Em uma de suas crônicas, Luis Fernando Veríssimo afirmou que nunca tinha usado o ponto e vírgula. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo.
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Literatura é linguagem ritmada, e, para se imprimir ao texto o seu ritmo, é fundamental o uso desses sinais, que, se a alguns aborrecem e inibem, a outros empolgam e mesmo encantam.
Certa noite, quando o mundo parecia cansado de existir, o tempo encontrou a morte sentada à margem de uma estrada.
Não havia relógios por perto, nenhum sino anunciava a hora, apenas o silêncio, aquele silêncio profundo que costuma aparecer quando a vida já disse tudo o que tinha para dizer.
Dizem os físicos que o tempo só corre para a frente, mas a psique humana ignora solenemente as leis da termodinâmica. Há dias em que a gravidade interior opera ao contrário, puxando o peito para trás, numa dobra invisível do calendário onde o passado deixa de ser arquivo para se tornar presença física. O peito pesa e esvazia ao mesmo tempo, um paradoxo que os filósofos tentam decifrar há milênios, a psicologia chama de memória afetiva e a sociologia trata como o eco coletivo do pertencimento.
Dedico à professora Neide Medeiros,
devota de Graciliano.
Penso — e, mais que penso, sinto — que o Nordeste e o nordestino geralmente são vistos pelos brasileiros de outras regiões, com ênfase nos cariocas e nos paulistanos metidos a cosmopolitas, de forma estereotipada. Nem preciso ressaltar — mas fá-lo-ei — o caráter negativo dessa imagem, pois ele já vem intrínseco à própria definição da palavra estereótipo como “concepção baseada em ideias preconcebidas sobre algo ou alguém, sem o seu conhecimento real, geralmente de cunho preconceituoso ou repleta de afirmações gerais e inverdades”. Isso diz tudo — ou quase.
Recentemente, em Salvador, um repórter estava fazendo uma entrada ao vivo diante de um hospital quando um cachorro de rua se aproximou. O animal brincou com ele, afastou-se e depois voltou carregando um pedaço de pano, deitou sobre o pé do jornalista e ficou ali. O repórter não podia brincar muito porque estava cobrindo uma notícia triste, mas deu o máximo de atenção que podia. O suficiente para a cena chamar bastante a atenção nas redes digitais. O corte da reportagem
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viralizou e chegou até a dona do cachorro. Descobriu-se que o cãozinho estava desaparecido havia mais de um mês e que sua família o procurava. O que começou como uma interrupção banal de uma reportagem terminou com o cachorro reencontrando sua tutora. O próprio repórter resumiu a experiência dizendo que um pequeno gesto de cuidado pode transformar completamente o dia e a vida de alguém.
Nascida por volta de 1507 a.C., Hatshepsut (que significa “a primeira das nobres senhoras”) era uma princesa legítima, filha do rei Tutmósis I e da rainha Ahmose. Após a morte de seu pai, o trono passou para o seu meio-irmão e marido, Tutmósis II, que viria a falecer por volta de 1479 a.C. após um curto reinado. Como o seu enteado Tutmósis III era ainda criança (teria cerca de 2 ou 3 anos de idade), Hatshepsut assumiu o papel de faraó-regente, governando por quase 22 anos (de 1479 a 1458 a.C.).
Apesar de encravada numa garganta de serras do meu mundo particular, num dos vales mais profundos ou mais misteriosos da minha paisagem infantil, vivi, já velho, o estouro da barragem do Camará, esquivando-me por aqui, sem correr atrás, salvo para abraçar os familiares no estrago que o rio fez na Rua do Tacho, em Alagoa Grande, onde sobrevivia um querido tio gago de 96 anos. A torrente grossa levou-lhe a calçada.
Quem imaginaria que um dia o bicho gente voaria para lá e para cá nas asas de um passarão de metal movido a hidrocarbonetos? Incrível! E, por mais que eu decole e pouse, não perco o encantamento. Geralmente, grudo o nariz na janelinha, abro os olhos e viajo.
Existem livros que procuram explicar um poeta. Existem outros, mais raros, que procuram devolver-lhe a complexidade. A Sombra e a Quimera: escritos sobre Augusto dos Anjos, de Chico Viana, pertence a essa segunda categoria. Não se trata simplesmente de mais um estudo sobre o autor de Eu, mas de uma reunião de ensaios que procuram desmontar algumas imagens cristalizadas em torno do poeta paraibano e, ao mesmo tempo, revelar a extraordinária riqueza formal, temática e psicológica de sua poesia.
Desconheço um escritor brasileiro que brinque mais com as palavras do que Guimarães Rosa, demonstrando um profundo conhecimento de nossa língua. Atenção para o que eu afirmo: desconheço, não é que não possa existir. E o sentido de brincar, não é o da ludicidade pela ludicidade,
Estava discutindo com amigos sobre feriados, festas e outros que tais nestes tempos escuros. De repente, ante um comentário idiota, me bateu a obrigatoriedade de nós, homens, respeitarmos mais as mulheres. É que, em nosso mundinho masculino, não atinamos para a oceânica maravilha que são as mulheres. Só que, às vezes, elas também não têm conhecimento do quanto são fantásticas.
Sempre gostei de pensar. E deixo meu pensamento solto para refletir sobre o que algumas frases me dizem e mergulho em perguntas como quem abre uma fresta na janela do tempo para pensar.
Na minha vida, há frases que me fizeram pensar e crescer, e muitas delas saíram de dentro de casa, da casa da minha mainha. Meu pai, o Neguinho Durval, gostava de nos educar e de nos mostrar ensinamentos por meio de frases, pedindo para a gente parar e pensar sobre elas.
Não são muitas, são 15, no máximo, as palavras da língua portuguesa iniciadas com o dígrafo “lh”. Vamos lá: lhe, pronome pessoal oblíquo átono e as contrações das quais resultam lha, lhas e lho, lhos. Depois, temos esquisitices como lharamba, dança popular bem antiga, e lheguelhé, algo ou alguém reles, insignificante. Também, lheismo, embora, originalmente, isso diga respeito a leismo, fenômeno linguístico do espanhol, ao que eu me informo.
Na janela se debatiam as gotas de chuva, e elas tinham o seu sentido de permanência no vidro. Primeiro se chocavam no mesmo ponto e, atordoadas, escorriam até o peitoril da janela. Mas não foi assim com a lágrima de sangue no calor interno daquele quarto.
A pequena tela acima — com o retrato que fiz do Hamlet menino — não sei que fim levou. É fruto da cena que trago aqui, de meu romance "A angústia de Hamlet, segundo seu amigo Horácio, paraibano", que encerrou minha "História universal da angústia", Ed. Bertrand Brasil, 2004, e saiu em edição solo pela Arribaçã, no ano passado.