Dias atrás, assistindo a um vídeo na TV, deparei-me com uma luta inusitada: uma enorme águia agarrara um cabrito montanhês pelo can...

O mau e o mal dentro de nós

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Dias atrás, assistindo a um vídeo na TV, deparei-me com uma luta inusitada: uma enorme águia agarrara um cabrito montanhês pelo cangote e o bichinho ali, numa luta danada para se livrar da ave, que não imagino se esta teria força capaz de levá-lo ao banquete. Haja tutano, já que o tal cabrito não era dos menores. Não consegui assistir ao vídeo até o final e fiquei sem saber o desfecho daquele dramalhão. Mas a cena mexeu com alguma coisa dentro de mim. Sim, essa relação entre o predador e sua presa. O primeiro tentando garantir sua refeição, até porque também depende dela para sobreviver; e o outro personagem desse embate tentando de tudo para não
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C. Cardoso
ter sua vida abreviada. É uma relação natural presente na natureza. Sempre foi assim. Sempre será.

Quando vejo uma cena dessas tomo partido. Se o jacaré ataca uma capivara fico do lado mais fraco, o da presa, o lado do roedor. Quero que o jacaré se exploda e a capivara escape com vida. Mas se é a onça que ataca o jacaré, tomo partido pelo cascudo. Nem me lembro mais de que ele comera minha capivara. Que mania essa minha! Sempre torcendo para o time que vai perder!

Essa luta, na maioria das vezes desigual, tem outros desdobramentos, outros modos de acontecer e não precisa ser exatamente a necessidade do predador sobreviver. Vamos às pescarias. Sempre gostei de pescar e nunca precisei daqueles escamados que capturei para garantir minha sobrevivência. Mas de uma ponta da linha estava eu e da outra o pobre se debatendo com um anzol preso à boca. Eu querendo encher o samburá e o outro lutando desesperadamente pela vida. Não está ali sacolejando para se exibir, mas está quase em vão tentado escapar, está lutando por sua vida. Que discrepância de forças!

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Kelly
Cruel mesmo é o abatimento de um suíno em nossas propriedades rurais. Já assisti algumas vezes. O pobre cachaço, quando agarrado no chiqueiro já prevê os acontecimento futuros e arma o maior escândalo. Debalde! Vão lhe sangrar a barriga enquanto o bicho grita alucinadamente. A sensação que tive diante desses espetáculos dantescos é que o pobre gritava: Não, não! Pelo amor de Deus, deixe-me viver! Triste meu amigo, mas confesso que não me lembro disso quando saboreio um torresmo à pururuca, que por sinal, muito aprecio.

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M. Maeder
Assim é a picanha dos nossos churrascos, como que se fossem colhidas em árvores. Não nos ocorre que uma vida foi tirada, que alguém experimentou a aproximação de sua finitude quando gozava o esplendor da vida e da saúde. Por que nos preocuparmos com essas coisas? A vida é assim, sempre tem um bicho comendo outro para garantir sua sobrevivência. E nós, que estamos no topo da pirâmide, não precisaríamos ser tomados por tais inquietações.

Nos meus tempos de menino, era regra em nossa casa o quintal ter horta e galinheiro. Eu, o primogênito, era encarregado de cuidar desses dois segmentos. Deixemos as hortaliças e nos concentremos no aviário.
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M. Bhuyan
Lembro-me de Janjão, o nosso galo padreador. Era o senhor daquele pedaço e marido de umas quatro ou cinco poedeiras. Vez ou outra, a uma delas era permitido o choco. Quando os pintainhos saíam dos ovos, era uma festa para meus irmãos menores. No princípio só penugens, depois iam ganhando suas plumagens. Lembro-me de uma ninhada de dez. Foram sendo batizados com nome de gente e adotados. Chiquinho, Firmino e Baltazar eram do meu irmão: Goreti, Ana Maria e Antônio de uma de minhas írmãs. E por aí iam sendo acolhidos.

Mas Dona Nalva, minha mãe, tinha outros planos para aquela tropa empenada, outro destino por assim dizer, mais especificamente, a panela. O primeiro a ser degolado no auge de sua juventude foi Chiquinho. Um chororô de meu irmão caçula. Naquele domingo ninguém quis comer frango e era quase sempre assim. Não gostávamos de perder nossos protegidos, comê-los então, nem pensar.

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PxB
Penso nessas coisas, mas não dispenso o churrasco.

Comentando com uma filha essas minhas idiossincrasias, e de não procurar saber de onde vem meu torresmo, minha costela no bafo, meu frango empanado, ela só fez me olhar e comentou:

⏤ Assim fica mais fácil, não é pai? Alguém faz a maldade por nós.

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  1. Belo texto, Paiva. Gostei do "Debalde". Marca do escritor. Parabéns. Francisco Gil Messias.

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