Tem sido assim desde que ela começou sua vitoriosa carreira de cronista e escritora. Escrevendo para as mulheres e educando os homens. Um compromisso que não poderia ser diferente, pois sua própria vida, independentemente da escrita, sempre marchou nessa direção: a afirmação e a valorização das prerrogativas femininas, a resistência e a boa rebeldia contra preconceitos arcaicos de província, e o saudável vanguardismo anunciador do que viria e teria de ser. Nela e em mais algumas poucas entre nós, 1968 e o que veio depois deixaram sementes férteis que não se perderam ao léu. Pelo contrário.
Sobre seus livros anteriores a este agora lançado Mulheres – Escritos, Jardins e Uivos (Ideia Editora, João Pessoa, 2024), observei que traziam uma marcante presença de memorialismo, ou seja, que seus textos em geral tinham como ponto de partida ou de chegada suas vivências, principalmente as da infância, adolescência e juventude. Uma verdadeira psicanálise através da palavra escrita com sabor, verve e
Ana Adelaide Peixoto Acervo pessoal
Credibilidade. Eis o que ela possui para dar e vender. Duvidar, quem há de? Pois nela, sabem os que a conhecem mais de perto, não há contradição entre o escrito e o vivido, entre o dito e o pensado, entre o livro e a vida. Mas, como disse, pode-se concordar com ela ou não. Porque as pessoas afirmativas têm esse poder: o de, mesmo sem querer, provocar controvérsias – e não raro polêmicas. Principalmente quando as posições e opiniões desafiam, mesmo que de leve, o establishment, o status quo, as tradições obsoletas e insustentáveis, quando é o caso. Entretanto, Ana não escreve para afrontar quem quer que seja. Longe disso. Mas que não foge à luta, não foge. Nunca fugiu. E sempre pagou o preço pela
Alice Walker@fnac.pt
O título do livro, explica-o o texto homônimo de folhas 28/31. Lá encontramos “os jardins de nossas mães”, a que se referiu Alice Walker, “num de seus escritos mais inspiradores sobre a criatividade feminina através do cultivo de flores, jardinagens e do poder que adquirimos através dessa herança transformadora das nossas ‘mães jardineiras’”. E os uivos das lobas de que fala Clarice Pinkola Estés, quando aconselha às mulheres: “Acima de tudo sejamos espertas e usemos nossos talentos femininos...Coma, descanse, perambule nos intervalos, seja leal, ame os filhos, queixe-se ao luar, apure os ouvidos, cuide dos ossos, faça amor, uive sempre…”. Essas lobas estão presentes no desenho de Flávio Tavares que embeleza a capa do volume de 262 páginas. E, aqui e acolá, nas crônicas e artigos que compõem a obra.
Seus temas preferidos já os conhecemos e ela própria os enuncia: “a invisibilidade feminina, a pobreza feminina, o trabalho doméstico, as conquistas, os desafios e entraves, as opressões, descompassos, loucura feminina, o corpo feminino, aborto, família, triplas jornadas, a moda, a escravidão, violência contra a mulher, os filhos, os amores, o casamento, a escrita em si e, claro, a subjetividade”. As mulheres em suas múltiplas dimensões. Mas não só isso, porque sempre tem mais. Por exemplo, a cidade. Nem sempre como tema principal,
Ana Adelaide Peixoto Acervo pessoal
Uma afirmação sábia e importante que a autora faz, sem medo de ser feliz: “Quero dizer que sou feminista sim. E feminina também. Uma coisa não exclui a outra.”. Claro. Mas quanta gente boa não acha que sim, que uma coisa exclui a outra necessariamente... Também contra esse lamentável equívoco luta a lúcida Ana, enquanto, para
Rosiska Darcy Editora Rocco
Por outro lado, vê-se que sua bem-sucedida trajetória tem uma explicação que se impõe: seu apego a livros e filmes, além da vida acadêmica. O que prova que a cultura fez e faz diferença. Sem ela, talvez a jovem cronista de voluntários cabelos brancos estivesse hoje condenada à mais cruel “invisibilidade”. Entre seus ídolos, compreensivelmente se destacam as escritoras: Simone de Beauvoir, Rosiska Darcy, Elizabeth Batinder, Clarice Lispector, Marina Colassanti, Virgínia Woolf e Maria Valéria Resende. Mas também, viva!, há espaçoso lugar para Rita Lee e Bob Dylan.
“Pra elas e por elas”, Ana afirma que escreve. Sim. Mas para os homens, idem, ressalto. Para que eles se eduquem, se transformem, evoluam e deixem para trás o brucutu de sempre, o arrogante “macho alfa” de sempre. Para o bem deles mesmos, diga-se. Pois, como ela conclui, veemente, em suas confiantes palavras introdutórias, “O futuro é Feminino!”. Inapelavelmente feminino, digo eu, torcendo, de verdade, para que ela esteja certa.