Há dois momentos em “Lira dos vinte anos”, de Álvares de Azevedo: um tipicamente romântico, no qual o poeta revela obediência aos códigos da escola; e outro em que ele, saturado das injunções idealizantes que orientam a configuração do eu lírico, da mulher e do próprio mundo, procede a uma reação no sentido do Realismo. O conflito se intensifica pelo fato de o eu lírico ter uma visão ambígua do objeto amoroso. A ambiguidade é uma pré-condição da melancolia, responsável pela coexistência no sujeito, em relação a quem ou àquilo que o abandonou, de sentimentos de amor e ódio. Essa forma de se relacionar com o objeto explica muitas das imagens antitéticas e duais presentes na obra de Álvares de Azevedo.
Comumente a mulher se liga à imagem da morte; nesse caso ela aparece inerte, silenciosa, pálida, o mais das vezes dormindo. Brancura e mudez, conforme Freud observa em seu estudo sobre os três escrínios, são atributos associados à morte. Em determinada passagem, por exemplo, a mulher é designada como uma “Estátua sem vida” (123) – expressão pleonástica na qual o atributo intensifica o sentido do substantivo, em cuja hirta configuração já está implícita a ideia de morte.
Excesso de ideal e de fantasia, associado à culpa melancólica, constitui a tônica da primeira parte de “Lira...”. Na segunda, percebe-se o contrário de tudo isso. Agora o autor procura representar com tintas menos irreais as imagens do poeta, do objeto amoroso e do mundo. Ele persegue uma estética capaz de enlaçar as
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Num mundo regido pelo comércio, onde as coisas valem pelo seu valor de troca, a poesia não mais deriva de um sopro divino ou de um impulso prometeico. Pode ser simples efeito da embriaguez alcoólica, conforme ironiza a personagem Puff em “Boêmios”. E servir apenas de instrumento para cantar a criada, que,
“abrasada de amor por um soneto/
Já um beijo me deu subindo a escada...” (234).
Nessa perspectiva desfaz-se a ideia do gênio, tão cara à estética romântica; tal ideia sucumbe à venalidade que impera nas relações entre o poeta, seu público e sua arte.
Essa forma desidealizada e ressentida de representar o poeta e o mundo estende-se à nova maneira de caracterizar a figura feminina. O eu lírico imagina-a de um lugar concreto, que é o seu quarto, de onde ao
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““É ela! É ela! – repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! Meu Deus! era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim mais bela, eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas! (238)
À ironia presente na segunda parte de “Lira...” correspondem mudanças linguísticas perceptíveis, sobretudo, no plano lexical. O poeta
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““criatura vaporosa” (com que sonha) “É leve (...)
Como a froixa fumaça de um charuto”.
Ou que a lua, antes imersa numa transfiguração quase religiosa,
““...amarelada a face embuça;
Parece que tem frio, e no seu leito
Deitou, para dormir, a carapuça.” (232).
Se nas primeiras composições a lua parece prolongar os reflexos da mulher amada, agora
““Sem chale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes;
É doida por amor da noite a filha.”
(ibidem)
Álvares de Azevedo Fapesp