Hoje gostaria de falar sobre um escritor pelo qual tenho grande admiração. Sua escrita me fascina. Possuo ternura por sua melancolia. Compreendo seu desencanto diante do mundo que substituiu o seu em meados do século XX. Alguma coisa acabava de chegar ao fim, seu olhar expressava perplexidade. Ele sofre com o declínio da memória europeia. Sua obra é matizada por uma delicada nostalgia. Falo do húngaro Sándor Márai.
Ele e Stefan Zweig fazem parte desse momento histórico que os atingiu profundamente,
Sándor Márai (1900—1989), escritor e jornalista húngaro ▪ Wikimedia, PD (adapt.)
testemunharam o desastre europeu e possuíam o mesmo sentimento de impotência diante dos acontecimentos.
Zweig tinha suas obras publicadas em toda Europa. Márai era considerado o grande escritor do seu país. Como crítico do comunismo, sua obra ficou no limbo durante anos. Somente com o declínio do regime sua obra voltou a ser publicada na Hungria. Eram autores bem sucedidos que se viram de um dia pra outro sem chão. Hoje os dois autores têm suas obras republicadas e ganharam grande destaque nas vendas. Os dois decidiram pelo suicídio. Márai explica em um diário, ainda não publicado no Brasil, que, após acompanhar o longo sofrimento da mulher antes da morte, opta por cometer suicídio, não querendo passar pela mesma sorte dela. Na verdade, ele teve uma longa vida. Já estava com 89 anos em 1989 quando tirou sua vida. Em Memórias da Hungria, ele fala sobre seu sentimento de perda, o desaparecimento do seu mundo, os valores, o estilo de vida. Relata um último jantar com amigos em Budapeste. Conta sobre o dia que os russos bombardearam o prédio onde morava e perdeu metade da sua biblioteca.
“Sim, eu era um burguês aos olhos dos russos, embora eu não vivesse de minha fortuna, nem do trabalho de outro. Eu era burguês na alma porque permanecia ligado a certos valores. Eu não tardaria a compreender que eram precisamente esses valores que o regime soviético pretendia me confiscar.”
A casa de Sándor Márai em Budapeste, bombardeada duranta a Segunda Guerra, 1945 ▪ Fonte: Balassi Institute & Generalitat de Catalunya, via Wikimedia (adapt.)
A visão que ele tinha da Europa: “Ulisses, Jesus e Fausto são os três mitos que criaram a Europa. Ulisses era um aventureiro, Jesus um social-democrata, e Fausto um pesquisador curioso. Foram eles os verdadeiros criadores da Europa. Sem aventura não existiria um começo, sem socialistas não haveria sociedade além de uma tribo, e sem Fausto, não haveria conduta, água, nem explosão atômica”. Pensava que a maldição dos escritores da Europa Central era escrever para suas gavetas. Em Memórias da Hungria ele diz:
“Vivencio o fim de certas coisas, da visão cristã e humanista do mundo e o começo de um mundo diferente. O desaparecimento de grandes culturas e de sua linguagem e o ciclo das guerras imperialistas tinham se tornado uma realidade.”
Monumento em homenagem a Sándor Márai, em sua cidade natal, Košice, atualmente pertencente ao território da Eslováquia. ▪ J. Starec, via Wikimedia
Márai deixou a Hungria em 1948, quando os russos invadiram seu país, que já tinha vivido a ocupação alemã. Ele nos fala do seu pavor ao deixar seu país e a sua língua. Pensava que jamais seria lido em outras línguas. Diz que 95% das línguas na Europa pertenciam à família indo-europeia e que a húngara, sua língua materna, fazia parte dos 5% restantes. E permanecer em seu país significava ausência de liberdade e sem liberdade não há literatura. Posso compreender o tamanho de sua solidão. O escritor não saberia renunciar à inquietude que fundamenta o sentido de sua vida e da sua obra. Márai tinha a língua como pátria. “Temos problemas, quando temos que nos exilar, pois é a língua a nossa identidade cultural.”
Capa da edição de Os Sertões, em tradução para o inglês de Samuel Putnam, sob o título Rebellion in the backlands. ▪ Fonte: Amazon
Duvidava que leitores o lessem em outras línguas. Estava equivocado quanto a isso. Quando seus livros começaram a ser conhecidos no Ocidente, ele ganhou muitos leitores.
Esse grande autor escreveu sobre a guerra dos Canudos sem nunca ter vindo ao Brasil. Tinha lido Os Sertões, de Euclides da Cunha, numa tradução americana de Samuel Putnam de 1944, e se impressionou tanto que resolveu apropriar-se do tema para ficcioná-la à sua maneira. Cria, então, um pequeno romance de 149 páginas. O resultado é uma belíssima peça literária de alta voltagem: Veredicto em Canudos. Ele acaba de escrever em Salerno em 1969 com a seguinte nota ao final: “consegui ler o livro de Euclides da Cunha — como pude — fui até o final somente depois da terceira vez [...] esse clássico da literatura brasileira é uma prova de paciência. O livro é como a mata do sertão: a um tempo abundância e aridez. A lembrança da leitura era inquietadora. Como se eu tivesse estado no Brasil. Como se existisse alguma coisa que tivesse de ser dita [...] O livro me acompanhou da América à Europa. Um dia comecei a escrever.” Mas, a meio caminho do manuscrito começou a ficar inseguro. Então, o movimento de 1968 nas universidades de Paris o inspirou com o slogan: “Seja razoável, peça o impossível”. Isto o animou e ele voltou a escrever. Escreveu em húngaro e foi publicado pela primeira vez em 1970, no Canadá.
Paulo Schiller o traduz e realiza um primoroso trabalho ao confrontar as línguas, identificando as referências do texto de Euclides da Cunha em inglês e em húngaro, corrigindo os equívocos e trazendo para o português as palavras
Veredicto em Canudos (1970), traduzido por Paulo Schiller (2002). Título original em húngaro: Sąd w Canudos. ▪ Fonte: Amazon
que correspondiam ao texto de origem e à realidade brasileira. Até porque algumas palavras não encontram equivalentes em húngaro.
O narrador de Veredicto em Canudos é um bibliotecário, ex-cabo do exército, que rememora anos depois o dia da queda de Canudos em 1897. Seu nome é Oliver O’Connel. O avô e o pai vieram da Irlanda para o Brasil no final do reinado de D. Pedro. O pai fora professor de línguas e teria ensinado inglês aos membros da corte. É ele que conta a história a seu modo. Ele fora escrivão do marechal Bittencourt e diz que tudo o que aconteceu depois em sua vida não teve importância. Resolve então, contar o que viveu como pretexto para viver mais um pouco. Aqui o leitor pode reconhecer na voz do narrador a singular reflexão do próprio Sándor Márai: ao se dar mais um livro para escrever, não estaria ele também adiando sua própria morte? Talvez fosse assim que pensasse, enquanto houvesse sobre o que escrever, algo que respondesse à sua verdade interior e o impelindo a escrever, um “sentido” parecia surgir em sua vida.
“Eu, o velho, que vi tudo o que Euclides narrou. Talvez seja por conta disso que eu sinta certa emoção nesse momento, ao escrever — como o amador que na grande cena do tenor ousa cantar.”
Sándor Márai em Zurique, c.1950 ▪ Fonte: Petőfi Literary Museum (adapt.)
Nos últimos dias em Canudos, quando já não se duvida da morte de Antônio Conselheiro, a narrativa é iluminada por uma cena cinematográfica: “O marechal Bittencourt aponta com a bengala pela janela aberta para as trevas o sertão na direção de Canudos e pergunta: 'Sabe o que é aquilo na escuridão?'
Euclides da Cunha (1866—1909), escritor e jornalista brasileiro. ▪ Fonte: Arq. Nacional (adapt.)
Sei, diz em voz baixa. 'O Brasil'. Antes que saísse o marechal o deteve:
'Seu nome, senhor'".
A resposta veio em tom imparcial e cortês: “Euclides da Cunha”, repórter de O Estado de São Paulo.
O repórter de nome Euclides da Cunha deixará volumosos livros encadernados em couro, relatando a história de Canudos com uma única palavra: Brasil.
Outro grande momento da narrativa é o diálogo do marechal Bittencourt com uma prisioneira sobrevivente que aderira a Antônio Conselheiro. De origem europeia, ela viera em busca do marido, um médico curioso pelo que acontecia em Canudos. Ela vem com a mensagem de Antônio Conselheiro: “Ele não morreu. Outros virão.” O narrador diz ser o único a testemunhar o diálogo em inglês entre a mulher e o marechal, pois somente ele ali compreendia a língua.
"De Canudos não se pode... falar. Canudos só... acontece. Como não se pode falar do amor. Ou da religião. Existe ou não existe. Mas, se falam, não é mais a mesma coisa... Só existe a realidade".
Arraial de Canudos (Bahia), em 1897 ▪ Foto: Flávio de Barros, Museu da República
A cena do banho da prisioneira mensageira do Conselheiro é uma das belas páginas eróticas da literatura. Ela é descrita através do som, só se ouve o barulho da água, os ruídos ligeiros, os marulhos e respingos. É o som da água que os fazem imaginar a nudez de um corpo feminino sensual e uma explosão do desejo pelo corpo da mulher, antes visto apenas como um esqueleto em andrajos.
Os grandes conflitos da Europa ainda assediavam Márai como uma ferida aberta que ele a trata com novas palavras, pois são as palavras que o fazem viver. Talvez por isso o relato de Canudos lhe causou tanto impacto, a ponto de se ver impelido a escrever sua versão. E então ficciona à sua maneira o sofrimento do homem que lhe parece ser o mesmo, não importa a época, ou a localização geográfica do ser humano.
Crianças e mulheres aprisionadas pelo Exército em Canudos, 1897 ▪ Foto: Flávio de Barros, Museu da República
Veredicto em Canudos é de uma beleza comovente. As palavras, uma artesania poética dos sentimentos de um homem que pensava filosoficamente o destino do ser humano.
O autor viveu um período na França, na Suíça e na Itália, antes de se mudar definitivamente para os Estados Unidos. Sua literatura versa sobre o amor, a paixão, a amizade, sobre a vida, sobre a morte e sobre as relações burguesas de uma sociedade que o formou e que desaparecera.
Sándor Márai, nos Estados Unidos.
Na orelha do livro, Milton Hatoum diz que “para essa mulher, mensageira do Conselheiro, Canudos se opõe aos ideais republicanos a fim de instaurar uma nova vida. A história tem mostrado que a utopia dessa nova vida é impossível. No conformismo quase generalizado de hoje, este Veredicto é ao mesmo tempo um alento e um desafio, pois “o impossível é a única coisa em que vale a pena acreditar.”
Títulos que li do mesmo autor, publicados pela Companhia das Letras: As brasas, Confissões de um burguês, O legado de Eszter, Divórcio em Buda, De verdade, Veredicto em Canudos. Também li Mémoires de Hongrie, editado pela Albin Michel.
Canudos também suscitou outros autores a partir de Euclides da Cunha, como o belo livro de Mario Vargas Llosa: A guerra do fim do mundo.