Estou atentamente vendo todos a minha volta envelhecerem. Meus olhos estão mais vigilantes aos traços da minha face. De crianças a idosos noto o seu desenvolvimento – do físico à personalidade. Dos novos aos velhos hábitos. Gente que há tempos não vejo e, se não falarem comigo e não me derem alguns segundos para os reconhecer, corro o risco de passar vexame.
GD'Art
É que o tempo do relógio se difere da forma como as experiências foram condensadas em cada indivíduo. Ao ver uma criança e a considerarmos mimada, esquecemo-nos de que também a fomos e até hoje damos nossos “showzinhos”. Se não publicamente, em nossas residências e duelos internos. Nosso “paninho” está ali repousado sobre a cama, a chupeta ganhou outra representação – pode ser esse celular que não sai da sua mão. Mais fácil esquecer o fígado em casa do que essa geringonça.
GD'Art
Como nós somos impacientes com os processos. Elegemos o agora como o perene, esquecemo-nos da transitoriedade. As espinhas vão embora. As modas, conforme disse Oscar Wilde, são tão ruins que mudam a cada seis meses. Nosso humor? Tão volúvel que em segundos se esvai a euforia. Qual é o melhor? O riso fácil ou aquele que se arranca a fórceps? Desconfio que seja o riso oriundo dos momentos de descontração. Parte-se e reparte-se até, quem sabe, sentir-se confortável em si.
GD'Art
Sim, eu vejo gente velha. Com que frequência? O tempo todo. Gente que envelheceu antes do tempo. Absorvidas por tabus, pelo medo e por julgamentos alheios. Por recearem o silenciamento, calam-se e abafam a comunicação. A fala falha antes de sair. Não conseguem deslocar os preconceitos para vivenciar a realidade fora da caverna. Não suportam o incômodo, parte natural do processo de romper a casca.
A vida é movimento. Se muito parados, enferrujamos nosso organismo até a alma. Os ressentimentos ficam nos regurgitando e na solidão não se dissolvem. Mas também vejo aqueles que resistem. Que riem alto, sem receio de parecerem vulgares, os que dançam sem se importar se o passo está certo ou errado. Sem medo do ridículo. Eu ainda não aprendi a dançar e confesso: tenho inveja do desprendimento daqueles que, num balancê, puxam para roda seus fantasmas e com eles se divertem.
GD'Art