Tire sua dor do meu caminho Não é de hoje que ouço, ou algumas vezes leio, a máxima de que a felicidade é uma prerrogativa dos idiot...

Por que complicar?

tristeza angustia producao intelectual
Tire sua dor do meu caminho

Não é de hoje que ouço, ou algumas vezes leio, a máxima de que a felicidade é uma prerrogativa dos idiotas. Ousam dizer por aí que criaturas geniais, poetas, escritores, músicos, artistas, cientistas, filósofos, criaturas dos mais diversos segmentos têm, cada uma delas, de amargar uma dor lancinante na alma para atestar o valor de sua obra. Dito assim, o sofrimento perece ser uma virtude, ou um atributo quase imprescindível a toda gente que coloca a massa cinzenta, vulgo cérebro, para funcionar em regime quase de servidão. Atrelada a essas alegações, fica implícita a ideia de que criaturas felizes são intelectualmente inferiores.

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Fyodor Mikhailovich Dostoyevsky
@Popova Olga
Para isso há uma série de alegações, como por exemplo, a de que a visão de mundo que eles, os sofridos, têm é diferente da nossa que nos damos ao direito à bem-aventurança. Só eles (assim pensam) enxergam as contradições da humanidade e é por isso que sofrem, sofrem... E é dessa amargura que brota uma produção intelectual supostamente exuberante dessa plêiade de desafortunados. O martírio interior, dizem esses mal amados, é o adubo que faria vigorosa a lavra que produzem. Pode sim até ser, que o diga Dostoievsky, só que não devemos considerar essa possibilidade como imprescindível, condição “sine qua non”.

Assim, fica até parecendo que a genialidade está exclusivamente agregada às destemperanças da alma, ao sofrimento. É uma tese frouxa e que não se sustenta. Tomemos dois geniais paraibanos que se destacaram na literatura para que eu possa separar o joio da farinha: Augusto dos Anjos e Ariano Suassuna.

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Augusto dos Anjos
@leopoldina.mg.gov.br/
O primeiro, quer pela biografia, quer pela obra, pode-se perceber a inquietude de sua alma e de que a vida não fora tão generosa quanto ele merecia. Mas vêm as perguntas: Foi o sofrimento que o fez genial? Ou foi genial apesar do sofrimento? Então, que deixemos claro que as desventuras podem, claro que sim, inspirar obras geniais. “Escarra nesta boca que te beija” é uma cusparada na humanidade, a descrença nas mais diversas manifestações de afeto. Modo de colocar em versos suas angustias é simplesmente genial. O poeta tem esse direito, e no caso eu, o leitor tenho o benefício da interpretação. Trouxe este exemplo para que fique claro que não descarto a amargura como mola propulsionadora de uma grande obra. Augusto é um exemplo.

Já o segundo foi tirado da prateleira para entendermos que a alegria também pode ser fonte inspiradora. É o que sinto na irreverência de João Grilo e Chicó. Ou se formos ouvir Ariano em suas “aulas espetáculo” fazendo a plateia ir ao delírio com seus causos. Quanto daquilo dito nessas palestras era verdade? Quanto era invencionice, ainda mais vindo de quem tinha singular apreço pelos mentirosos. Ariano foi um homem longevo e ao que me consta, feliz, bem sucedido e me parece não vivia passando por apertos nas finanças. Aí a confirmação de que alegria e bom humor também podem ser
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Frases Ariano Suassuna
alicerce de uma grande obra. “Eu” de Augusto e “O auto de compadecida” de Ariano são as duas pontas dessa corda que estou esticando aqui. Genialidade é um dom que pode aflorar independentemente do que a vida nos tenha reservado.

E qual a minha motivação para o presente texto? É que já estou, como dizem, “por aqui” de ouvir essas balelas de que felicidade e burrice são carne e unha. “Uma está sempre com a outra e a outra está sempre com a uma” , dizem alguns idiotas que se consideram referências para a humanidade.

Meu caso em particular, quando tomo deste ofício de escrever, reconheço minhas poucas virtudes e não escondo que este ato é para mim um parto doloroso. Conheço até quem aprecie o que escrevo e isso me basta.

Mas quero enquanto viver, correr atrás dos encantos da vida, quero persegui-los obstinadamente. Foi quando me lembrei desses versos de Nélson Cavaquinho:

“Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com minha dor”. Então, quero pedir licença ao poeta e inverter um pouco o sentido da composição e dizer a essa tropa de mal amados, criaturas dos umbrais: “Tirem sua dor do meu caminho, que eu quero passar com meu sorriso”.


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  1. Cultivar a dor é morbidez; procurar superá-la é preciso; buscar a alegria é obrigação; administrar a sua ausência é sabedoria. Viver não é fácil. Parabéns, Paiva. Francisco Gil Messias.

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  2. Minhas preferências literárias estão no campo das alegrias, da felicidade, do bem viver, da esperança… as leituras são ventos leves que encantam a humanidade. Belíssimo texto, Paiva!

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  3. Minhas preferências literárias estão no campo das alegrias, da felicidade, do bem viver, da esperança… as leituras são ventos leves que encantam a humanidade. Belíssimo texto, Paiva!
    Mirabeau Dias

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