Com a derrocada da União Soviética e a queda do muro de Berlim, os jovens ficaram menos ligados em política. Fukuyama decretara o fim da História e, com ele, a falência das ideologias. Rótulos como esquerda e direita tinham saído da moda (embora alguns nostálgicos ainda os alardeassem), assim como parecia haver desaparecido a polarização simplista entre engajamento e alienação. Mas nas décadas de 1960 e 1970 era costume avaliar as pessoas em função de elas estarem em um ou outro desses polos.
Talvez exista dentro de você uma pessoa que há muito tempo não consegue mais sair. Não porque esteja presa em algum lugar, mas porque você a trancou atrás de uma porta que construiu para sobreviver.
O som que me circula
Me faz rodilha
E de mim também feito de som
Assimétrico aos meus limites, ele
É a ponte sobre o que eu era e a
Água corrente que me torno
E me despeço da pele
Deixando-a entre pedras
E musgos, como num leito de rio
Me esfacelo em lógica
Me ato em puro éter
E recebo o sentido do que se move
Por razões de força maior, não pude comparecer ao relançamento do livro A intertextualidade das formas simples, da professora Elizabeth Marinheiro, ocorrido há poucos dias em Campina Grande, para onde seguiu uma caravana de seus confrades e confreiras da Academia Paraibana de Letras, todos conscientes da relevância cultural do evento. Pois, de fato, não se tratava apenas de mais um lançamento de livro, mas de um momento muito especial em que, além de se trazer a público, mais uma vez, uma obra literária importante, comemorava-se o aniversário natalício da autora, figura
respeitadíssima não só da cultura paraibana, mas também da brasileira como um todo. Na verdade, era uma verdadeira e justa celebração da escritora e professora que tantos serviços prestou – e continua prestando – aos paraibanos e aos brasileiros, em sua área de atuação.
Minha experiência como pastor ensinou-me uma coisa que os livros de teologia ignoram ou omitem: raramente alguém desiste de fazer aquilo que deseja apenas porque outra pessoa lhe demonstrou que está errado. Pode-se apresentar a passagem bíblica mais explícita, o argumento mais convincente, a advertência mais amorosa e racional. Se a vontade estiver decidida, a razão será convocada apenas para ser um mero contraste à desobediência.
O que um touro de corrida em Córdoba, um camponês borgonhês e um tropeiro do sertão brasileiro têm em comum?
Há uma panela pesada no canto do fogão, tampada, soltando borbulhas lentas. Quem passa pela cozinha sente o cheiro antes de ver a panela. E talvez não saiba que dentro dela dorme uma história de cinco séculos, que atravessou o Mediterrâneo, as ilhas do Atlântico e o sertão brasileiro. Um touro de corrida em Córdoba, um camponês da Borgonha e um tropeiro do sertão têm mais
GD'Art
em comum do que imaginam. Os três acabaram, cada um a seu modo, dentro de um cozido. Eu chamo a isso de receitas de afetividade. São comidas que fazem mais do que restaurar e saciar a fome. Elas abraçam. Quem prova um prato desses volta no tempo, sente o cheiro da casa de alguém, ouve de novo uma voz que talvez já não esteja aqui. A panela é um portal, e o cozido é o passe de entrada.
“Nosso corpo mortal com certeza irá.
Aquele que é o Criador de todos os seres, segura-te firme para segurá-lo. E Dança, ó Serpente!
Os tolos procuram alegria na mentira. Quem realiza estados superiores observa o Silêncio, para buscar a Essência da Verdade. Sabe disso. E dança, ó Serpente!”
Paambatti Siddha in “Dança, ó Serpente!”, “Aadu Paambe” (século XVIII)
Nesta data, 25 de setembro, 61 anos atrás, Lobo entrou na minha vida. Era um belíssimo pastor-belga preto, pelos longos, olhar muito inteligente. Chegou lá em casa pelas mãos de Paulo Fernando e logo me adotou como seu dono. Foi como se eu tivesse conquistado o seu coração.
Era o 2 de dezembro de 1945, o mais cívico dos anos de toda a minha vivência, embora não passasse dos meus 12 anos ou, talvez mesmo, por isso. Foi o ano em que a Grande Guerra acabou, a narração do rádio televisionada pela imaginação, o público a fazer auditório aquém do balcão da mercearia de Seu Nequinho, um dos grandes do nosso pequeno comércio.
QUERIA
Queria escrever poesia
Mas não posso
Estou entregue aos fatos
à razão
ao rumor dos acontecimentos
Queria o verbo
sem condicional
Mas não posso
As palavras passam fluidas
escorrem entre os dedos
minhas mãos não as alcançam
Um romance que devolve à literatura a responsabilidade de preservar memórias que o país preferiu esquecer. Minha Pequena Gota de Chuva, de Jesu Andrade, pertence a essa segunda categoria.
A narrativa acompanha duas trajetórias que, à primeira vista, parecem independentes: a de Pingo, um menino negro de apenas onze anos que vende picolés nas ruas de Guarulhos para financiar
Existem livros que não pretendem simplesmente contar o mundo: pretendem observá-lo. A Mosca na Parede e outros textos — de crônicas a ensaiados ensaios pertence a essa linhagem. Seu ponto de partida é aparentemente modesto — a atenção ao cotidiano, aos pequenos acontecimentos, às figuras anônimas, às contradições da existência —, mas é justamente dessa aparente modéstia que nasce sua força literária.
Há pessoas que tratam a língua como se ela fosse um corpo rígido, vendo-a como o faria um professor de anatomia, diante de um cadáver, interessado em identificar a seus alunos as suas partes constituintes. Ou como um legista, preocupado apenas com a autópsia. São pessoas que esquecem ser a mudança a lei natural da língua, porque lei do Universo.
Há substancial diferença entre ler e gostar de livros. Nem sempre quem os ama é um grande leitor, assim como nem todo leitor cultiva uma relação afetiva com esse objeto. Ler é mergulhar no texto, página a página, acompanhar as ideias do autor e dialogar com elas. Gostar de livros, por outro lado, envolve muito do que eles representam: o projeto gráfico impactante e inovador, o cheiro, a assinatura de um escritor consagrado, o fato de estarem entre os mais vendidos e até o prazer de possuí-los.
O que eu perguntaria pra Deus
Se pudesse entrevistá-lo?
Aí pensei: Que bobagem essa minha!
Jamais poderia perguntá-lo.
Alguém de grande importância
Será que me deixaria questioná-lo?
Um caderno com perguntas,
E um lápis qualquer.
Sentaria perto dEle,
Quem sabe, ofereceria um café.
Para o Dono dos meus dias
E quem me mantém de pé.
Fala, camarada querido. Tudo bem, meu velho amigo irmão? Estou aqui no trânsito, avançando lentamente, sentindo-me em crise. Acabo de chegar à Mata do Buraquinho, sabe? Ao meu redor, essa multidão e toda essa tristeza, tolos bastardos PeTralhas e Bolzolóides. Que coisa feia de gentalha! E, pensando aqui na vida e nos filmes que eu vi, cara, como são necessárias as lembranças! Eu tava me lembrando agora de “Bastardos Inglórios”. Que título e que sacadas teve o Tarantino! Não sei se você lembra desse filme. Lembro a
Cena de Bastardos Inglórios” (2009), dirigido por Quentin Tarantino ▪️ Fonte: UFSC
você: uma tropa de soldados, na Segunda Guerra, ia em busca de nazistas para matar e deixar alguns vivos com a marca da suástica nazista na testa. Um outro filme é viver o cotidiano aqui em João Pessoa. Como ainda é bom, mesmo com uma claque votando em candidatos processados por corrupção, numa narrativa notoriamente insana, trash, como um filme que vi há muito tempo. Tu te lembras de “Salò ou os 120 Dias de Sodoma” (1975), último filme de Pier Paolo Pasolini? É uma alegoria extrema e desesperada sobre o poder absoluto e a degradação do ser humano. Assemelha-se ao caso do ex-governador Ricardo Coutinho, denunciado e preso pelo GAECO, do Ministério Público, julgado e culpado pelo TJ-PB e com processo arquivado no STF. Avaliem e imaginem o quanto custou, quem pagou e qual escritório de advocacia de Brasília! Ele é um dos deputados a serem eleitos?!