No que diz respeito à terra dos Ciclopes, objeto deste ensaio, a tradição aponta, como localização mais provável, a Sicília, a chamada Ilha Trinácria, por causa dos seus três promontórios – o Peloro, a nordeste; o Lilibeu, a oeste; e o Paquino, a sudeste, formando um triângulo. Na narrativa homérica, não se nomeia a Ilha dos Ciclopes, de modo a se imaginar uma
possível localização. Além dessa grande ilha não nomeada, Odisseus faz referência a uma ilhota, onde ele fundeou o grosso de sua frota (Canto IX, versos 116-117; 136-151).
Na minha juventude, era comum a gente se apaixonar por algum artista famoso. Isso fazia parte da vida e era um acontecimento especial. Nossos ídolos eram como super-heróis: míticos e inatingíveis. Restava-nos sonhar com a possibilidade de conhecê-los pessoalmente, um dia.
IGARAKUÊ significa “canoa virada”. Era assim que os povos nativos reconheciam e nomeavam o peixe-boi quando ele subia para respirar. Mamífero aquático, o Trichechus manatus expunha o dorso arredondado sobre a água e, por um instante, seu lombo lembrava o casco de uma canoa emborcada. O nome nasceu de uma observação precisa e, ao mesmo tempo, imagética: subir, respirar e desaparecer novamente.
Não, eu não tinha perdido para sempre, como supunha, nem emprestado sem retorno o “Zélins, Flamengo até morrer”, livro contendo crônicas esportivas de José Lins do Rego selecionadas por Edilberto Coutinho. Encontrei-o, com o coração em festa, no fundo da grande caixa de papelão esquecida num quartinho da casa antiga onde hoje mora o mais velho dos meus três filhos. Ali, ainda jaziam outros livros e uns 150 recortes de matérias minhas no “Jornal do Commercio”, do Recife,
Não será novidade a sensação de estranheza que acomete boa parte da Humanidade terrestre nesse período de ocaso expiatório-provacional e de alvorecer de uma Nova Era de regeneração.
A obra não se entrega à leitura passiva, tampouco se acomoda à linearidade do discurso tradicional. Seu projeto poético parece nascer justamente da recusa ao conforto, da negação de qualquer estabilidade semântica. Aqui, a linguagem não funciona como ponte: ela é abismo.
A indignação que surge ao perceber o abismo entre o cidadão comum e o poder público é tão antiga quanto a própria civilização. Gastar energia, tempo e afeto defendendo figuras que sequer sabem o nosso nome é uma das maiores ilusões da vida moderna.
Aqui, nessas latitudes menores, que revelam nossa proximidade com aquela linha que divide o Hemisfério em duas partes, não é possível distinguirmos as quatro estações que aprendemos nas aulas do colégio ou que lemos nos alfarrábios de geografia. Aqui são só duas as estações: a das águas e a do Sol. Nesse primeiro domingo de setembro, recebemos as últimas chuvas da temporada das águas; lavaram meu quintal, aquietaram minha alma.
Reflexões éticas sobre a prudência, o arbítrio e a integridade da consciência
Era uma daquelas noites em que a conversa escapa do controle e vira algo maior. Estávamos na varanda, tínhamos vinho, petiscos e um longo tempo para conversar. O charuto ainda estava apagado, enrolado entre os dedos, esperando o momento certo. Foi quando a porta se abriu pela última vez e já estávamos todos prontos para nossa confraria de todo mês. Agora era dar início ao ritual, pois bons papos sempre começam com um certo ritual. Não havia pressa, não precisávamos chegar ou correr, pois já estávamos agora. Era só dar força às memórias e aos temas, sempre sobre algo que presenciamos durante o tempo de nossa ausência de convívio.
A escrita, até mesmo para os escritores mais profícuos, tem sido fonte de sofrimento e de prazer. Esse misto de sensações é reforçado devido a uma visão romântica do talento e da inspiração para processos artísticos, numa concepção de que escrever está mais relacionado a dom do que a trabalho, como se a labuta com as palavras diminuísse o artesão. É à ideia de artesania que nos voltaremos, a partir das reflexões do psicólogo Robson Cruz em suas obras “Bloqueio da escrita acadêmica – caminhos para escrever com conforto e sentido” (Artesã, 2020); “O mal-estar na escrita acadêmica: um problema político” (Parábola, 2024) e “Zen e a arte da escrita acadêmica” (Artesã, 2025).
Um dos grandes problemas da produção textual é considerar o texto como produto que já virá perfeito, sem ser necessário reescrevê-lo, submetê-lo a constantes refeituras e leituras feitas pelo próprio autor e por agentes externos, professores, revisores, críticos especializados. Na primeira obra de Cruz, ele aponta que Freud escrevia regularmente, dedicava-se ao estudo de sua língua materna e outros idiomas, convivia com seus dramas e tramas, com auxílio de autores diversos. Isso contribuía para que escrevesse com mais segurança. Quase toda sua obra foi construída em torno do gênero ensaio, cuja denominação é autoexplicativa.
Sigmund Freud (1856–1939), médico austríaco e fundador da psicanálise, trabalha em sua escrivaninha ▪ Londres, 1938 ▪ Foto: Freud Museum
Escrever passa por esse processo de ensaiar repetidas vezes até que a execução se dê satisfatoriamente. Diversos autores já afirmaram que não se publica um texto/livro – abandona-o. Sim, chega uma hora que precisamos deixá-lo ir, retirá-lo da gaveta ou dos milhares de arquivos dispersos. Com isso, não se defende que seja tudo publicado. Moacyr Scliar dizia que a lixeira era uma grande aliada do escritor, apesar de muito poder ser reciclado. O que não serviu a um texto pode ser aproveitado em outro.
Moacyr Scliar (1937–2011), escritor, médico e cronista brasileiro, autor de romances, contos e textos marcados pelo interesse pela cultura e pela condição humana. ▪ Div.
Sobre o âmbito acadêmico, Robson descontrói em “O mal-estar na escrita acadêmica” a ideia de que os estudantes terem ingressado nas universidades representa domínio suficiente de leitura e escrita para o trabalho que será exigido nesse espaço. Afirma que, assim como outros bens distribuídos desigualmente, os letramentos também fazem parte daquilo a que todos deveriam ter direito, mas poucos obtêm, de fato. O acesso à cultura letrada ainda persiste como um problema político, sendo um privilégio de poucos e abarcado por discursos nos quais a meritocracia impera para pôr vendas sobre os olhos
de quem pode mudar essa realidade.
Em “Zen e a arte da escrita acadêmica”, o autor retoma a ideia de “bancar”
a imprecisão como forma de seguirmos adiante em nossos projetos de escrita e de autoconhecimento, processos intimamente interligados. Nas palavras de Cruz:
“Talvez a defesa da escrita imprecisa faça mais sentido se a tratarmos também como uma psicoterapia da escrita acadêmica, visto que o conhecimento mais valioso num consultório de psicologia clínica é aquele que se constrói via uma linguagem vacilante e imprecisa. Qualquer psicoterapeuta bem formado sabe disso. Apenas quando o paciente se liberta das certezas que tem sobre si mesmo e se interessa por aquilo que é impreciso em sua linguagem, é que as possibilidades para a mudança psicológica surgem”.
Entre a linguagem acadêmica e a elaboração na clínica, o processo ocorre de maneira oposta, porque na academia espera-se do pesquisador/estudante muitas certezas, mas esse suposto
Robson Nascimento da Cruz, psicólogo, professor e pesquisador brasileiro, dedicado ao estudo da vida acadêmica, da escrita e da história da psicologia. ▪ Fonte: PUC/RS
saber frequentemente se reveste de arrogância e de opressão a quem entende a dúvida como um processo salutar e lícito na construção do saber.
Ainda em “Zen”, aborda-se a relação do corpo na escrita, lembrando-nos do quanto a utilização das mãos e da postura corporal diante do texto são relevantes para o efeito psicológico na escrita. O ritmo e o som da digitação, o bailar dos dedos, a respiração consciente, tudo isso e outros aspectos têm influência na confecção textual.
Robson Cruz há anos se dedica ao estudo de escrita criativa no meio acadêmico, aos sofrimentos psíquicos oriundos desse contexto e como a política gerencia esses sintomas. É psicólogo, professor da Puc-Minas. Seus textos merecem ser lidos por muitas pessoas que sofrem desse mal-estar na escrita, para compreensão de que não necessariamente precisamos nos livrar dessa angústia, mas aprender a escrever com ela, sem romanceá-la, conciliando as múltiplas sensações do processo criativo.
Amigos residentes nesta cidade convenceram-me a levá-los ao sítio onde havia me criado. Isso foi há cinco décadas, talvez. Mas as lembranças de agora, quando as relembro, são agradáveis.
Já em São Paulo, a perplexidade foi em visitar a Cidade Matarazzo. Um megacomplexo de luxo (mas aberto ao público gratuitamente), localizado na região central da cidade. O projeto, idealizado pelo francês Alexandre Allard, está posicionado no meio de três hectares de Mata Atlântica, em um terreno de mais de 30 mil metros quadrados, onde ficava o antigo Hospital Matarazzo, a 200 metros da Avenida Paulista.
Além do Hospital, outros edifícios históricos, como a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo (1943) e a Capela Santa Luzia (1922), também foram restaurados. Fiquei zonza de ver tanta coisa linda: jardins exuberantes, exposições de arte várias, em especial a
Maternidade Matarazzo, parte do antigo Complexo do Hospital Matarazzo, idealizado no início do século XX por Francesco Matarazzo, célebre imigrante italiano ▪️ Instagram: @nutriflabuschgorz
com as suas linhas, cogumelos gigantes, “Somos um único fio”, de Sandra Anselmi; lojas-conceito; gastronomia distribuída em inúmeros ambientes distintos; o restaurante novo da Bela Gil, Preta Maria; fileiras de stands vendendo chás, biscoitos, geleias e outros quitutes. E muita gente diversa circulando. Um tiramisu de sobremesa que jamais esquecerei. Pelas paredes? Fotos antigas, pratos pregados no teto, madeira de demolição, cores sépia, os presuntos pendurados, os lustres, as luzes, as velas, o Hotel Rosewood. Um destaque para a instalação “Infinite Library, Biblioteca Infinita”, um labirinto de espelhos, um diálogo imperceptível entre um pergaminho e outro. Uma outra intitulada “Come Home Again, Voltar para Casa”. E mais uma: “Sou o outro do outro”. Perdi-me nos novelos, nos livros, nos espelhos e nos meus outros, literalmente.
Em uma de suas crônicas, Luis Fernando Veríssimo afirmou que nunca tinha usado o ponto e vírgula. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo.
GD'Art
Literatura é linguagem ritmada, e, para se imprimir ao texto o seu ritmo, é fundamental o uso desses sinais, que, se a alguns aborrecem e inibem, a outros empolgam e mesmo encantam.
Certa noite, quando o mundo parecia cansado de existir, o tempo encontrou a morte sentada à margem de uma estrada.
Não havia relógios por perto, nenhum sino anunciava a hora, apenas o silêncio, aquele silêncio profundo que costuma aparecer quando a vida já disse tudo o que tinha para dizer.
Dizem os físicos que o tempo só corre para a frente, mas a psique humana ignora solenemente as leis da termodinâmica. Há dias em que a gravidade interior opera ao contrário, puxando o peito para trás, numa dobra invisível do calendário onde o passado deixa de ser arquivo para se tornar presença física. O peito pesa e esvazia ao mesmo tempo, um paradoxo que os filósofos tentam decifrar há milênios, a psicologia chama de memória afetiva e a sociologia trata como o eco coletivo do pertencimento.