A lua minguante no céu do Brasil naquela noite de quarta-feira e às onze da noite o silêncio da cidade refletia-se naquele mundo de ge...

Rachel Welch, a Deusa Negra e a Lua Minguante

amor paixao lua minguante anos 68
A lua minguante no céu do Brasil naquela noite de quarta-feira e às onze da noite o silêncio da cidade refletia-se naquele mundo de gente que, em silêncio, abandonava o campus em busca de casa.

Eu seguia lado a lado com Raquel e a lua minguava e ela usava aquele seu “jeans” e uma blusa branca pedindo reforma agrária para o Brasil em nome do PT. Aquelas primeiras palavras de Gabeira – porque tínhamos acabado de ver uma conferência com ele – “Olha eu estou muito orgulhoso por estar aqui hoje na Paraíba...”, ainda estava
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nos meus ouvidos e foi quando ele disse isso que eu olhei para o lado e me deparei com aquela Deusa Negra, de pé, no corredor direito, com um chapéu preto e uma blusa branca listrada de preto que pareciam grades para aprisionar meu coração. E ela me olhou e riu com uma boca sem batom e quase negra e os lábios tinham cor de uva roxa e eu acho que deveria ter também gosto de uva roxa, porque ela tinha cara alegre, que doente faz quando ganha uva roxa no hospital, e ela sorriu assim e eu desviei o olhar porque perto dela tinha um cara com cara de tacho, que eu pensei que fosse o namorado dela.

E quando desviei o olhar lá estava Raquel bem na minha frente, com aquela blusa branca pedindo reforma agrária para o Brasil em nome do PT, e no meu olhar eu pedi uma reforma agrária no coração dela, e que ela me entregasse a minha parte daquele latifúndio de sangue e carne. Ela riu e gesticulou – porque tava um barulho danado – que só viu nos meus olhos uma cor vermelho-sangue, e que ela sabia que não tinha sido um cisco que caiu no
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meu olho porque tinha que ser muita coincidência cair dois ciscos, um em cada olho, de uma só vez. Mass o que o meu olho estava dizendo era que eu queria uma reforma agrária naqueles montes e vales sob a blusa branca que pedia reforma agrária para o Brasil em nome do PT, e por isso tinha sangue nos meus olhos, como nas margaridas brasileiras.

E de repente, eu, com as mãos nos bolsos para não agarrá-la, caminhava ali, lado a lado com Raquel, enquanto no céu do Brasil a lua minguava e o silêncio da cidade numa quarta feira parecia contagiar a todos que abandonavam o campus em busca de casa.

Baby, como eu queria ser o único latifundiário desse teu corpinho, como eu queria ter teus olhos, duas pérolas negras num cordão dependurados, bem aqui, no meu pescoço, e eles passeando pelo meu peito sem pelos....

E eu ia sentindo a estrada passando e chegando ao final e eu sem dizer nada e ela de cabeça baixa olhava para o chão como se estivesse contando os passos que já tinha andado e ela não viu a lua minguando no céu do Brasil como eu…

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Toda a estudantada falava ao mesmo tempo e aquele barulho, um “zum-zum-zum”, parecia um coro, e eu tive vontade de cantar “The boy with the thorn in his side” dos Smiths, enquanto procurava com os olhos aquela Deusa Negra que resolvera aparecer ali entre os mortais, e de repente ela apareceu bem por trás de Gabeira enquanto ele falava do abraço que milhares de pessoas deram na lagoa Rodrigues de Freitas, liderados por ele, no Rio de Janeiro e eu quis liderar milhares de abraços na Deusa Negra que vestia grades para aprisionar meu coração, e eu pensava no poema que escreveria para ela quando saísse dali…

“Hoje eu sonhei que era um dia de 64 e eu comungava da fome brasileira negra fome Negra dentro das grades para aprisionar meu coração...”

E de repente eu senti saudades de hoje, como se “hoje” fosse vinte anos atrás e eu hoje, que é como se fosse vinte anos atrás lembrei da Deusa Negra de blusa de grades para aprisionar meu coração, e na lembrança lembrei quando a lua minguava no céu do Brasil e eu lado a lado com Raquel tirei a mão direita do bolso
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e quis pegar a sua mão esquerda que retirava dos olhos uma mecha displicente de cabelos, e não tive coragem.

Raquel, acho que te amo…

A voz saiu da minha boca como um eco de uma garganta de pedra, profunda, redonda e arrependida.

Foi quando ela olhou para o céu do Brasil e viu a lua minguando como eu, pela primeira vez.

- A lua hoje é minguante! Respondeu-me ela com aquele espanto de quem diz “Eureka!”

“Baby, como eu queria ser aquele doente que recebe uvas roxas no hospital, quem sabe os teus lábios estariam entre elas.”

- Raquel, acho que te amo...

E ela me disse que a lua era minguante no céu do Brasil, enquanto as caixas de som do abafado auditório anunciavam que ia começar o debate com Fernando Gabeira, líder do PV e ex-candidato a governador do Rio de Janeiro, depois de mais de meia hora de espera.

João Pessoa, em algum dia e mês de 1989


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