Estava resolvido a não contar a ela da visita que faria ao consultório da endocrinologista. Há muito sabia que ter a mulher na cadeira ao lado, em qualquer consulta médica, é uma experiência que somente deve ser recomendada aos inimigos, ou, por presepada, aos amigos do peito, para as risadas que poderão animar as futuras rodas de bate-papo.
Foi entre o ajeitar das cobertas e o beijo de boa noite que, sem assim querer, a data da consulta lhe escapou. Antigamente, esse beijo poderia levar a outros e outros mais, com resultados inevitáveis, a não ser quando
A propósito, quando o tempo, a rotina e as idades mais avançadas esfriam os beijos de agora, é um velho reclame da Aspirina o que lhe vem à memória. Dizia assim: “Se sua mãe estivesse com dor de cabeça naquele dia, você não existiria”. Era uma homenagem do fabricante ao Dia das Mães e é um achado publicitário até para os dias de hoje. Mas retomemos a conversa:
⏤ Vou com você – decidiu ela.
⏤ Vai para onde?
⏤ Para a doutora Clarice (nome fictício), segunda-feira.
⏤ Precisa, não.
⏤ Precisa, sim. Nessas ocasiões, você não sabe ouvir nem perguntar.
⏤ Vai para onde?
⏤ Para a doutora Clarice (nome fictício), segunda-feira.
⏤ Precisa, não.
⏤ Precisa, sim. Nessas ocasiões, você não sabe ouvir nem perguntar.
⏤ O senhor está perto da insulina – sentenciou dra. Clarice, já pronta para passar-lhe um bruto carão. Era só o que lhe faltava na dolorosa marcha para os oitenta anos de idade. Estava, ali, ridiculamente, prestes a tomar descompostura de uma pirralha com idade para ser sua neta.
⏤ É um teimoso, doutora. Pensa que ainda é menino. Não faz dois meses que se livrou, queira Deus, de um câncer de próstata. Pode prescrever a medicação que a senhora desejar porque vou eu mesma cuidar para que ele tome tudo, regularmente. Vai ver só – ameaçou-o aquela com quem divide cama e mesa.
⏤ É um teimoso, doutora. Pensa que ainda é menino. Não faz dois meses que se livrou, queira Deus, de um câncer de próstata. Pode prescrever a medicação que a senhora desejar porque vou eu mesma cuidar para que ele tome tudo, regularmente. Vai ver só – ameaçou-o aquela com quem divide cama e mesa.
A partir daí, a conversa transcorreu entre aquelas duas como se ali não mais ele estivesse. Mas até que isso o agradava posto que não tinha que responder sobre seus incômodos, suas proibições, seus desejos e, de uns tempos para cá,
Ah, os bolos de feira... Ele duvidava de que existissem melhores nos ambientes mais refinados dos restaurantes, panificadoras e confeitarias.
Na última vez em que esteve na cidade natal, ergueu-se antes do sol em busca da barraca de Tereza, a menina do tempo do Grupo Escolar, ao lado de quem se sentava. Até chegar àquele inhame com galinha caminhou entre pilhas de queijos, doces de goiaba, mamão e coco, pés-de-moleque feitos na palha da bananeira, beijus, bolos de laranja, goma e baeta, comendo lascas de quase tudo.
O baeta, iguaria da cozinha nordestina com epicentro na Paraíba, apenas exige um liquidificador, três xícaras de farinha de trigo, três de leite, três de açúcar (perdão, Senhor), três ovos, três colheres de sopa de manteiga, uma pitadinha de sal e suco de um limão. Ficou ralo? É assim mesmo, é a garantia daquela consistência quase cremosa depois de assado. Fermento, não. Fermento, aí, é um pecado. Outras regiões onde, por felicidade, também pode ser encontrado, o conhecem por bolo-de-leite.
ReceitasNE
Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro; dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
Sua bênção, poeta, suplicou.