O livro As flores do mal (Les fleurs du mal), de 1857, revolucionou a literatura francesa, deixando para trás o Romantismo. Seus poemas, muitas vezes, crus e realistas dariam ao flâneur Charles Baudelaire o status, nada lisonjeiro de início, de “poeta maldito”. Apesar da estranheza com que os seus poemas foram recebidos, em meio ao que se pode chamar de poesia sem halo e poeta sem auréola, como o próprio Baudelaire se definiu, encontra-se uma pérola, aparentemente das mais singelas, um hino a uma determinada Francisca — Franciscae Meae Laudes. Integrando a parte Spleen et idéal,
o hino é o único poema, de todo o livro, escrito em latim, cuja singeleza, na realidade, esconde uma intenção sexual. Dele, fizemos uma tradução em versos heptassílabos, que apresentamos aos nossos leitores.
Eu te canto em novos timbres,
Ó noviça, tu que brincas
Em meu coração sozinho.
Klimt, 1909
Enlaçada em guirlandas.
Tu serás, ó mulher terna,
Por quem os pecados vão-se!
Tal o Letes, rio benéfico,
Beberei os beijos teus,
Que és toda imantação.
Quando os vícios em tormenta
Os caminhos perturbavam,
Tu, Deidade, apareceste,
Tal estrela salvadora
Nos naufrágios tão amargos…
O meu cor em teu altar!
Lago pleno de virtude,
Fonte eterna juvenil,
Dá a voz aos lábios mudos!
O abjeto, tu queimaste;
O mais rude, aplainaste,
E o débil, tu firmaste.
És taberna, em minha fome
E na noite, minha luz,
Sempre, reto, me governa.
Dá, agora, forças aos fortes,
Doce banho perfumado
Com os odores mais suaves!
De meus rins cintila, em torno,
Ó arnês da castidade,
Água tinta e seráfica;
Taça cintilando gemas,
Manjar doce, salso pão,
Ó, divino vinho, Francisca!