Contar e ouvir histórias são atividades muito antigas. As narrativas orais estão presentes na gênese de toda literatura e, em particular, na literatura infantil. Se fizermos uma retrospectiva dos contos antigos do mundo oriental e ocidental, iremos encontrar o hábito de contar histórias como uma forma de entretenimento. Antigamente adultos e crianças se reuniam em torno das fogueiras para ouvir histórias.
Marie Louise Von Franz UFPR
No século 2º. d.C., o escritor e filósofo grego Apuleio escreveu um belo conto de fada com o título Amor e Psiquê, uma história semelhante à Bela e a Fera. Aquele conto apresenta afinidades com outros encontrados ainda hoje na Noruega, Suécia, Rússia e em muitos outros países. Trata-se de um conto em que a mulher redime o ser amado de sua forma animal e permanece praticamente inalterado há 2.000 anos.
Seguindo a trilha dos contos de fada, Fernando Pessoa escreveu o poema Eros e Psiquê que intertextualiza o conto de fada A Bela Adormecida. A primeira estrofe do poema conduz o leitor ao tradicional conto de Charles Perrault, embora a versão mais conhecida seja dos Irmãos Grimm. Examine-se:
Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante que vivia
De além do muro da estrada.
(...)
@history-doc.ru
Nise da Silveira, psicanalista brasileira e também seguidora das ideias de Jung, na biografia que escreveu sobre o psicanalista suíço, dedica um capítulo aos contos de fada e afirma:
Os contos de fada têm origem nas camadas profundas do inconsciente, comuns à psique de todos os humanos. Pertencem ao mundo arquetípico. Por isto seus temas reaparecem de maneira tão evidente e pura nos contos de países os mais distantes, em épocas as mais diferentes, com um mínimo de variações. Este é o motivo porque os contos de fada interessam à psicologia analítica.
Nise da Silveira Senado Federal
No texto que apresentou na Feira do Livro em Brasília (2003), a escritora deixou esse recado:
Toda vez que me aproximo do universo dos contos de fadas, quer como autora, quer para reflexões teóricas, minha boca seca, a garganta aperta, o coração acelera o ritmo. Eu sinto medo e sedução. E reluto em avançar, como se os espaços em que se estendem à minha frente, e que me convocam, escondessem poços de areia movediça, distâncias verticais sem fim.
Marina Colasanti Biblioteca Nacional
Não poderia deixar de citar A moça tecelã (2004), dessa mesma tecedeira de histórias encantadas, que foi ilustrado pelas irmãs Dumond, um misto de literatura, de bordado e de poesia. É uma história de amor, entrega e desencanto. O tecer e o destecer caminham pari - passu e os (as) leitores ( as), se sentem em um verdadeiro mundo de fantasia, habitante de um país imaginário.
O gostar de histórias maravilhosas não é privilégio só das crianças, os adultos também gostam. Mitos e contos de fadas, diz Jung, dão expressão a processos inconscientes e a sua narração provoca a revitalização desses processos, restabelecendo assim a conexão entre o consciente e o inconsciente.