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O livre-arbítrio não existe

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Acho que foi Dostoievsky, em Crime e Castigo, quem disse que, se Deus não existisse, tudo seria permitido. Acho que ele pretendeu dizer com isso que Deus existe para que o homem possa ter a quem prestar contas pelo que faz. Crer em Deus seria crer num freio às más ações pelo medo de pagar por elas.

Acho que esse autor russo se enganou. Crer em Deus é crer que tudo seja permitido, pelo menos na possibilidade de imaginar que, sendo Ele bondoso e justo, tudo seria perdoado. Afinal, Ele também já prevê tudo que fazemos, independentemente do que achamos ter feito por vontade própria.

O livre-arbítrio é a capacidade que um ser humano teria de decidir seu próprio destino por sua própria vontade. Teria. Porque, na verdade, o livre-arbítrio é uma utopia. Lembremos um episódio bíblico que comprova essa ideia. Em Mateus (26.34), em Marcos (14.30), em Lucas (22.34) e em João (13.38), lê-se que Jesus previra que Pedro negaria conhecê-Lo antes que o galo cantasse. O futuro de Pedro estava escrito: Pedro, mesmo contra a vontade, negaria Jesus. Onde estaria o livre-arbítrio de Pedro, se o seu gesto de negar Cristo já estava previsto? Que poderia ele fazer? Como culpá-lo de algo que o destino já lhe reservara à revelia?

Judas teria de trair Cristo ainda que o não quisesse. Estava previsto que Jesus seria traído, preso, julgado e condenado. Como culpar Judas de algo que não dependia de sua vontade, já que não existe o livre-arbítrio?

Sidnei Ramis, mata em Campinas, na festa da passagem de 2016 para 2017, 12 pessoas, incluindo a ex-esposa Isamara Filier, e o filho deles, João Victor Filier de Araújo, de apenas 8 anos. Para quem acredita em Deus, até que ponto esse homicida (que se matou em seguida) é realmente culpado do que fez? Se Cristo previu o “crime” de Pedro, não teria Deus também previsto o crime de Sidnei Ramis? Acreditar em Deus é acreditar que tudo já está previsto, que ninguém escapa ao seu destino, que o livre-arbítrio não existe e que ninguém é culpado de seus próprios atos.

Em Campestre (MG), durante um réveillon, Jeferson Diego Caetano da Costa incendiou, diante do filho de 9 anos, a ex-mulher Renata Rodrigues Aureliano, em quem havia jogado um galão de gasolina. Teria esse criminoso realmente culpa pelo que fez? Não estava previsto por Deus que a mulher morreria queimada e que o marido seria seu assassino?

Uma pessoa que não crê em Deus acredita que apenas ela é dona do seu destino, sem ter quem lhe trace previamente o caminho a seguir na vida. Crer no livre-arbítrio é descrer num ser que tudo vê e tudo prevê. É acreditar que se é responsável por seus próprios atos e por suas próprias decisões. Crer em Deus é, de certa forma, livrar-se de toda responsabilidade. Maktub – dizem os árabes: estava escrito. Como evitar ao rio a sina de molhar o seixo?

Pode-se dizer que Deus sabe, mas o homem não sabe do seu destino. E, por não saber, o homem acha que é responsável por seus próprios atos. Mas não importa o que ele pense, diga ou faça: tudo já está previsto.

Mas, se ele não crê, não tem a quem atribuir a culpa por seus fracassos. Nem a quem agradecer pelo êxito de suas decisões. Ele se crê sozinho e livre. E aí está a essência do livre-arbítrio: ser dono do próprio nariz. Infelizmente, contudo, não existe o livre-arbítrio. Nem até mesmo para os ateus. Nosso destino já está traçado, não importa o que façamos, ainda que achando que o fazemos por vontade própria.

O asno de Buridan não sabia escolher entre beber e comer. Estava previsto que morreria de qualquer forma, independentemente do que decidisse. E morreu. De fome ou de sede. A história não conta o fim. Nem precisava. Maktub.

*José Augusto Carvalho, mestre em linguística pela Unicamp e doutor em letras pela USP, é autor de vários livros de crônicas, como Entre a Cruz e a Caldeirinha (2003), Brumas da Memória (2011), ambos da Editora Florecultura, de Vitória, e Sonhos frustrados (São Paulo: Opção, 2016), entre outros.

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