A lua minguante no céu do Brasil naquela noite de quarta-feira e às onze da noite o silêncio da cidade refletia-se naquele mundo de gente que, em silêncio, abandonava o campus em busca de casa.
Eu seguia lado a lado com Raquel e a lua minguava e ela usava aquele seu “jeans” e uma blusa branca pedindo reforma agrária para o Brasil em nome do PT. Aquelas primeiras palavras de Gabeira – porque tínhamos acabado de ver uma conferência com ele – “Olha eu estou muito orgulhoso por estar aqui hoje na Paraíba...”, ainda estava
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E quando desviei o olhar lá estava Raquel bem na minha frente, com aquela blusa branca pedindo reforma agrária para o Brasil em nome do PT, e no meu olhar eu pedi uma reforma agrária no coração dela, e que ela me entregasse a minha parte daquele latifúndio de sangue e carne. Ela riu e gesticulou – porque tava um barulho danado – que só viu nos meus olhos uma cor vermelho-sangue, e que ela sabia que não tinha sido um cisco que caiu no
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E de repente, eu, com as mãos nos bolsos para não agarrá-la, caminhava ali, lado a lado com Raquel, enquanto no céu do Brasil a lua minguava e o silêncio da cidade numa quarta feira parecia contagiar a todos que abandonavam o campus em busca de casa.
Baby, como eu queria ser o único latifundiário desse teu corpinho, como eu queria ter teus olhos, duas pérolas negras num cordão dependurados, bem aqui, no meu pescoço, e eles passeando pelo meu peito sem pelos....
E eu ia sentindo a estrada passando e chegando ao final e eu sem dizer nada e ela de cabeça baixa olhava para o chão como se estivesse contando os passos que já tinha andado e ela não viu a lua minguando no céu do Brasil como eu…
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“Hoje eu sonhei que era um dia de 64 e eu comungava da fome brasileira negra fome Negra dentro das grades para aprisionar meu coração...”
E de repente eu senti saudades de hoje, como se “hoje” fosse vinte anos atrás e eu hoje, que é como se fosse vinte anos atrás lembrei da Deusa Negra de blusa de grades para aprisionar meu coração, e na lembrança lembrei quando a lua minguava no céu do Brasil e eu lado a lado com Raquel tirei a mão direita do bolso
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Raquel, acho que te amo…
A voz saiu da minha boca como um eco de uma garganta de pedra, profunda, redonda e arrependida.
Foi quando ela olhou para o céu do Brasil e viu a lua minguando como eu, pela primeira vez.
- A lua hoje é minguante! Respondeu-me ela com aquele espanto de quem diz “Eureka!”
“Baby, como eu queria ser aquele doente que recebe uvas roxas no hospital, quem sabe os teus lábios estariam entre elas.”
- Raquel, acho que te amo...
E ela me disse que a lua era minguante no céu do Brasil, enquanto as caixas de som do abafado auditório anunciavam que ia começar o debate com Fernando Gabeira, líder do PV e ex-candidato a governador do Rio de Janeiro, depois de mais de meia hora de espera.
João Pessoa, em algum dia e mês de 1989