Para Diva Monteiro, Fernando Aquino, Heloísa Rodrigues, Jacklena Montenegro, Jacqueline de Moraes, Lindalva Sarmento e Maria Luíza Cavalcanti.
Nas Metamorfoses, o poeta Ovídio narra, entre outros, o mito de Faetonte (Livro I, versos 746-778; Livro II, versos 1-400). O jovem Faetonte, insultado pelo amigo Épafo, filho de Io e Júpiter, resolve tirar a limpo a dúvida de ser ou não filho de Febo, o deus condutor do Carro do Sol, “luz pública do mundo imenso” (lux inmensi publica mundi, Livro II, verso 35).
Ao chegar ao palácio de seu “duvidoso pai” (dubitati parentis, II, verso 20), Faetonte admira a magnífica construção da porta, operada por Mulcĭber (verso 5), um dos epítetos de Vulcano, o deus-faber,
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Faetonte pede, então, a Febo para “afastar de seu ânimo a incerteza” (hunc animis errorem detrahe nostris, verso 39), e o deus lhe responde com a verdade, confirmando ser seu pai. Para que não restem dúvidas, Febo resolve lhe conceder um presente à sua escolha. Faetonte lhe pede para guiar o Carro do Sol, sendo inútil a tentativa do pai de dissuadi-lo de um serviço que não coube, na partilha, aos mortais: Sors tua mortalis, non est mortale quod optas (O teu quinhão é mortal, não é mortal o que escolhes, verso 56).
Faetonte na carruagem de Febo (Apolo)Nicolas Bertin, 1720
Intonat et dextra libratum fulmen ab aure
misit in aurigam pariterque animaque rotisque
expulit et saeuis compescuit ignibus ignes.
Troveja e com a destra, balanceado raio, da orelha
lança no auriga e, igualmente, da vida e do carro
expulsou-o, e com cruel fogo deteve as chamas.
A Queda de FaetonteJ.C. van Eyck, S.XVII
Quais são as lições de Astronomia que aprendemos com Ovídio, no mito de Faetonte? A primeira lição é a de que o Universo vive em perpétuo movimento, arrastando em sua órbita célere os astros (adsidua rapitur vertigine Caelum/sideraque alta trahit celerique volumine torquet, verso 70-71). A segunda lição consiste na consciência do movimento oblíquo do Sol, na sua passagem pelas doze constelações do Zodíaco (na realidade, atualmente, são treze, contando-se a constelação de Ofiúco ou Serpentário, entre Escorpião e Sagitário), itinerário que nunca passa das três zonas, evitando o polo Sul e o polo Norte (versos 131-133):
Sectus in obliquum est lato curvamine limes,
zonarumque trium contentas fine polumque
effugit australem iunctamque aquilonibus arcton.
O limite da ampla curva é seccionado em oblíquo,
contido no fim das três zonas, e evita o polo
Austral e a Ursa, junta aos ventos aquilões.
Constelação de Ofiuco (Serpentário)S. Hall, 1825
Para a constelação de Câncer (21/06 a 22/07), que limita o trópico ao Norte, a data do Equinócio de Primavera (referindo-me ao hemisfério Norte) se dá entre 20 e 23 de março, acontecendo, no antigo calendário romano de 10 meses, no dia 25 de março, o que correspondia ao Oitavo Dia Antes das Calendas de Abril. Para a constelação de Capricórnio (22/12 a 19/01), que limita o trópico ao Sul, a data do Solstício de Verão (também para o hemisfério Norte) é o dia 21 de dezembro, dia mais curto do ano. O Solstício, no primitivo calendário romano de 10 meses, caía no dia 25 de dezembro, o que correspondia ao Oitavo Dia Antes das Calendas de Março;
Afresco do Palácio de Nero, encontrado em 1668 (Roma) ▪ Ashmolean Museum
Esclareça-se que no calendário estabelecido por Rômulo, o ano começava em março e terminava em dezembro, totalizando dez meses, para igualar-se à gestação das mulheres, conforme a contagem romana: contava-se o mês da saída e o mês da chegada, com as mulheres engravidando por volta de 15 de março e dando à luz uma criança, por volta de 15 de dezembro, conforme atesta o próprio Ovídio, no Livro I dos Fastos (versos 34-35):
Quod satis est utero matris dum prodeat infans,
hoc anno statuit temporis esse satis.
Como há um tempo suficiente, necessário para a criança sair do útero da mãe,
desse tempo, ele estabeleceu ser suficiente para o ano.
Com o Concílio de Niceia, em 325 de nossa era, a Igreja Cristã determinou a consagração do dia 25 de março para a Páscoa, sempre coincidindo com o Equinócio da Primavera, de modo a simbolizar a ressurreição de Cristo. O Concílio não se referia ao Natal,
Celebrando o Sol NascenteF. Bronnikov, 1869
Bruma noui prima est ueterisque nouissima solis;
Principium capiunt Phoebus et annus idem.
O solstício é o primeiro dia do sol novo e o último do velho;
Febo e o ano captam o mesmo princípio.
O nascimento do novo Sol passou a determinar, portanto, o nascimento de Cristo, que apregoou ser a luz do mundo (Eu sou a Luz do Mundo, ἐγώ εἰμι τὸ φῶς τοῦ κόσμου, João 8, 12). Verifica-se, então, que uma antiga festividade pagã deu azo à instituição do primeiro Natal. Associava-se assim, a ressurreição de Cristo, no dia 25 de março, por ocasião da Páscoa cristã, com o renascimento da natureza, na Primavera, fechando um ciclo com o seu nascimento em 25 de dezembro.
C.D. Friedrich, 1830
Como palavras finais, diríamos que as evidências históricas são claras, algumas abonadas pela poesia. No entanto, para quem tem Fé, pouco importa quando Cristo nasceu, o que realmente importa é que o seu nascimento, material ou espiritual, mudou a feição do mundo e nos concedeu a esperança de salvação e renascimento, pela mensagem de Amor que trouxe, indistintamente, para todo, como uma Boa Nova, o Evangelho (Εὐαγγέλιον).