No homem que cultiva a terra está a sabedoria da espiritualidade que os monastérios antigos descobriram. A terra como santuário mudando o sentido da vida. Dessa sabedoria vem o símbolo da resistência e da perseverança que continua a revelar caminhos silenciosos, mesmo que a terra esturricada atrofie os pés dos caminhantes que passam levantando poeira.
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Muitos mártires de hoje vivem nos gestos e nas atitudes daqueles que se encontram na dor de seus antepassados. O povo caminhante do deserto acreditava no sonho da libertação como nos tempos passados e continuam acreditando nessas motivações para nunca desistir.
A camponesa Elizabeth Teixeira tem o rosto do povo rural, porque o Nordeste vive como ela, enfrentando os perversos desafios. Ela é uma parte desse povo que sonha, catando o pão na terra esturricada.
A alma de seu marido está enraizada na terra do Nordeste, na luta contra o latifúndio canavieiro. O tempo que envergonha a Paraíba continua nas feridas da alma, na palma das mãos, no viver macambúzio e no olhar melancólico de camponeses.
Elizabeth Teixeira @cnss.gov.br
Mas a luta nunca é em vão, pois tem sua força no sangue descido da cruz que se esparramou pelas terras do calvário. Quando Francisco Julião, o pai das ligas camponesas, reuniu pouco mais de um cento de pessoas, para assistir à missa de trigésimo dia pela alma do trabalhador assassinado, a pequena e silenciosa cidade de Bom Jardim, interior de Pernambuco, presenciou um ato histórico que mudaria a história de lutas pela terra. Ao falar à pequena plateia, mulheres choravam lembrando do camponês abatido na escuridão da noite, sentado à mesa, quando degustava a rústica ceia.
Francisco Julião@memoriasdaditadura.org
Como o camponês de Bom Jesus, nas terras de Sapé, o homem abatido como um passarinho no entardecer silencioso passou a ser o símbolo da reforma agrária. Uma luta que não foi em vão, porque da terra vem a vida. Considerados perigosos pelo Estado, os camponeses Antônio Cícero Barbosa de Paula e João Pedro Teixeira foram símbolos contra os latifúndios.
A sujeição sempre foi grande, a escravidão continuou de outros modos depois da Abolição do 13 de Maio de 1888. As primeiras ligas camponesas surgiram no Engenho Galileia, no município de Vitória de Santo Antão, interior de Pernambuco, logo ampliando seu raio de ação. Os donos das terras, ao se colocarem contra os direitos dos trabalhadores, contribuíram para que estes se organizassem.
Movimento das Ligas Camponesas (1955-1964) USP
No crepúsculo das ligas, Julião confiava na vitória do homem do campo. A enxada foi um fator de escravidão, mas no embrionário sinal do campo, em 1959, apontava para a libertação, mesmo que tardia.