Um pousar de nota musical. Por entre os fios, o bem-te-vi estaciona no contraste do papel céu-azul, teto do mundo. A inexistência de nuvens. A chuva se afastou e um tímido sol aquece ao redor, do teto às asas passarinhas, espalha um mar inverdito de azul.
Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881) — escritor e filósofo russo — defende que a arte de suportar-se pode ser compreendida como a capacidade de enfrentar o próprio mal-estar interior, abandonando as ilusões, racionalizações e mentiras por meio das quais o indivíduo procura aliviar a culpa e proteger-se de suas próprias contradições. Para o escritor russo, o maior fardo da existência não reside necessariamente nas adversidades externas, mas no confronto com o próprio mundo interior: o egoísmo, o ressentimento, o desejo de reconhecimento, a necessidade de liberdade e as
Leitor de Dostoiévski ▪️ Arte: Emil Filla (1907)
regiões obscuras da consciência que constituem aquilo que se poderia chamar de subsolo da subjetividade. Nesse sentido, suportar a própria existência não significa simplesmente resistir ao sofrimento, mas desenvolver a capacidade de permanecer diante de si mesmo sem recorrer permanentemente ao autoengano.
O mundo contemporâneo é um reflexo de uma sociedade que constantemente busca a validação através da aparência e do consumo. Hoje, ser bem-sucedido parece estar atrelado a símbolos materiais: carros luxuosos, casas de vários andares, e uma coleção de gadgets de última geração. Essa busca desenfreada por bens materiais muitas vezes
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro.
Hermann Hesse
Rastejo. Tateio. Apalpo como quem busca o braile da memória na mais vã tentativa de encontrar o caminho, mas avança na contramão. Como é difícil interpretar-se pela tendência que temos de nos reconhecermos mais ou menos fracos diante do universo de possibilidades que temos diante de nós. Por isso a angústia, a vertigem do óbvio, o lugar-comum da sabotagem, a sensação de despreparo diante da vida inédita e, ao mesmo tempo, reprodutora de representações banais.
Conheço o psicoterapeuta, escritor e poeta Nelson Barros há décadas, mas somente há pouco mais de dez anos nos tornamos amigos próximos. E o seu companheiro Hirllen conheci nesse tempo último. Nos aproximamos. Referências de vida parecidas, gostos e o carinho espontâneo e autêntico que sentimos entre nós. Um casal que se sobressai pela beleza, elegância, delicadeza e generosidade. Me encanta!
Todos os dias, quando cruzo o espaço que vai do meu quarto à sala de estar, ele me espia da parede. O coração de Chico Pereira. Familiar de mudanças e deslocamentos ele me acompanha nas andanças por aí que foi a minha vida até ancorar novamente no velho porto da Filipeia de Nossa Senhora das Neves. E isso me basta. Trata-se de um desenho de um imenso coração, solto em uma nuvem de pequenos pontos coloridos, que me traz a ideia do universo e suas constelações ou, por vezes, me lembra também do caos e suas representações. O coração, perdido em meio às estrelas coloridas, está envolto por uma serpente azul que ora a toca ora se afasta.
Andei coisa de um mês ausente de nossa “Capital das Acácias”, deste ponto mais oriental das Américas. Obrigações de família, e lá fui para assistir ao casamento do meu rebento caçula, o que já justifica essa minha desaparição.
1
Quando Ulisses retornou,
Muita gente enlouqueceu,
Um poema de Orfeu,
Caixa d’Água recitou.
Quando o mar ele cruzou,
Chamou Padre Zé Coitinho,
Na Mata do Buraquinho,
Para celebrar o ato,
Comeu porco e comeu pato,
Macaxeira foi padrinho.
As Igrejas de São Francisco, o Mosteiro de São Bento, a Catedral Basílica Nossa Senhora das Neves, a Igreja do Carmo e da Misericórdia formam um conjunto arquitetônico para acolher a presença humana que busca harmonia com Deus.
Era um domingo modorrento daqueles em que até o sol tem preguiça de aparecer. As chuvas de junho haviam trazido as criaturas do mofo para dentro da casa.
Entre um chá sem graça e umas torradas igualmente sem graça, li alguma notícia daquelas que se repetem ao longo dos anos neste carrossel sem grandes novidades que é a temporalidade humana.
O homem nasce duas vezes. A primeira, quando chora; a segunda, quando ri. O primeiro nascimento é biológico; o segundo, espiritual. Já se disse que o riso é uma forma de afastar a dor. De não se entregar a ela e, ao mesmo tempo, perdoar o que existe de errado, impróprio, impossível na Criação. O riso sela um pacto entre o homem e Deus, que certamente não gosta de quem o recrimina com o desespero. O desespero nega o sentido da vida. O riso o reconhece da única forma como é possível reconhecê-lo – acolhendo sem protesto o absurdo. É o estágio máximo da compreensão.
É impressionante pensar que alguém, há quase dois mil anos, diante da morte de quem amava, escolheu não escrever apenas sobre a tristeza. Escolheu lembrar que a vida breve merece ser vivida enquanto ainda há tempo. Com um gesto profundamente humano, deixou palavras para depois da partida de sua amada, através das letras de uma música.
A hipocrisia não envelhece. Ela apenas troca de vestimenta, atualiza o vocabulário e encontra novos púlpitos para pregar. Se há três séculos o fingimento moral se escondia sob o terço, as túnicas austeras e os suspiros religiosos nos salões da nobreza francesa, hoje ele se disfarça em discursos inflamados nas redes sociais, discursos corporativos sobre empatia e posturas virtuosas que duram exatamente o tempo de gravar um vídeo curto. Mudaram os cenários, mudou a tecnologia, mas o tipo humano continua assustadoramente o mesmo.
Uma medalha (ou um título honorífico) nada vale por si mesma. Algumas são encontradas para vender em antiquários, ao alcance de qualquer um por um certo preço, como quase tudo neste nosso mundo vulgar e venal em que o dinheiro pode, em tese, comprar quase tudo, até amor verdadeiro, como bem disse o genial Nélson Rodrigues. Mas não tudo. Algumas coisas, nem Elon Musk pode comprar. Ainda bem.
No último capítulo do romance S. Bernardo, o personagem-narrador Paulo Honório, através de um bem urdido monólogo interior, lamenta o que foi a sua vida e confessa:
Numa antiga fábula atribuída a Esopo, um homem vê sua carroça atolada e, em vez de pôr os ombros na roda, pede auxílio aos deuses. O homem olha para o céu quando deveria olhar para a roda. É uma imagem da condição humana. Passamos boa parte da vida esperando que alguma força exterior nos retire da lama, quando a primeira providência necessária é simplesmente empurrar.