O sistema da Língua Latina prevê na sua morfologia a existência de 3 gêneros: masculino, feminino e neutro. A morfossintaxe latina ...

Linguagem neutra ou neutralização da língua?

linguagem neutra todes
O sistema da Língua Latina prevê na sua morfologia a existência de 3 gêneros: masculino, feminino e neutro. A morfossintaxe latina apresenta 5 declinações, sendo que o gênero neutro só existe em três delas – a 2ª, a 3ª e a 4ª.

A primeira declinação é de maioria feminina, marcada pela vogal temática -a (não existe desinência de gênero em latim). A segunda declinação é formada por uma maioria de palavras do gênero masculino, abrigando, no entanto,
linguagem neutra todes
um número razoável de palavras do gênero neutro, todas marcadas pela vogal temática -o. A terceira declinação detém o maior número de palavras do latim, dividindo-se em masculinas, femininas e neutras, caracterizadas pela vogal temática -i, mas também contendo palavras atemáticas, com tema zero (ø), portanto. A quarta declinação, igualmente, tem palavras masculinas, femininas e neutra, porém em número menor que as duas anteriores, sendo marcada pela vogal temática -u. Já a quinta declinação apresenta palavras predominantemente femininas, embora em número reduzidíssimo, tendo como vogal temática -e. Em suma: a primeira e a quinta declinações não possuem palavras neutras.

Na passagem do latim para o português, o gênero neutro é descartado pelo sistema da nova língua, deixando apenas resquícios, como nos pronomes isso, isto e aquilo, por exemplo, não fazendo parte, no entanto, do nosso sistema morfológico. Essa ausência não significa que o gênero neutro não pode, algum dia, vir à tona, uma vez que ele existe no sistema das línguas, como um todo.

linguagem neutra todes
Como as línguas, no entanto, trabalham sempre tendendo à simplificação e à economia, a língua portuguesa entendeu que o gênero neutro não se fazia necessário, tendo em vista a contaminação entre as vogais temáticas -o e -u, das palavras masculinas ou neutras da segunda e da quarta declinações, e parte das palavras neutras da terceira declinação, que apresenta a vogal -u, no final de seu radical, todas se transformando em -o. É desse modo que a maior parte das palavras neutras da segunda e da quarta declinação, e as da terceira, dentro das condições expostas, passaram para o masculino na língua portuguesa, sem deixar, no entanto, aglutinar, quando necessário, o sentido do neutro. Vejamos o quadro abaixo:

Gênero Neutro
Declinação Palavra Tradução
Templum Templo
Verbum Verbo (no sentido de palavra)
Principium Princípio
Corpus Corpo
Tempus Tempo
Genu Joelho
Cornu Corno (no sentido de chifre)
Ressalte-se que, no sistema da Língua Portuguesa, considera-se o masculino como gênero não-marcado, o que significa que não existe desinência de gênero para o masculino. O morfema -o continua, em português, com o mesmo valor que ele tem em latim: vogal temática. Tanto lupo (lobo, no dativo ou ablativo singular), quanto lobo terão a mesma descrição: radical (lup-/lob-) e vogal temática (-o/-o). No que diz respeito ao feminino, a situação não é diferente. No latim, uma palavra como lupa (loba) será descrita como radical (lup-) e vogal temática (-a), diante da inexistência, conforme já afirmamos, de uma desinência de gênero que marque o feminino. A palavra é feminina, tendo em vista que a vogal
linguagem neutra todes
temática -a indica uma preponderância de palavras femininas na primeira declinação. Observa-se, no entanto, que a existência de um par opositor, com relação ao sexo – lupus/lupa; discipulus/discipula; puer/puella (criança) –, atribui, naturalmente um sentido a mais à vogal temática, aglutinando uma informação de gênero.

Em português, ocorreu de modo diferente. O que era uma vogal temática, marca de uma declinação específica, passou a ter dupla função: vogal temática, quando não retrata uma oposição, com relação ao sexo – saca, mata, reta – e desinência de gênero, quando existe um par opositor, traduzindo uma relação entre sexos – pato/pata; lobo/loba; menino/menina; primo/prima. A transformação ocorrida do latim para o Português determinou, portanto, que o gênero feminino é decorrente de uma flexão, em que se acrescenta ao radical da palavra a desinência de gênero -a, não de uma desinência de declinação, caracterizadora de um grupo específico de palavras (a declinação, de ordem morfológica) e que influi numa mudança função na frase (os casos, de ordem sintática), concedendo ao latim encontrar-se numa categoria de línguas morfossintáticas, nas quais não se pode separar a morfologia da sintaxe: uma palavra latina, mesmo isolada de uma frase, diz da sua morfologia (declinação) e do seu caso (sintaxe). Isto não ocorre em português.

linguagem neutra todes
Diante do exposto, podemos dizer que o neutro está contemplado na língua portuguesa, tendo se aglutinado às formas masculinas. Só o estudo das origens de nossa língua é que poderá nos esclarecer isso.

Acrescente-se que formas como tode/todes podem ser faladas ou escritas por quem assim o desejar, mas não se pode obrigar as pessoas a usá-las, por não estarem no sistema da língua portuguesa. Desinências como o -a e o -o não têm sentido sozinhas. Elas só ganham significado quando anexadas a um radical. Assim, o -a só será desinência de gênero, quando houver uma oposição que determine a flexão: menino/menina.
linguagem neutra todes
Caso contrário, ele poderá ser vogal temática (mesA), alfa privativo (Acéfalo) ou sufixo modo-temporal (partA). Do mesmo modo, o -o, que nunca é desinência de gênero, poderá ser vogal temática (carrO) ou desinência número-pessoal (amO). Nos dois, casos, diferentemente de um radical que expressa um sentido, mesmo isolado, as desinências, isoladamente não dizem nada.

No caso de da desinência -e, poderemos ter vogal temática (estantE) ou sufixo modo-temporal (amE), jamais uma desinência de gênero. O que se deseja, na realidade, com a instituição do modelo tode/todes e seus congêneres é uma neutralização da língua, estranha a seu sistema morfológico, impermeável a modismos ou aos usos de grupos isolados.

Deixo bem claro, por fim, que cada um é livre para falar e escrever como quiser, e respeito essa vontade, mas devem-se observar duas diretrizes impostas pelas línguas: não se pode obrigar ninguém a adotar um uso; não podemos modificar aquilo que pertence ao sistema interno da língua, que permanece, de certo modo, imutável, porque não o adquirimos por vontade, mas porque viemos preparado para usá-lo, por existir antes mesmo de aprendermos a falar. A modificação se dá apenas no sistema externo, como, por exemplo, nos acréscimos que se fazem diariamente ao léxico.

COMENTE, VIA FACEBOOK
COMENTE, VIA GOOGLE
  1. Anônimo5/4/25 06:56

    Uma aula sobre um tema muito atual. Parabéns, Milton. Francisco Gil Messias.

    ResponderExcluir
  2. Anônimo5/4/25 07:02

    Obrigado pelos ensinamentos, Professor Milton!

    ResponderExcluir
  3. Anônimo5/4/25 07:27

    Caro confrade.
    Tenho grande satisfação elevada honra ao ler este
    seu texto.
    Com apreço.
    Astênio César Fernandes

    ResponderExcluir

leia também