Abrir as páginas de Moby Dick pode parecer, à primeira vista, uma travessia hercúlea e quase impossível. O calhamaço imponente de Herman Melville, recheado de digressões enciclopédicas sobre a caça às baleias, longos capítulos técnicos e uma densidade filosófica que desafia o leitor contemporâneo, assusta. Muitos abandonam o barco antes mesmo de zarpar, intimidados pelo peso da linguagem e pela vastidão do oceano de palavras
ESSE MOÇO
Quero me embriagar na tua boca
Beber na fonte desse mel
Meu tempo é eternamente teu
Não importa o quanto dure
Teus cabelos cinza são ouro pra mim,
Veio sem fim
A nossa história não é folhetim
Me deixa feliz assim, assim
Faço questão de não acordar
Viver esse sonho, prolongar o amor
A esquina é pouco pra mim
Quero te levar pra Flórida
Como pássaro em migração
Tornar nossa vida um eterno verão
Se não entende-se o que falo
Não faço questão de mudar
Falo assim para você
Me decifrar, me contemplar
São cinco e quarenta da tarde e o chefe ainda não acendeu o fogo. Ele está parado diante da panela de fundo, a que ninguém escala para lavar porque ninguém sabe lavar, e prova o caldo com a colher de metal. O auxiliar espera ao lado, a tábua na mão, o ombro encostado na bancada fria. Aprendeu a esperar em silêncio. Sabe que o silêncio do chefe é uma resposta em construção.
Alguém sabe a diferença entre bolacha e biscoito? Não? Pois bem, a bolacha e o biscoito vão aparecer ao fim deste causo sem que desfaçamos esta dúvida. Mas primeiro tenho que apresentar Zezinho Gafanhoto.
Certa vez, li em um livro, cujo título não me recordo, que há uma diferença muito relevante quanto a estar comprometido e a estar envolvido. Quando se faz ovos com bacon a galinha está envolvida; e o porco, comprometido. Podemos trazer isso para os relacionamentos afetivos, uma vez que muitas pessoas têm medo de se envolverem, porque facilmente esbarram no compromisso a ponto de se anularem,
Em 1986/1987, ganhei uma bolsa de estudos sanduíche, do Conselho Britânico e da Capes, para passar 9 meses na Inglaterra como parte do meu mestrado na UFPB. Meu projeto era sobre a peça emblemática Look Back in Anger, de John Osborne, e eu tinha como foco a raiva masculina. O meu momento de vida era de admiração por isso nos homens, diante da impotência das mulheres. Mas, logo em seguida, viria a perceber que o que me provocava mesmo era o silêncio feminino. Mudei todo o projeto para mergulhar nessa apatia que me atormentava na época. Corpus e vida pessoal envolvidos. Vida e arte.
“As margens da alegria” é um dos melhores contos de Primeiras Estórias. Nele se narra a história de um menino que viaja com os tios para um lugar “onde se construía a grande cidade”. Chegando lá, o menino conhece um peru e fica deslumbrado com a sua beleza. No dia seguinte, sai para um passeio e, ao voltar, descobre que o peru foi morto para uma festa de aniversário.
Estou sentada em torno de uma mesa. Diante de mim, uma velha senhora, cabelos totalmente brancos, semblante tranquilo, mas, ao mesmo tempo, muito enigmático. As cartas são embaralhadas. Ela me fala para cortar o baralho ao meio. Depois, vai retirando as cartas em forma de cruz. A primeira carta é o Louco, nº 22 ou a carta nº 0. Um coringa, um homem com chapéu de bobo, uma mochila nas costas, caminhando com uma vara de apoio e seguido por um cão. Logo em sequência, situado
Arte: Elisa Cabral
no lado oposto horizontal, surge a carta nº 16, A Torre Fulminada ou A Casa de Deus, onde se vê uma edificação ruindo e um indivíduo que despenca do alto de ponta-cabeça. Na sequência, no eixo vertical acima, aparece a carta nº 1, O Mago. Um ser diante de uma mesa com vários elementos, prestes a realizar proezas com um bastão em uma das mãos, como uma varinha mágica. Parece estar no intuito de apresentar e descobrir os princípios criativos com os elementos expostos em sua mesa. No seu extremo oposto vertical descendente, surge a carta de nº 20, O Julgamento, com sua trombeta colocada no meio da imagem do sol, clamando pelo sopro da vida, ressuscitando uma família de mortos. E, para sintetizar, no meio, a carta nº 9, O Eremita, vem finalizar a cruz desse jogo. Um sábio que avança carregando em suas mãos uma lamparina acesa e um cajado.
No livro A vida passada a limpo, Carlos Drummond de Andrade reuniu seus poemas produzidos no período de 1954 a 1958. Entre eles, consta o conhecido Prece de mineiro no Rio, cujos quatro primeiros versos transcrevo a seguir para que o leitor compreenda o que rege a citada produção poética:
Dois autores dedicaram-se à tarefa aparentemente simples de perguntar o que é alguma coisa: "O que é Filosofia?", de José Ortega y Gasset, e "O que é isto — a Filosofia?", de Martin Heidegger. Li ambos, atravessei suas reflexões e, ingenuamente, imaginei que certas perguntas ontológicas permaneceriam confinadas aos livros. Jamais pensei que chegaria o dia em que eu próprio seria colocado diante de uma questão dessa magnitude. E, pior, que teria de responder a essa indagação sem poder recorrer a Heidegger, Ortega y Gasset ou sequer a uma enciclopédia. A filosofia, como se vê, tem dessas crueldades: às vezes, abandona a biblioteca e aparece no balcão de uma cafeteria.
Fugir do seu país? Por que fugir se o senador obteve 48,20% do eleitorado a votar-lhe confiança, a depositar no descortino que lhe atribui as aspirações de suas vidas e o futuro dos filhos? Claro, quem vota deve votar nessa esperança, mesmo parecendo difícil.
Naquela que começa quando me apodero da forma e do sentido das coisas. Quando a imaginação se alia à intenção e o pensamento, antes disperso, encontra seu centro.
Crio atmosferas. Transformo vastos espaços em recantos únicos, vocacionados a acolher o invisível. Há uma arquitetura do encantamento que não obedece apenas às medidas, à disposição dos objetos ou à incidência da luz. Obedece a uma ordem interior. À harmonia que se estabelece entre aquilo que somos, aquilo que fazemos e a energia que imprimimos ao que criamos.
Há, na tessitura narrativa de A Menina de Cipango, uma delicada arquitetura de silêncios. Marília Arnaud constrói seus contos como quem borda ausências: cada frase parece conter aquilo que não foi dito, cada gesto narrativo ecoa uma memória que resiste à nomeação. O livro, mais do que um conjunto de histórias, configura-se como um mosaico de subjetividades em deslocamento — emocional, geográfico e simbólico.