio Coração do Alentejo 13h—14h Rádio 100Margens 19h—20h Rádio Dueça 94.5 FM 20h—21h Rádio Voz Online na Cossoul 21h—22h Canal Viana 21h—22h Rádio Marmeleira
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