Era previsível. Tudo em Washington agora é previsível, até mesmo o choque, até mesmo a sensação de que nada faz sentido, até mesmo a aniquilação metódica da verdade e de princípios éticos fundamentais. O encontro em 28/02 entre Volodymyr Zelensky e Donald Trump, com J.D. Vance ao lado, aconteceu como acontecem os episódios inevitáveis da história: entre promessas nunca feitas para serem cumpridas e acordos costurados no subsolo. Zelensky esperava apoio, alguma demonstração de que a aliança forjada com sangue não se dissolveria ao sabor do pragmatismo.
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O que encontrou foi um teatro onde os papéis já estavam distribuídos muito antes de sua chegada. Aos que assistiram, restou o (des) gosto de se ver personagem secundário em vez de leitor de 1984, o visionário romance de George Orwell.
A farsa seguiu o roteiro. Trump, que meses atrás dizia que a China era o inimigo a ser combatido, agora se inclina à normalização das relações com o país asiático e à triangulação da divisão de poder com a Rússia, adversário histórico dos EUA. Longe de mim ser contra a paz entre as nações, mas vivi o suficiente para saber que o mundo político não é dos idealistas e sim dos ferozes práticos. E este é um caso explícito de praticidade, redefinição da geopolítica e, acreditem, talvez os primeiros passos na direção da materialização da distopia de Orwell. Zelensky, ontem, também se tornou personagem de Orwell: Winston, esmagado pelo poder.
Não. Eu não estou sendo dramática. Bem ao contrário. Juntemos os pontos.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, com o cinismo bem treinado dos que aprenderam a apagar as próprias palavras, deu uma entrevista afirmando que era tempo de "seguir em frente". O argumento estava claro: a Ucrânia é um obstáculo, e os obstáculos, na política de Trump, ou são removidos ou transformados em moeda de troca.
"Secretary of State Marco Rubio — once a defender of Ukraine and its territorial sovereignty, now a convert to the Trump power plays — made clear in an interview with Breitbart News that it was time to move beyond the war in the interest of establishing a triangular relationship between the United States, Russia and China."David E. Sanger. The New York Times
Some a isso as falas de Trump sobre anexar o Canadá, retomar o Canal de Panamá e ocupar a Groenlândia. Simultaneamente, a China endureceu as ameaças a Taiwan, cujo maior apoiador historicamente tem sido os EUA. Mas esse apoio foi questionado por Donald Trump, que esta semana se recusou a dizer se os EUA viriam em defesa militar de Taiwan no caso de um ataque chinês. A postura se afasta da linha de Joe Biden, que repetidamente sugeriu que os EUA defenderiam Taiwan.
Aparentemente, na mente de Trump, Putin e Xi Jinping, é razoável o plano de existirem apenas três superpotências. O que julgávamos delírio e alucinação pode ser um plano bem factível para os donos do poder que desejam dividir o butim mundial. Xi e Trump parecem não ter escrúpulos em repetir a estratégia de Putin na Ucrânia.
O que Trump quer, de acordo com um alto funcionário europeu citado pelo New York Times, é restaurar sua relação com Putin. Isso pode significar ignorar os crimes de guerra russos, reescrever a história da invasão ou simplesmente fingir que nunca houve uma Ucrânia soberana para ser defendida. A realidade já não importa, porque nunca importou. Em Orwell, aprendemos que a história não é algo fixo, mas um organismo mutável, alterado conforme a necessidade do momento. “Quem controla o passado controla o futuro.” O passado pode ser reeditado, as alianças podem ser reconfiguradas, e a única constante é o poder.
O Kremlin assistiu ao espetáculo de Washington com satisfação. Celebrou e tripudiou, inclusive. As discussões não foram sobre apoio militar à Ucrânia, mas sobre o novo jogo que se desenha: um triângulo onde os Estados Unidos, Rússia e China, de alguma forma, encontram pontos de convergência. Seria lindo, não fossem
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as circunstâncias e objetivos que remetem diretamente ao cenário criado por George Orwell: três superpotências – Oceânia, Eurásia e Lestásia – que alternam alianças e inimizades para que a guerra nunca acabe, mas também nunca seja vencida. O que foi dito em voz alta, o que vazou na escolha das palavras cuidadosas de Rubio, é o desejo de reconfigurar a guerra em uma transação, uma diplomacia de cassinos, onde vidas são fichas e fronteiras são flexíveis, desde que o jogo continue.
Há um detalhe, no entanto, que importa mais do que os discursos ou as negociações fechadas em salas de Washington: os minerais raros da Ucrânia. O Departamento de Estado, as grandes corporações de tecnologia, os estrategistas militares sabem que o subsolo ucraniano guarda uma chave essencial para a hegemonia global, o chamado ouro do século 21. As terras ricas em lítio e outros minerais fundamentais para semicondutores e baterias não podem cair nas mãos “erradas” – ou, pelo menos, não podem permanecer nas mãos certas sem uma contrapartida geopolítica. A Ucrânia não é apenas um país em guerra, é um recurso estratégico, uma peça na mesma lógica de Oceânia, Eurásia e Lestásia.
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Zelensky, ao deixar Washington, provavelmente já sabia o que Orwell escreveu e Trump compreende instintivamente: não há fatos, apenas narrativas; não há aliados, apenas interesses momentâneos. E o maior truque do Partido sempre foi este: convencer os fracos de que seus carrascos são, na verdade, seus salvadores.
Na última página de 1984, Winston Smith descobre que pode, afinal, amar o Grande Irmão. O problema é que o Grande Irmão muda de rosto com o tempo. E agora, ao que parece, seu nome pode ser Vladimir Putin.