Lá naquela cozinha cheia de friagem da montanha mais alta do brejo, a antiga Vila Rica do Brejo de Areia, hoje simplesmente Areia, lá ...

Lá naquela cozinha cheia de friagem da montanha mais alta do brejo, a antiga Vila Rica do Brejo de Areia, hoje simplesmente Areia, lá naquela cozinha inundada de sacos de milho verde, lá naquela cozinha povoada de aromas do campo, ela se concentrava num moinho ajustado a uma mesa de madeira bruta, o qual engolia o milho verdinho e vomitava bagaços amarelos.

O romance Carolino, de Efigênio Moura, é uma das obras mais maduras da recente literatura sertaneja produzida na Paraíba. O livro não ...

O romance Carolino, de Efigênio Moura, é uma das obras mais maduras da recente literatura sertaneja produzida na Paraíba. O livro não apenas revisita o universo do vaqueiro nordestino, mas o transforma em território mítico, onde memória, perda, religiosidade e assombração convivem com absoluta naturalidade. A narrativa se insere na tradição do realismo fantástico sertanejo, aproximando-se da oralidade popular e da dimensão simbólica do sertão como espaço espiritual e existencial.

Ao querido amigo Alexei Bueno (in memoriam) A notícia me pegou desprevenido. À mesa, às seis e meia, no início do café da manhã do...

Ao querido amigo Alexei Bueno
(in memoriam)
A notícia me pegou desprevenido. À mesa, às seis e meia, no início do café da manhã do sábado. O poeta Alexei Bueno morreu, em sua casa, no Rio de Janeiro. Não podia ser. Não era possível. Na segunda-feira, dia 22 de junho, encontrava-me em Solânea, quando recebi uma notificação da portaria de meu prédio, com a foto de uma correspondência, sem identificar o conteúdo ou o remetente. Ao retornar a João Pessoa, na quarta-feira, 24 de junho, vi que se tratava de um livro de Alexei Bueno. Jamais poderia desconfiar que seria o último que o poeta publicaria em vida, O poste: auto sacramental em dois atos, pela Editora Anadiômene, que desde 2024 publicava os seus livros (desconfio existir muita coisa a ser publicada no seu acervo...). Não deu tempo sequer de agradecer ao amigo querido. Como pensar que ele se iria, assim, tão de repente? Mal havia me recuperado da leitura impactante de seu último livro de poesia, A chave quebrada (2026). Ainda ecoavam na minha memória os versos de fluxo inestancável de O irrefreável (2025), poema em forma de um quase fracassado diálogo com um rio de sua memória, afinal “o fluir é para nós uma porta que se fecha”.

Os do meu tempo lembrarão de uma época em que saíamos tarde da noite para fazer serenatas em frente às casas das namoradas. O normal er...

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Os do meu tempo lembrarão de uma época em que saíamos tarde da noite para fazer serenatas em frente às casas das namoradas. O normal era levar alguém que soubesse tocar violão, e quem podia mais ousava levar os gêmeos que tocavam violino ou até mesmo um piano na carroceria de uma caminhonete. Tudo isso eu presenciei, e aquele tempo não voltará por muitas razões. Uma delas seria fazer uma serenata para o amor que mora no oitavo andar de um prédio. Os vizinhos imediatamente chamariam os órgãos públicos para acabar com o “barulho”. Na verdade, o romantismo toca outros ritmos hoje em dia. Mas não é nada disso que eu queria contar; porém, a preguiça não me deixa apagar esse introito.

Eu fui ao lugar onde a terra sobe e o céu desce para se encontrar num abraço cujo silêncio é repartido pelos ventos em espiral de sop...

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Eu fui ao lugar onde a terra sobe e o céu desce para se encontrar num abraço cujo silêncio é repartido pelos ventos em espiral de sopros de vida. Onde é verde, cinza e frio... cheio de curvas e retas desiguais. Lá escutava o grito sem palavras dos seres de todos os tipos. Almas leves flutuantes e sobressaltadas distantes. Sussurros de canções de ninar chegavam suavemente pelas janelas.

Algumas memórias surgem como pequenas epifanias da infância. Entre elas está a descoberta de Zé Limeira, o chamado poeta do absurdo, f...

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Algumas memórias surgem como pequenas epifanias da infância. Entre elas está a descoberta de Zé Limeira, o chamado poeta do absurdo, figura singular da poesia nordestina. Foi uma das experiências literárias mais fascinantes que encontrei desde cedo.

Que fim de Copa agoniado foi, para Antonio, aquele Brasil e Itália, lá se vão 56 anos. A bem da verdade, ele chegou a ver a Seleç...

copa mundo 1970 brasil italia
Que fim de Copa agoniado foi, para Antonio, aquele Brasil e Itália, lá se vão 56 anos. A bem da verdade, ele chegou a ver a Seleção perfilada, no momento do Hino, com a escalação dos sonhos: Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gerson, Rivelino, Jairzinho, Pelé e Tostão.

A canção He ain’t heavy, he’s my brother (Ele não é um peso, ele é meu irmão), composta pelos norte-americanos Bob Russell (1914–1970)...

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A canção He ain’t heavy, he’s my brother (Ele não é um peso, ele é meu irmão), composta pelos norte-americanos Bob Russell (1914–1970) e Bobby Scott (1937–1990), foi imortalizada pela banda britânica The Hollies e constitui uma das mais expressivas representações da solidariedade no imaginário coletivo. Lançada em 1969, em uma realidade marcada por profundas tensões sociais, conflitos armados e transformações culturais, a obra transmite uma mensagem de elevado valor ético: o outro não é um fardo, mas uma responsabilidade compartilhada que dignifica a própria condição humana.

Vivemos em uma era marcada por um frenesi de consumo e uma busca incessante por reconhecimento. A pressão da inconsciência nos catapult...

ilusao fama vazio inrerior
Vivemos em uma era marcada por um frenesi de consumo e uma busca incessante por reconhecimento. A pressão da inconsciência nos catapulta em um ciclo vicioso: produtos inúteis inundam o mercado, enquanto promessas de riqueza e fama ressoam em cada canto digital.

Não estranhem o título do presente texto, mas se trata de uma feliz coincidência ocorrida dois sábados atrás. Então, às explicações.

mario andrade turista aprendiz
Não estranhem o título do presente texto, mas se trata de uma feliz coincidência ocorrida dois sábados atrás. Então, às explicações.

Poucos paraibanos tiveram, na infância, contato com os livros mais do que José Américo de Almeida. Criança, residindo em Areia com o...

Poucos paraibanos tiveram, na infância, contato com os livros mais do que José Américo de Almeida. Criança, residindo em Areia com o tio padre, de quem recebia esmerada educação, às suas mãos chegavam a melhor literatura e o fruto do pensamento greco-romano. O religioso apontava os caminhos pontilhados da sabedoria.

Um susto. Um olhar. Sem timidez. Percorro a vista como quem já conhece o território. Mas, por outros caminhos. Não conheço o nome das ...

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Um susto. Um olhar. Sem timidez. Percorro a vista como quem já conhece o território. Mas, por outros caminhos. Não conheço o nome das partes. É um corpo que habita eras. É bela e triste, como o amor. Tem desejo. Uma voz com um timbre macio. Clama por defloração. É agora. É sim. Como foi que me deixei vestir por uma ilusória imortalidade?

Quando morava na minha casa, na Rua Oceano Pacífico — e esse oceano gigante para uma rua pequenina —, nos tempos de ruas enlamaçadas ...

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Quando morava na minha casa, na Rua Oceano Pacífico — e esse oceano gigante para uma rua pequenina —, nos tempos de ruas enlamaçadas e bois a passar na porta, todos os dias, por volta das 18 horas, um casal de sapos pequenos (caçotes) entrava aos pulos na minha sala e ia namorar embaixo da estante. Ficava a ouvir os gemidos, digo, o coaxar do namoro. Todos os dias lá vinham eles, os caçotinhos. Ficava sempre impressionada com a pontualidade. Não me consta que sapos tenham relógios. Mas rituais, isso eles tinham. E aconchego para namorar juntinhos. Todo dia faziam tudo sempre igual: me visitavam às seis horas da tarde. Bem que poderia ser letra de Cotidiano, de Chico Buarque. Com gosto de hortelã e tudo.

Por mais que a obra não seja um reflexo d...

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Por mais que a obra não seja um reflexo direto do autor, é grande a tendência de se confundir uma com o outro. Isto se aplica particularmente a um poeta como Augusto dos Anjos, cujas idiossincrasias pessoais e literárias sempre despertaram curiosidade nos que estudam ou simplesmente apreciam seus poemas. O pessimismo, a morbidez, a fixação na morte, presentes na maioria dos seus versos, fazem pensar que ele era um desses misantropos infensos aos apelos mundanos. Tal impressão é acentuada pelas imagens de doença e deterioração física, comumente associadas a um possível “caso clínico” do indivíduo e não ao universo simbólico do poeta.

Dizem que os livros escolhem seus leitores. Se isso for verdade, Jardim Brasil: Contos, de Ronaldo Lima Lins, passou anos me dando um ...

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Dizem que os livros escolhem seus leitores. Se isso for verdade, Jardim Brasil: Contos, de Ronaldo Lima Lins, passou anos me dando um drible digno de Copa do Mundo. Nossa história começou em julho de 2000, sob o pretexto de um romance que o tempo, com sua sabedoria costumeira, transformou em uma daquelas amizades que a gente carrega para a vida inteira.

Durante a Peste Negra, na França, em 1348, a população queimava fogueiras e ervas aromáticas nas ruas e mantinha quarentena de 40 dia...

Durante a Peste Negra, na França, em 1348, a população queimava fogueiras e ervas aromáticas nas ruas e mantinha quarentena de 40 dias. Eles acreditavam na "teoria dos miasmas", que dizia que a doença era transmitida pelo ar contaminado e pelo mau cheiro. Então, a população tentava purificar o ar. Mais tarde, descobriram que aquela fumaçeira de nada adiantou, pois a pandemia que devastou a Europa e a Ásia foi provocada pela *Yersinia pestis*, uma bactéria que se espalhou principalmente por meio de pulgas e roedores.

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