“Saúda, por mim, Abu Bakr, os queridos lugares de Silves e diz-me se deles a saudade é tão grande quanto a minha.
Saúda o Palácio das Varandas, da parte de quem nunca o esqueceu, morada de leões e de gazelas salas e sombras onde eu
doce refúgio encontrava entre ancas opulentas e tão estreitas cinturas.
Moças níveas e morenas atravessavam-me a alma como brancas espadas como lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei, lá no remanso do rio, preso nos jogos do amor com a da pulseira curva, igual aos meandros da água, enquanto o tempo passava...
ela me servia vinho: o vinho do seu olhar, às vezes o do seu copo, e outras vezes o da boca.
Tangia-me o alaúde e eis que eu estremecia como se estivesse ouvindo tendões de colos cortados.
Mas se retirava as vestes grácil detalhe mostrando, era ramo de salgueiro que me abria o seu botão para ostentar a flor.”
Al-Muʿtamid ibn ‘Abbad
Al-Muʿtamid ibn ‘Abbad
Adoro o Sul. Os sonhos que suscita, o deslumbre omnipresente que o envolve. A poesia da terra, o coração aberto das pessoas e os contornos das dunas modeladas pelo vento. É uma magia portuguesa, e se eu tivesse de dizer porquê, diria que é por causa da luz do céu, da quietude, e do quinhão de graça, riqueza cultural, psicológica e temperamental das gentes e das tradições.
Praia de Odeceixe, no sul de PortugalT. Schwaak
AcervoA. Rodrigues
Naquele tempo, a região, por assim dizer, mais erudita, era o Sul. No Sul vivia-se mais longe das fronteiras e fora do perigo da guerra. Por isso, era mais propício aos homens dedicarem-se à cultura. Com efeito, de Évora (Yabura) para cima, encontramos poetas, gramáticos, oradores, historiadores, mas não matemáticos, juristas ou filósofos, ciências que supõem maior concentração do espírito e abstração.
Parafraseando o poeta Garcia Lorca, nessa alegoria de analogias, “regressa-se da imaginação como se regressa de um país estrangeiro e o poema é o relato da viagem”. E reflito na alcaria de Lagos (Halq az-zawaia; lago), na linha da costa, conquistada pelos árabes no século VIII e que durante séculos foi o porto mais famoso da zona, de onde partiram muitas caravelas que viriam a realizar grandes incursões por África e Índia, em busca de riquezas sonhadas. Silves é o próximo destino deste itinerário. Silves que desde o tempo do al-andalus conta com uma história fausta, como capital do Gharb
Silves, Portugal ▪ Imagem (inf.): Vítor Oliveira
Silves foi imortalizada como um grande centro do prazer e do luxo. Ficaram célebres as suas noites de festa e de música, de poesia e de dança, de prodígio sem par, as suas tardes suaves e mornas, de doces afagos, deleitáveis tufos de arvoredo, fragrância dos perfumes e das brisas, cálices com as flores da juventude, de reflexos violetas e de branda penumbra. O poeta Idrisi elogiou a pureza de linguagem e a cultura dos seus habitantes. A tendência dos silvenses para a poesia era proverbial. Qazwini não hesitou em dizer que, em Silves, qualquer lavrador, atrás do seu arado, sabia compor versos e Al-Maqqari reafirma que aí, qualquer criança, mesmo de pouca idade, era capaz de manter um diálogo em verso.
De belo aspecto, de construção elegante e possuidora de bazares bem fornecidos, com gente do povo que se exprimia de maneira eloquente e citava versos de cor, ligada aos nomes e obras de Ibn ‘Ammar, Ibn Qasi e Al-Mut’amid, Silves guarda ainda a evocação da madina, da alcazaba, a cerca urbana de alvenaria vermelha com as torres albarrãs quadrangulares do século XII e do notável Palácio das Varandas (Qasr ash-Sharajib) que foi, no Ocidente, uma assumptível visão idílica, adornado, celebrado e cantado por artistas, historiadores e poetas, com o mais alto requinte, encantamento e fulgor.
Também a lenda tomou conta do Sharajib e do castelo onde deve ter existido. Ao castelo se atribui a lenda das amendoeiras. Um rei mouro teria mandado plantar amendoeiras nos montes em redor, para dar a sua esposa, uma cristã do norte, a impressão da neve, a que ela se havia acostumado, e sem a qual vivia em nostalgia intensa. Desaparecidos os mouros de Silves, perpetuada ficou aí outra lenda, símbolo de saudade e de tragédia, a lenda da moura que surge na cisterna do castelo, na noite de S. João, à meia-noite, numa barquinha de oiro com remos de prata, entoando hinos dolentes da sua raça banida.
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Tavira, Portugal
Loulé (al-‘Ulya; lugar elevado, colina, outeiro) com a almenara cujo embasamento chegou até aos nossos dias, não obstante as referências iconográficas ao minarete da mesquita de Mértola e se conheça a lápide fundacional da de Moura. Sagres (ash-Shaqris), o cerro de Vilamoura, as fortificações islâmicas de Paderne (Batirna), Salir e os seus cinco torreões construídos em taipa militar cuja tipologia devem datar da época almoada, Cacela (Qastalla Darraj), berço do poeta Ibn Darraj al-Qastalli, Almancil (al-mansil; corrente de água), Aljezur (al-juzur; as ilhas) e a vila de Monchique, rodeada de aprazíveis socalcos e jardins onde se espraia.
No extremo de um promontório a pique sobre o mar branqueja a povoação de Porches (que parece ser a pluralização da palavra árabe burj, torre militar), centro de peregrinação moçárabe em época islâmica, terminando o Gharb, no extremo ocidental, no Cabo de São Vicente (Taraf al-uruf) onde se erguia, a sete milhas dali a famosa Igreja do Corvo (kanisat al-gurab), na qual repousavam os restos mortais de S. Vicente, diácono mártir de Córdova, do tempo das perseguições de Diocleciano, transportados primeiro para Valência e depois, no tempo de ‘Abd Ar-Rahman I, para aquele local. O Cabo tirou o seu nome dos corvos que, segundo a tradição, haviam acompanhado o corpo do santo e aí se mantinham, em volta do seu túmulo. Esse convento dispunha de grandes rendimentos em todo o Algarve, provenientes de propriedades que haviam sido doadas pelos devotos do santo, os quais permitiam oferecer uma adiafa, comida ligeira, a todos os que a ele chegassem, fossem cristãos ou muçulmanos.
Contavam-se muitas estórias a propósito das maravilhas operadas pelos corvos que velavam o corpo do santo. Uma delas relata que sobre a cúpula da igreja havia sempre um corvo que lá do alto avisava para dentro do convento, quando via surgir peregrinos para uma mesquita que ficava em frente, grasnando tantas vezes quantos os caminhantes muçulmanos que vinham na estrada ao longe. Desta maneira, os monges sabiam quantas refeições deviam preparar para os peregrinos que iam à mesquita, pois estava entre as suas obrigações fornecer alimento também a esses. Através dessa e de outras obsequiosidades, os monges obtinham franca proteção das autoridades muçulmanas.
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E de olhos pousados em horizontes longínquos, gravados de outros rumos, é aqui, ao sul, que me acantono, revivo e faço o tempo valer. No fluir das estações, do calor e da invernia, das folhas e dos frutos, da quietação e das tempestades.
Margens do rio Arade, Portugal
Paisagens de Mértola: castelo e rio Guadiana. ▪ Imagens: Vítor Oliveira
A jusante, as ondas, inumeráveis, todas do mesmo mar, esgadanham o fundo das falésias e expelem uma poeirada de gotículas frias que me faz bem ao humor. A montante de mim os brancos planaltos entre vales verdejantes dão-me uma antevisão da linguagem própria dos anjos eternos e solitários que sussurram mistérios, belezas e magias do tempo das princesas mouras e que continuam nossas...É a tal magia, a alquimia da felicidade. E quando na maré grossa, buliçosa e bulhenta, o sol começa a baixar na sua vertente direita é irresistível. Parece que a morada dos deuses é já além, pois que aqui a experiência da vida ensina-nos que este já além, dito pelos homens do Sul, é adequado a qualquer distância astronómica ou física, mesmo das mais curtas.