Estou atentamente vendo todos a minha volta envelhecerem. Meus olhos estão mais vigilantes aos traços da minha face. De crianças a id...

Balancê do tempo

reflexao tempo idade experiencia vida velhice
Estou atentamente vendo todos a minha volta envelhecerem. Meus olhos estão mais vigilantes aos traços da minha face. De crianças a idosos noto o seu desenvolvimento – do físico à personalidade. Dos novos aos velhos hábitos. Gente que há tempos não vejo e, se não falarem comigo e não me derem alguns segundos para os reconhecer, corro o risco de passar vexame.

reflexao tempo idade experiencia vida velhice
GD'Art
E fico no meio do embate cronológico, em busca de um bem-viver que abarque pessoas de idades diversas me circundando, para que eu não caia em breve na frase clara do envelhecimento: “no meu tempo...”. São os desafios da convivência intergeracional. Alcançar uma longevidade saudável passa por saber conviver com pessoas de culturas e idades diversas, respeitando seus quereres e aversões, seus modismos e sua imaturidade, independente da sua cronologia.

É que o tempo do relógio se difere da forma como as experiências foram condensadas em cada indivíduo. Ao ver uma criança e a considerarmos mimada, esquecemo-nos de que também a fomos e até hoje damos nossos “showzinhos”. Se não publicamente, em nossas residências e duelos internos. Nosso “paninho” está ali repousado sobre a cama, a chupeta ganhou outra representação – pode ser esse celular que não sai da sua mão. Mais fácil esquecer o fígado em casa do que essa geringonça.

reflexao tempo idade experiencia vida velhice
GD'Art
Ao nos voltarmos para um adolescente, podemos enxergá-lo como estranho, fútil, bobo, mas nos esquecemos do quanto possivelmente assim o fomos. Também conversávamos bobices, tínhamos nossas “neuras”, sentíamo-nos em um corpo inadequado, ora usando roupas apertadas e/ou com enchimentos, ora roupas folgadas para não marcar as formas corporais. Maquiamos as espinhas, as estouramos nos espelhos, num misto de prazer e nojo. Quisemos desaparecer e, por vezes, ainda tentamos sumir para não darmos satisfação a ninguém, nem mesmo a nós.

Como nós somos impacientes com os processos. Elegemos o agora como o perene, esquecemo-nos da transitoriedade. As espinhas vão embora. As modas, conforme disse Oscar Wilde, são tão ruins que mudam a cada seis meses. Nosso humor? Tão volúvel que em segundos se esvai a euforia. Qual é o melhor? O riso fácil ou aquele que se arranca a fórceps? Desconfio que seja o riso oriundo dos momentos de descontração. Parte-se e reparte-se até, quem sabe, sentir-se confortável em si.

reflexao tempo idade experiencia vida velhice
GD'Art
Perguntaram-me o que é a felicidade. Talvez seja estar conciliado com as próprias escolhas, ainda que suspeitando não terem sido as mais assertivas. Também abraçar-se para com essa energia conseguir repassar o acalento a quem dele necessitar. Todos precisam, até aqueles encorujados na soberba, reativos, os que vivem a gritar ao mundo o quanto este os deve.

Sim, eu vejo gente velha. Com que frequência? O tempo todo. Gente que envelheceu antes do tempo. Absorvidas por tabus, pelo medo e por julgamentos alheios. Por recearem o silenciamento, calam-se e abafam a comunicação. A fala falha antes de sair. Não conseguem deslocar os preconceitos para vivenciar a realidade fora da caverna. Não suportam o incômodo, parte natural do processo de romper a casca.

A vida é movimento. Se muito parados, enferrujamos nosso organismo até a alma. Os ressentimentos ficam nos regurgitando e na solidão não se dissolvem. Mas também vejo aqueles que resistem. Que riem alto, sem receio de parecerem vulgares, os que dançam sem se importar se o passo está certo ou errado. Sem medo do ridículo. Eu ainda não aprendi a dançar e confesso: tenho inveja do desprendimento daqueles que, num balancê, puxam para roda seus fantasmas e com eles se divertem.

reflexao tempo idade experiencia vida velhice
GD'Art
Sigo observando, ora tateando as sombras, ora respirando as luzes. Tentando encontrar um meio-termo entre o prazer e a angústia de viver. Sei que meu medo de perder me impede de ganhar. Que não nos falte a coragem de não só contemplarmos o velho, mas de continuarmos olhando o mundo com olhos de descoberta, como quem avança sobre um fruto maduro e se deleita.

COMENTE, VIA FACEBOOK
COMENTE, VIA GOOGLE
  1. Anônimo3/4/25 07:35

    Seu texto possui a sabedoria dos vividos e a boa disposição dos que ainda têm o que viver. Observando-os, Leo, você cresce nas duas direções, colhendo o que importa. Parabéns. Francisco Gil Messias.

    ResponderExcluir

leia também