“Compreender as coisas que nos rodeiam é a melhor preparação para compreender o que há mais além.” Hipátia de Alexandria A talento...

Hipátia de Alexandria

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“Compreender as coisas que nos rodeiam é a melhor preparação para compreender o que há mais além.”
Hipátia de Alexandria

A talentosa matemática, filósofa e astrónoma Hipátia (ou Hipácia; em grego: Υπατία, transl. Ypatía) nasceu em Alexandria, no Egito, no final do século IV, início do século V d.C. Falar dela é evocar uma das primeiras mulheres a fazer contribuições significativas na história da ciência e da filosofia.

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Ensinamentos de Hipátia em AlexandriaR. Bone, S.XIX
Hipátia é talvez mais conhecida pela forma macabra, horrível, como foi sujeita a severas humilhações e torturas, acabando assassinada por uma multidão de fanáticos cristãos no ano 415, depois de ser acusada de feitiçaria e de exacerbar um conflito entre duas figuras proeminentes na Alexandria, nomeadamente o governador Orestes, prefeito augustal da Diocese do Egito, e o bispo de Alexandria, Cirilo de Alexandria. As fontes disponíveis da época relatam, em pormenor, a frieza do assassinato.

Hipátia de Alexandria, filha de Theon de Alexandria — ele próprio um matemático e astrónomo e o último membro atestado do Museu daquela cidade —, viveu numa época em que as mulheres não partilhavam o
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Hipátia(atr.) Alfred Seifert, S.XIX
mesmo estatuto dos homens, por mais brilhantes que fossem. Ainda assim, esta estudiosa pouco aclamada é considerada uma das maiores filósofas da antiguidade. Foi a primeira mulher que estudou e ensinou matemática, astronomia e filosofia e atraiu estudantes de locais distantes do Império Romano, tendo sido igualmente solicitada para o aconselhamento de políticos e proeminentes membros de poder na sociedade.

Mulher de mente aberta, Hipátia aceitava e tratava com igualdade todos os seus alunos, independentemente das suas crenças religiões, origens e características como irmãos, sendo educada, tolerante e racional. Sua natureza liberal desencadeou uma série de ciúmes, resultando em inimizades.

O léxico histórico Suda, uma enciclopédia do século X do mundo mediterrâneo, descreve-a como sendo “extremamente bela e bela de forma... na fala, articulada e lógica, nas suas ações, prudente e de espírito público, e o resto da cidade deu-lhe as boas-vindas adequadas e concedeu-lhe respeito especial”.

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Hipátia, em litogravura do século XIX. ▪ Fonte: Wikimedia
De acordo com os registos de um dos seus alunos, Sinésio de Cirene (mais tarde Bispo de Ptolemais, ou Ptolemaida, uma antiga capital da província romana de Cirenaica), Hipátia terá aperfeiçoado o astrolábio e também construído um hidrómetro (especie de contador de água, instrumento de medição volumétrica que passava numa parte da rede de abastecimento) e um higroscópico (material que absorvia rapidamente a humidade do ar).

Quando lhe perguntavam por que jamais se casara, respondia ser casada com a verdade. Defensora do racionalismo científico grego, Hipátia sofreu uma intensa hostilidade. Como pagã, Hipátia nunca terá proclamado a sua aversão ao cristianismo.
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A Morte de HipátiaFrench Sch., S.XIX
As acusações contra ela, de blasfémia e sentimentos anti-cristãos, simplesmente porque ela se terá recusado a trair os seus ideais e a abandonar o paganismo, conduziu-a a uma emboscada, na qual foi brutalmente assassinada. Existem diversas versões do seu fim, sendo a mais difundida a do historiador inglês Edward Gibbon em sua obra “O Declínio e a Queda do Império Romano”, publicada em seis volumes, entre 1776 e 1778. Segundo Gibbon, numa manhã da Quaresma de 415, Hipátia foi atacada na rua quando regressava a casa na sua carruagem, depois de uma palestra. A multidão enfurecida, liderada por um leitor da igreja chamado Pedro, despiu-a, arrastou-a pelas ruas de Alexandria até uma igreja conhecida como Cesareum, arrancou-lhe os cabelos, amputou-lhe os braços e as pernas e, no fim, queimou o que restava do seu corpo.

Hipátia foi imortalizada na parede do Museu do Vaticano pelo pintor renascentista Rafael Sanzio, no seu quadro Escola de Atenas. Voltaire e Bertrand Russell comentaram com apreço o seu trabalho.

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Hipátia representada no painel Escola de Atenas, de Rafael Sanzio, concluído em 1510 ▪ Stanza della Segnatura, Museu do Vaticano.
O historiador grego Socrates Scholasticus escreveu que ela “fez tais conquistas na literatura e na ciência, que ultrapassou de longe todos os filósofos do seu próprio tempo”. Hipátia foi igualmente tema de um romance da autoria do clérigo e escritor anglicano Charles Kingsley (Hypátia, 1853).

O seu percurso fascinou ainda cineastas e realizadores, e é inclusivamente retratado no filme “Ágora” (no original), lançado em 2009, dirigido pelo cineasta chileno-espanhol Alejandro Amenábar, no papel interpretado pela atriz e modelo britânica Rachel Weisz.


A emérita Professora de Filosofia Kathleen Wider propõe que o assassinato de Hipátia marcou o fim da Antiguidade Clássica, e o académico norte-americano Stephen Greenblatt observa que o assassinato “efetivamente marcou a queda da vida intelectual na Alexandria”.

A par desse notável conjunto de capacidades e reconhecidas aptidões (Neoplatonismo, Filosofia Moral, Educação e Ensino, Sincretismo, Empoderamento Feminino), combinando espiritualidade e ciência, Hipátia de Alexandria aplicava a matemática e a astronomia à filosofia como forma de compreender o universo e o lugar nele ocupado pelo indivíduo.
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Pertencia à tradição matemática da Academia de Atenas, representada pelo matemático, astrónomo e filósofo grego Eudoxo de Cnido e era da escola intelectual do pensador Plotino (considerado pelos estudiosos modernos como o fundador da escola neoplatónica de filosofia), que a incentivou a estudar Lógica e Matemática, no lugar de investigação empírica, e a estudar Direito em vez de ciências da natureza.

Apesar da destruição dos seus livros, na tentativa de apagar a sua obra e a sua existência, a vida de Hipátia sempre será uma inspiração. Sabe-se que parte desse acervo incluía comentários sobre vários pensadores importantes, como a ”Arithmetica” de Diophantus, o ”Almagesto” de Ptolomeu e o trabalho de Apolónio sobre estruturas cónicas. A história de Hipátia de Alexandria, essa figura incontornável, luz brilhante, perdura até hoje e renascerá indelevelmente de cada vez que forem exaltados os valores da Verdade, da Liberdade e da Igualdade.
UM CERTO ORIENTE
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