Meu caro amigo e confrade José Mário.
Inicio agradecendo a sua participação, mesmo estando distante, no meu curso, Uma Introdução a Os Lusíadas, programado para dois sábados (21 e 28/09), num total de seis horas-aula, aberto a qualquer público interessado e ministrado no âmbito de nossa Academia Paraibana de Letras, patrocinadora do evento, em comemoração ao quinto centenário de nascimento de Luís Vaz de Camões.
Massaud MoisésUSP
Não há dúvida de que o discurso do Velho do Restelo tem na sua origem um recurso retórico, cuja substância invectiva não será observada, pois, se assim o fosse, o poema não existiria, tendo em vista que a condenação ao projeto expansionista português, à época, determinaria a inexistência do poema, cujo intento, bem explícito na sua Proposição (Canto I, estrofes 1-3), é cantar “as memórias gloriosas/ Daqueles reis que foram dilatando/A Fé e o Império”. O discurso, no entanto, não se exaure na sua forma retórica.
Alfredo Roque Gameiro / BNP
Vejo o discurso contundente do Velho do Restelo, mais como a voz sábia, proveniente do já citado “saber só de experiências feito” (estrofe 94, 7), que o credencia a fazer a advertência ao projeto marítimo. É a voz sábia que se levanta não querendo deter o progresso ou a necessária expansão marítima, mas chamar a atenção para o perigo e para a inconsistência da Fama e da Glória, que dariam uma discutível Honra, vez que tudo está movido pela vaidade, pela ambição, pela ganância, pela prepotência, tão bem sintetizadas nos versos iniciais da famosa invectiva: “– Ó Glória de mandar, ó vã cobiça/Desta Vaidade a quem chamamos Fama!” (IV, 95, 1-2).
Richard Claraval
Com Faetonte, o resultado não é diferente. Não contente de saber que é filho de Apolo Febo, “o moço miserando” (IV, 104, 1) exige guiar o Carro do Sol, um atributo exclusivo de seu pai, e acaba fulminado por Júpiter, porque a sua desastrada e fraca condução dos fogosos corcéis ameaçava a destruição do mundo.
Alfredo Roque Gameiro / BNP
Alfredo Roque Gameiro / BNP
Gostaria, ainda, José Mário, de trazer mais reflexão ao tema, que me parece, com toda a reverência que tenho, ter faltado ao mestre Massaud. Podemos, indiscutivelmente, ver Os Lusíadas em três tempos: o tempo da narrativa, o tempo da escritura e o tempo presente. Como o poeta é vate – já ensinavam as Musas a Hesíodo, na Teogonia –, ele tem, portanto, a capacidade inata de criar algo que possa se reportar ao passado, permanecer em seu presente
Gustave Moureau
O tempo da narrativa se reporta ao final do século XV (1498), quando Vasco da Gama empreende uma arriscada e real viagem, com o sentido de chegar às Índias, costeando a África, em busca de especiarias (pimenta, noz, noz-moscada, cravo, canela... Canto IX, estrofe 14) e, sendo o caso, expandir o império português. Na profecia de Thétis, a Nereida que acolhe o fictício Vasco da Gama e os seus navegadores, na Ilha dos Amores (Canto X), serão muitos os navegantes, em busca do Oriente e de suas riquezas, tendo em vista que Vasco da Gama, “o peito ilustre Lusitano” (I, 3, 5), será lembrado como aquele que abriu essas portas marítimas (X, 138, 1-4):
Eis aqui as novas partes do Oriente
Que vós outros agora ao mundo dais,
Abrindo a porta ao vasto mar patente,
Que com tão forte peito navegais.
Vê-se, então, que, na realidade ou na ficção, há uma necessidade maior que leva ao desafio da empreitada marítima. Necessidade ditada por uma condição histórica: a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, em 1453, que se estende para um domínio do Mediterrâneo, leva os povos de uma natureza marítima atlântica, como Portugal e Espanha, a se aventurar a descobrir uma possível ligação entre o
Alfredo Roque Gameiro / BNP
O medo do Velho do Restelo não se limita apenas ao fato de que inimigos estão à porta, como Aníbal esteve em Roma. Há um receio maior por serem os turcos muçulmanos, religião que se expandiu mais depressa com a fundação do Império Otomano, por volta do século XII. Os versos anteriormente citados (“Deixas criar às portas o inimigo,/Por ires buscar outro de tão longe”), se entendem melhor quando os articulamos com o contexto histórico e com os quatro versos iniciais da estrofe anterior (IV, 100):
Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?
Alfredo Roque Gameiro / BNP
Entre o tempo em que escreve a sua obra, o tempo da escritura, procurando harmonizar “engenho e arte” (I, 2, 8), e a publica (1572), Camões vê o reino passar às mãos de um rei inexperiente, alçado à maioridade aos 14 anos (1568) e, mal aconselhado, entender de fazer guerra aos mouros, em seus domínios no Marrocos, perecendo aos 24 anos, na Batalha de Alcácer-Quibir (1578). D. Sebastião, a quem o poema é dedicado, não seria “o moço miserando”, na alegoria de Faetonte,
Alfredo Roque Gameiro / BNP
Por fim, meu amigo, mas não por último, perdoe-me o clichê, bem aplicável aqui, pela vastidão do assunto e pela grandeza imensa de Camões, chegamos ao tempo presente, para nós, e futuro, para o poeta, em que a sua obra, libertando-se “da lei da Morte” (I, 2, 6), se imortaliza. Nos tempos em que vivemos, faz-nos falta alguém de “aspeito venerando”, que tenha “um saber de experiências feito”, que possa expressar um chamamento para acordar a nossa entorpecida consciência; que nos sacuda e nos faça reagir à bazófia e à ignorância de governantes pusilânimes, fátuos, mesquinhos, cujo objetivo é a ganância e a prepotência. Hoje, mais do que nunca, meu querido José Mário, deveria se fazer ecoar a frase inicial do Velho do Restelo: “– Ó glória de mandar, ó vã cobiça!”. Vivemos uma inquietação na alma, já profetizada por Camões, que não há de ser extirpada, enquanto fecharmos os olhos e continuarmos com a nossa consciência inerte, diante de uma situação de descalabro, a se repetir continuamente:
Dura inquietação da alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana.
Na esperança de ter contribuído para o bom debate, meu amigo, confesso a minha alegria e meu prazer de debater com pessoas inteligentes, como você!
Grande abraço, do seu amigo e confrade,
Milton