Estava resolvido a não contar a ela da visita que faria ao consultório da endocrinologista. Há muito sabia que ter a mulher na cade...

Ter vivido sem comer em vão

casal medico culinaria nordestina
Estava resolvido a não contar a ela da visita que faria ao consultório da endocrinologista. Há muito sabia que ter a mulher na cadeira ao lado, em qualquer consulta médica, é uma experiência que somente deve ser recomendada aos inimigos, ou, por presepada, aos amigos do peito, para as risadas que poderão animar as futuras rodas de bate-papo.

Foi entre o ajeitar das cobertas e o beijo de boa noite que, sem assim querer, a data da consulta lhe escapou. Antigamente, esse beijo poderia levar a outros e outros mais, com resultados inevitáveis, a não ser quando
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das enxaquecas, ou daqueles sabidos períodos de indisponibilidade. Não agora, quando um informe qualquer não mais tem o esquecimento motivado por intervalos de paixão e fogo. Sem esse lapso temporal, posto que o beijo não vai além do hábito de décadas, a mínima informação fica na mente de quem a ouve.

A propósito, quando o tempo, a rotina e as idades mais avançadas esfriam os beijos de agora, é um velho reclame da Aspirina o que lhe vem à memória. Dizia assim: “Se sua mãe estivesse com dor de cabeça naquele dia, você não existiria”. Era uma homenagem do fabricante ao Dia das Mães e é um achado publicitário até para os dias de hoje. Mas retomemos a conversa:


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Pronto, estava decidido. Não havia mais o que, em contrário, ele pudesse fazer. Hora marcada, com exames de sangue à mão, os dois aguardavam o chamamento ao gabinete da médica. A companheira, pacientemente. Ele, à beira da zanga. Para entreter-se, lembrou-se do tempo em que essas consultas eram mais rápidas e, ainda, da velha piada acerca daquele plano clínico e hospitalar de existência curta pois sufocado logo pelas grandes corporações do setor. Contava a história do casal de matutos em visita ao ginecologista. O marido preferiu esperar no corredor. Em dado momento, a fim de responder à pergunta do médico, a mulher entreabre a porta e grita para ele: “Querido, nós temos orgasmo?”. Resposta: “Não, querida. Temos Hosplan”.

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Finalmente, veio o chamamento. Minutos de silêncio enquanto a doutora transpunha para o computador a lista de encrencas nas quais o paciente se metera em razão dos maus hábitos alimentares, do descuido com os exercícios físicos, da impontualidade dos remédios, enfim, da desobediência pura e simples.


A partir daí, a conversa transcorreu entre aquelas duas como se ali não mais ele estivesse. Mas até que isso o agradava posto que não tinha que responder sobre seus incômodos, suas proibições, seus desejos e, de uns tempos para cá,
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suas saudades mais agudizadas das cocadas, mel de engenho e bolos de feira.

Ah, os bolos de feira... Ele duvidava de que existissem melhores nos ambientes mais refinados dos restaurantes, panificadoras e confeitarias.

Na última vez em que esteve na cidade natal, ergueu-se antes do sol em busca da barraca de Tereza, a menina do tempo do Grupo Escolar, ao lado de quem se sentava. Até chegar àquele inhame com galinha caminhou entre pilhas de queijos, doces de goiaba, mamão e coco, pés-de-moleque feitos na palha da bananeira, beijus, bolos de laranja, goma e baeta, comendo lascas de quase tudo.

O baeta, iguaria da cozinha nordestina com epicentro na Paraíba, apenas exige um liquidificador, três xícaras de farinha de trigo, três de leite, três de açúcar (perdão, Senhor), três ovos, três colheres de sopa de manteiga, uma pitadinha de sal e suco de um limão. Ficou ralo? É assim mesmo, é a garantia daquela consistência quase cremosa depois de assado. Fermento, não. Fermento, aí, é um pecado. Outras regiões onde, por felicidade, também pode ser encontrado, o conhecem por bolo-de-leite.

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ReceitasNE
Como lhe foram convenientes essas lembranças. Quando menos, lhe serviram para a percepção abreviada do tempo real da consulta. Saiu daquele gabinete com uma receita à mão contendo prescrições para suganon de 55mg, jardiance de 25 e glifage de 500. E, na cabeça, com os versos de Vinícius de Morais.

Não comerei da alface a verde pétala Nem da cenoura as hóstias desbotadas Deixarei as pastagens às manadas E a quem mais aprouver fazer dieta. Cajus hei de chupar, mangas-espadas Talvez pouco elegantes para um poeta Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta Que acredita no cromo das saladas. Não nasci ruminante como os bois Nem como os coelhos, roedor; nasci Omnívoro; dêem-me feijão com arroz E um bife, e um queijo forte, e parati E eu morrerei, feliz, do coração De ter vivido sem comer em vão.

Sua bênção, poeta, suplicou.

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  1. Engraçado é imaginar tia no papel da esposa… mas sei que é mera “ficção” essa história 😂😂😂

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  2. Seu delicioso texto, Frutuoso, prova que as coisas acontecem para se tornar crônicas (obrigado, Mallarmé). Também sou freguês do Glifage. Parabéns. Francisco Gil Messias.

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  3. Adorei ASPIRINA KKKKK
    Quantos moleque deixaram de nascer por falta de uma dela kkkkkk
    Fantástico! Dor de cabeça tá fora de moda kkkkk

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