Gosto das conversas compridas com o amigo João. Mais, ainda, quando ocorrem no quintal dele, bem pertinho do café e do bolo de fubá d...

O navio e o café com bolo

porta aviao marinha harry truman
Gosto das conversas compridas com o amigo João. Mais, ainda, quando ocorrem no quintal dele, bem pertinho do café e do bolo de fubá da Dona Madalena. É João que me vem à cabeça quando ouço aquelas piadas de Jessier atinentes aos saberes dos matutos. Os caras, de fato, parecem entender de tudo: da atracação de navio à picada de muriçoca, como assegura o poeta.

Por coincidência, quando dele me aproximei, meu amigo lia sobre a colisão, no último dia 12, do USS “Harry Truman”, o porta-avião da Marinha americana, com um cargueiro de bandeira panamenha, no Mediterrâneo.
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O portão-avião Harry Truman e o navio mercante Besiktas, envolvidos na colisão ocorrida em 12.02.2025 na costa do Egito ▪ US Navy
Ria de orelha a orelha com os memes na Internet. Um deles: “Leva para Martelinho de Ouro”, referência a um lanterneiro famoso de João Pessoa e, pressuponho, de outros recantos do Brasil, posto que isso não parece ser um apelido, mas uma marca de qualidade. Outro meme: “Já aplicaram o bafômetro?”.

Tudo bem, aquilo não é oceano, é mar. Porém, é comprido e largo pra dedéu. Porta-avião tem mil olhos eletrônicos, sem contar os 10 mil que a natureza deu à tripulação com, ao menos, cinco mil homens. Mesmo assim, naquele mar, uma montanha bateu na outra sem que ninguém ali notasse a mútua aproximação, para o necessário desvio.

“O que diabo foi aquilo, João?”, perguntei ao meu granjeiro predileto. E ele, com ares de conspiração: “Não houve grandes estragos, mas o conserto será demorado porque exigirá o realinhamento de sensores e tubos de lançamento de mísseis. Essa coisa não estará em condições plenas de uso no Oriente Médio, ou onde quer que seja, a tempo de atrapalhar de modo direto, ou indireto, as negociações de Trump com Putin sobre a Otan e a Ucrânia”. Tomei um susto e perguntei aos meus botões: “Será que isso faz sentido?”.


O pai de João, agricultor de bom porte, chegou a fazer muito dinheiro com o plantio e o comércio de algodão e sisal antes de o invento da fibra sintética reduzir a quase zero o valor desses produtos até então incluídos na pauta de exportações nordestinas de maior peso.

Há coisas que a ninguém devem ser perguntadas, posto que doem. De modo que não sei bem da razão do suicídio de Seu Manoel, pai do meu amigo e de três meninas. Mas sei do veneno tomado por outros desses plantadores que, pela mesma razão, foram dormir endinheirados para acordar à beira da miséria. Em silêncio, passei a entender e respeitar a raiva que nosso João
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USS Harry TrumanUS Navy
sentia das petroleiras, refinarias e tecelagens modernas. “Vão acabar com o mundo”, eu ainda o ouço dizer, vez ou outra.

Quando éramos jovens, com as garotas que encontramos nos bailes, nas praças e varandas, nunca o vi com uma camisa de nylon. As sociais de tecido sintético, aquelas do tipo “Volta ao Mundo”, na moda dos anos de 1960, até quase 70, tiveram sua absoluta rejeição. Em vez disso, caprichava no linho e nos calçados de couro. Para o dia a dia, lhe iria muitíssimo bem uma alpercata de feira e as de vitrine, quando as queria mais estilosas. A Valisère que se danasse. Conga? Tênis emborrachados? Nem pensar. Fazia alguma concessão às meias, porquanto inevitáveis.

Nossa conversa perto do fogão da Dona Madalena, repito, deu-se às cinco da tarde, tempo dos chás dos ingleses e das Academias de Letras. Mas, ali, no templo sagrado da nossa infância, acontecia com café pilado e bolo de fubá servidos debaixo de um cajueiro. Se manhã fosse, papearíamos na calçada, à sombra de um pé de fícus, com maior audiência e sem os petiscos da dona da casa.

Antes do nosso encontro, tomei conhecimento do palpite do Comandante Farinazzo para a colisão: “Mau treinamento”. Navegar em trecho movimentado, lembrava o moço, torna-se ainda mais complicado, pois em navio não se pisa no freio. Reverte-se o movimento das hélices e, mesmo assim, o bicho corre quilômetros antes de parar, ou de bater. Será mesmo? Temos, então, um trambolho movido a energia nuclear, carregado de ogivas atômicas com capacidade para a destruição do planeta entregue a parvos? Du-vi-dê-o-dó... Duvidamos eu e João.


A causa da batida deve ter sido outra e o Comandante (assim chamado por haver pilotado avião, submarino e navio de guerra da Marinha brasileira) não ousou dizê-la no canal que mantém no YouTube.

Fui eu que o indiquei a João para consultas acerca dos temas da geopolítica e da militarização do mundo. O moço comunga da tese do declínio do Império com gente capacitada na Europa e nos EUA. Com analistas a exemplo de Richard Wolff, Alex Krainer, Cris Hedges, John Miersheimer, Michael Hudson e outros do gênero. João me ensinou a acessar os brasileiros Pepe Escobar e Edilson Pinto, este último do Canal “Plano Brazil”. Há a possibilidade da legenda em português para as exposições dos estrangeiros.

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O que levou a Rússia, com uma fração do orçamento militar dos EUA, a desenvolver foguetes hipersônicos duas gerações à frente dos similares americanos e a modernizar sucatas do tempo da União Soviética? Se a pergunta for feita a gente como Edilson a resposta envolverá o investimento maciço em engenharia, física, química e matemática, a priorização das necessidades (por que construir helicópteros caríssimos quando drones letais dão conta do recado por um décimo do custo?), a trocar navios de longo percurso por submarinos furtivos, a reconfigurar a aviação, os tanques e a construir, ou reconstruir, tudo isso com matérias primas locais sem os grandes lobbies empresariais e financeiros.


Desde tais acessos meu amigo se compadece do desalento europeu com o desprezo de Trump. A Europa, lastima ele, não é convidada a participar dos acertos com Putin entendidos como uma nova Conferência de Yalta, referência àquela que, finda a 2ª Grande Guerra, dispôs fatias do mundo aos Estados Unidos, à União Soviética e à Inglaterra.

“A China também está fora desses entendimentos, mas não se incomoda com isso pois, sem dar um tiro, já toma conta desse mundão de Deus. Compra e vende para o globo inteiro a preços de ocasião. Põe calças jeans no Brasil a custo menor do que o das produzidas no polo de Caruaru”, observa o querido João. Com o perdão de um ou outro exagero, ô matuto sabido!

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  1. O sabor da crônica com o recheio de informações atuais e importantes. Melhor que o matuto sabido só o cronista que o revela. Parabéns, Frutuoso. Francisco Gil Messias.

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  2. Sensacional! Parabéns Frutuoso Chaves, sou sua admiradora de 'carteirinha'! Sucesso sempre é não esqueça de sempre estar nos alimentando de tanta sabedoria!
    Valdeneide Bitu

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  3. Tuas crônicas são incomparaveis, primo! Vai o meu forte abraço!

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