E se você estivesse sozinho, sentindo-se abandonado e triste? E se até seu violão chorasse e seu samba pedisse para a mulher amada vi...

Benvinda

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E se você estivesse sozinho, sentindo-se abandonado e triste? E se até seu violão chorasse e seu samba pedisse para a mulher amada vir ao seu encontro, já que, oficialmente, haveria lugar à sua mesa? Você esgotaria as possibilidades de se libertar da solidão e usaria todos os artifícios e argumentos para convencê-la?

É disso que trata a canção Benvinda, de Chico Buarque, composta no final dos anos sessenta, momento político difícil, primeiros tempos da ditadura militar instalada no Brasil. Nesse período, o autor, com pouco mais de vinte anos, estava bem no começo de sua carreira artística.

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Chico_Buarque na Passeata dos Cem Mil (1968) CC0
A música, dentre tantas outras suas que utilizam nomes de mulher, brinca com a obviedade da escolha do título para desenvolver a temática do aceno para que a pessoa amada viesse até ele. Em princípio, a palavra remete a uma saudação (“seja bem-vinda”) e a uma qualificação que traz na essência o sentido de alguém ser bem aceito, bem acolhido ou mesmo pode representar um sentimento, uma situação, uma mensagem subliminar. Não há como negar, no entanto, nestas acepções aqui apresentadas, a ideia de satisfação mútua: eu quero você aqui e você se sente bem estando comigo.

Muito já se escreveu sobre a obra de Chico Buarque. Inúmeras e complexas análises já foram feitas na tentativa de comprovar que o autor optou por esses títulos como estratégia discursiva para burlar a censura imposta a artistas e a outros intelectuais da época. O que pareciam ser, na superfície, peças melódicas de cunho romântico, sentimental, com elogios à figura feminina, carregavam, de maneira camuflada, reflexões
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Chico Buarque Palácio do Planalto
ideológicas. Hoje essas composições, cuja intenção era denunciar o momento político para conscientizar a sociedade, são vistas como documentos históricos.

Como leiga e apenas apreciadora das criações do autor, vou me ater a considerações sobre como compreendo e interpreto a letra da música, destacando seu contexto imediato, tendo como suporte minhas impressões sobre a narrativa supostamente proposta por ele.

Didaticamente, podemos dizer que as narrativas em si desenvolvem um enredo que, numa crescente, passam por estágios, partindo de uma situação inicial, seguida de uma complicação que chega a um ápice e que precisa ser resolvida, para o bem ou para o mal.

A música traz, em sua introdução, o que seria um comunicado oficial informando que o poeta agora está preparado para um novo amor, e, em seguida, reporta a sensações conflituosas do eu lírico, visitando extremos na ânsia de aplacar sua dor, ao ponto de aceitar que ela chegue coberta de amor ou até mesmo que possa vir definitivamente (“morar por aqui”), ou de forma passageira (“pra se despedir”), e até mentir ou aparecer para se consolar, desde que venha.

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GD'Art
No veemente apelo de um homem pela presença da mulher amada, é possível perceber, nas entrelinhas, que ela é uma pessoa especial, que tem luz própria e autonomia para decidir se vem ou não. Ele procura fazer o que pode, utilizando todos os recursos de que dispõe, mas sabendo que cabe a ela decidir.

O ambiente, por sua vez, é propício para recebê-la: o luar está chamando, os jardins estão florindo, a aurora está demorando a chegar, a cidade está dormindo e ele está sozinho. Há, inclusive, em um movimento gradativo de importância, esperança, vontade de dançar e lugar para a poesia, seu bem mais precioso.

Certo de “estar perto da alegria”, o poeta coloca na amada a perspectiva de mudança para melhor. Ele está sozinho e seu quarto está escuro, porém a vinda dela trará luz (“venha iluminar”) e ar puro, sendo ela “estrela madrugada”. E ele até aceita que ela possa vir multifacetada: como namorada, como amada ou mesmo como irmã. Urge que ela venha lhe fazer companhia.

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GD'Art
Diferentemente de muitas músicas de cunho social, com problemática de difícil resolução, há um final feliz nesta versão: de tanto pedir, seu desejo foi atendido e ele não cantou em vão: ela veio! Mesmo que em forma de inspiração, de afeto, linda e sorrindo, preenchendo não um lugar físico a seu lado, mas em seu coração. E toda essa angústia trazida pela necessidade da presença dela trouxe respostas e rendeu ao poeta uma bela canção de amor e de esperança.

Texto escrito para a antologia As mulheres de Chico (2024), organizada pela Confraria dos Bibliófilos da Paraíba e publicada pela Editora Ideia, a partir do meu olhar para a música Benvinda, de Chico Buarque.


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  1. Excelente artigo da professora Marineuma de Oliveira.

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  2. Maria das Dores Oliveira de Albuquerque15/2/25 14:01

    Visão espetacular da canção do poeta que rememora o romantismo que o ser humano sente, respira para viver mais feliz.

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