Lembro-me de uma cena que presenciei, há alguns anos, num restaurante da praia que eu costumava frequentar. Nele quase sempre havia pouca gente, de modo que era possível se sentar, pedir uma cerveja e passar minutos ou horas matutando. Enquanto as garrafas vazias se multiplicavam, abrandando o peso das noites de sábado, a gente pensava na vida – às vezes, também, na morte – e curtia uma rala, iluminada, melancolia.
Sentam-se, encomendam qualquer coisa e, antes mesmo que o garçom traga o pedido, começam o falatório – com pressa, e no seco. O homem fala alto mesmo para um bar, não se importa com as pessoas em volta. A mulher argumenta, contesta, defende-se. Como sou vizinho, chegam à minha mesa fagulhas da discussão. E o curioso é que vou começando a ficar sóbrio. A intrusão súbita da vida real desfaz o meu incipiente torpor alcoólico.
Ao ouvir isso, o raskolnikov dá um soco na mesa e faz menção de se levantar. Mas não se levanta, engole a possível ofensa com um copo de água mineral; o garçom tinha vindo e
Depois de algum tempo os dois vão embora, levando a reboque o seu pequeno estorvo. Fiquei me perguntando: por que na frente do menino? Por enquanto, ele era um involuntário problema para os dois. No futuro, arruinado por cenas como essa, seria um desastre incurável para si mesmo. Aquela cena jamais me saiu da cabeça. Pensei que os adultos até poderiam brigar, trocar farpas, externar um recíproco ressentimento – mas não tinham o direito de, ao fazer isso, destruir a inocência das crianças.