O calor atravessa a pele, invade a alma. O veículo avança e revela, em rajadas rápidas, novos e velhos, cenas e cenários. Prédios históricos passam desbotados, corpos circulam sem ter as identidades reveladas, nuvens viajam a velocidades díspares, os corpos pulam, soam, vibram, tudo é movimento. A cidade vive incondicionalmente à vontade de qualquer um que a habite nos dias silenciosos ou nos reinados momentâneos.
Annette
São espelhos da vida materializados em metáforas diárias que circundam os seres vivos e mortos. As interrogações surgem a cada nova resposta encontrada, quando uma outra interrogação logo se fará presente após um novo pretenso ponto final.
Na rua, a folia e a fome andam próximas e compartilham latinhas de cerveja, piolas de cigarro, nacos de alimentos em pratos esquecidos, dividem os mesmos paralelepípedos. Contudo, os passos traçam caminhos distintos, impõem fronteiras. Enquanto um desfila mais um gole, outro engole em seco a sede de sobreviver. Ainda assim a festa prossegue.
AAFV
Para uns, ainda é Carnaval, para outros, restam apenas cinzas.
Mas as cinzas ainda têm nutrientes, ajudam a aumentar a fertilidade do solo, geram vida. Portanto, antes do fim, agora recomeço. Cinzas também são alimentos para um ciclo novo, são preparos para a germinação, para novas vidas. E também são descanso do fim do corpo.
As cinzas também servem de tinta para escrever novos versos, para denunciar o corte e queima das florestas e, assim, defender a vida, pois, a palavra é arma. E pinta cenário, reproduzem movimentos, rostos, iluminam o mundo em telas de mãos hábeis e mente ágeis.
E volta o mesmo fluxo. Janelas, portas, pessoas, concretos, ilusórios, movimentos das festas e das cinzas.