A minha neta, Luisa, me liga perguntando se eu teria exemplos em casa de: escultura de argila, quadro nordestino, renda, cordel, garrafa de areia. Eu tinha todos. Mandei fotos. Mas o cordel que tinha era uma gravura de J. Borges. Ela prontamente respondeu que aquilo não era cordel. Ela queria o livrinho. Na hora, nem lembrei dos que tinha aqui de Raniery Abrantes. Mas deu certo. Tudo isso fazia parte das suas pesquisas para a Feira do Conhecimento, que fui assistir ontem.
A superstição é uma espécie de religião não sancionada pelas igrejas. Como todo esse tipo de crença, carece de fundamento racional, mas ajuda na fortificação psicológica do indivíduo ante os enigmas e perigos que o cercam. Eles são muitos e tendem a se sofisticar, ganhando novas aparências e nos enredando numa teia de incompreensões que nos fazem sentir pequenos e inermes (vejam o que se diz agora da Inteligência Artificial, cujo potencial risco para o futuro da humanidade tem feito com que os próprios criadores pretendam nela colocar um freio).
Vinte e um de setembro de 1937. Em todo o Brasil, naquele tempo, comemorava-se a Festa da Árvore. A primeira festa havia acontecido em 1903. E, no ano de 1934, houve o decreto do Código Florestal.
Há uma sabedoria antiga na ideia de reservar um momento para olhar para trás. Não se trata de um momento para contar conquistas, medir fracassos ou fazer um inventário daquilo que ganhamos e perdemos, mas para perguntar, com alguma honestidade quem fomos durante o último ano.
Existe uma espécie de cegueira muito particular que atinge apenas aqueles que julgam enxergar demais, uma afecção da vista social que transforma o cinza do conformismo na única cor aceitável para a vida. Quem se recusa a aceitar esse tom pasteurizado e decide marchar em direção ao horizonte, exigindo que cada ser humano tenha direito ao pão na mesa e ao céu sobre a cabeça, é imediatamente diagnosticado com a doença da utopia. A sociedade é rápida em apontar o dedo,
Dizem que o tempo é um juiz implacável. Ele curva espinhas, desbota cabelos, vinca a pele e rouba o brilho dos olhos de quem carregou o peso das boas intenções pela vida inteira. O homem honesto, ao envelhecer, carrega na testa as linhas de cada batalha travada, de cada insônia causada pela ética, de cada concessão que se recusou a fazer. Mas a política brasileira insiste em desafiar a biologia: aqui, os canalhas simplesmente não envelhecem.
Dedico ao médico e amigo Manoel Jaime Xavier,
que me deu o tema
Os cafés, pode-se dizer, são instituições universais: encontramo-los em quase todos os lugares. Se não existissem, precisariam ser inventados, assim como os bares, pois são lugares civilizadores, onde as pessoas se encontram, nativos e forasteiros, para o mais delicioso
Fotografia: Macadam13
dos afazeres: jogar conversa fora. E lá os solitários também acham guarida, pois podem cultivar a solidão e, ao mesmo tempo, observar o movimento do mundo, contemplação preferida dos que são – ou estão – sozinhos. Por isso, aqui e além, os cafés são portos seguros para sedentários e viajantes, uma pausa no tempo e um descanso. Prestam serviços de utilidade pública, principalmente na área da saúde mental, razão pela qual deveriam receber dos poderes constituídos algum tipo de incentivo fiscal e de reconhecimento social. São tão importantes, para a coletividade, quanto os templos religiosos, os hospitais, os mercados e as escolas. E não exagero.
Há desenhos que a gente vê na infância e simplesmente acha engraçados. Depois, muitos anos mais tarde, descobre que alguns deles eram grandes lições disfarçadas de entretenimento.
“Parece que não é obra da mão criativa do homem, pelo trabalho realizado como fantasia vacilante planeada;
Mas da rocha como se por magia crescesse, eterna, silenciosa, bonita, sozinha!
(…) Igualai-me tal maravilha, a não ser em clima oriental,
Uma cidade rosa-avermelhada, metade tão velha quanto o tempo.”
John William Burgon (1845)
Chico Pereira, o propagado cangaceiro Chico Pereira, pai do memorialista, romancista e cronista F. Pereira Nóbrega, não foi o cangaceiro que entrou para a nossa história. Na verdade, não foi cangaceiro coisa nenhuma. Mais uma falha histórica entre tantas. Por falta de pesquisas, pura e simples, certos historiadores se enveredam por caminhos mais fáceis. Valem-se da tradição oral, do imaginário popular, do anedotário, para engendrar os seus enredos. Cada um com a sua versão na ponta da língua e, juram de pés juntos, que contam a pura verdade. O cancioneiro regional, a poesia popular, os cordelistas e os repentistas, se encarregam dos adornos e enfeites. Já dizia o nazista Joseph Goebbels: Uma mentira, ou mesmo,
Eu não conhecia o Curimataú, a não ser pelas descrições literárias de José Américo, pela gagueira do meu primo Augustinho Avelino, filho do velho Noberto. E pelo testemunho bem-humorado de Otávio Henrique, antigo companheiro da Casa do Estudante, egresso de Picuí.
Era uma menina em rascunho. Não era feia. Pelo contrário, era bonita. Não uma beleza pura. Mas era. Só muito tarde saberia. Seu nome? Para quê? A realidade desconhece nomes. Estes só ficaram retalhos do tempo.
Há livros que nascem de uma história monumental; outros, de uma necessidade íntima de compreender o mundo. Bazar de Sonhos, de Germano Romero, pertence a essa segunda categoria. Publicado em 2011, o livro reúne crônicas e outros textos que transitam entre a observação cotidiana, a reflexão social, o lirismo e a contemplação da natureza.
No meio dos papéis amontoados na prateleira do armário, encontro a foto tirada naquele dia, no extenso lajedo com suas instigantes e enigmáticas inscrições cunhadas em baixo-relevo. Naquele dia, chegamos à pedra, no município de Ingá, na Paraíba,
As setenta e oito páginas iniciais de Grande sertão: veredas funcionam, do ponto de vista da organização da narrativa, como uma introdução, longa introdução (22ª ed. 3ª impressão, São Paulo, Companhia das Letras, 2019). Não pense o leitor que, por ser uma introdução, o trecho é de fácil leitura. Não, muito pelo contrário. O narrador não facilita, em nada, a vida do leitor, pois ele próprio se dá conta de sua maneira digressiva de narrar:
“Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas” (p. 22).
Há em Patos um personagem conhecido como “Chico das Preacas”. Dizem que ele é chegado a um dinheirinho emprestado; já pagar, que é bom, é outra conversa. Pois esse tal Chico soube que um novo gerente havia assumido a agência local do Banco do Brasil. Imediatamente, pôs seu terno branco, chapéu, gravata vermelha e subiu apressado a escada que dá acesso à gerência do banco. Largo de gestos e bem-falante, foi logo se apresentando.