“No princípio fez-se a poesia, e a prosa era a excepção. No princípio fez-se o mar, e a terra era a excepção. No princípio fez-se o seio, e o sopé era a excepção. No princípio foste tu... então se fizeram as mulheres.”
Nizar Tawfik Qabbani, diplomata, poeta, escritor e editor sírio (21.03.1923 — 30.04.1998)
Nizar Tawfik Qabbani, diplomata, poeta, escritor e editor sírio (21.03.1923 — 30.04.1998)
O Amor é o tema fundamental de quase toda a literatura, como é o tema essencial da própria vida. Mas o amor não ocupa o mesmo lugar em todas as vidas e também não preenche a mesma atmosfera em todas as literaturas. Na literatura árabe, o seu lugar tem sido difusamente predominante por aquela apetência tão intensa do árabe em galantear o belo, criando e verbalizando-lhe o prazer da poesia e que, talvez por isso também, pode ser compreendida e amada em qualquer época e país, e através de todas as línguas.
Alguns contos d'As Mil e uma Noites (“alf laila ua laila”) são o paradigma da sensualidade em todo o seu requinte erótico. Certos poemas de Hassan Ibn Hani — conhecido por Abu Nawas (Pai dos Cachos), preso muitas vezes e muitas vezes solto por ofender o califa Harun Al-Rashid por excessivo agnosticismo e sensualidade — ou de Bashar — que evocam noites passadas entre taças de vinho, moças e rapazes bonitos — superam em lubricidade os romances mais licenciosos da literatura contemporânea.
Os poetas e prosadores que celebraram este tipo de amor pertencem às escolas e aos temperamentos mais profusos. Encontramos poetas como Abu Ibn Hazm (994-1064), o austero teólogo de Córdova que se dedicava a escrever tratados de metafísica, autor da famosa obra O Colar da Pomba (“tauq al-hamama”), na qual confessa o seu amor
Na literatura árabe, o amor platónico não é um amor etéreo, como se podia supor. Produto do mesmo clima ardente e do mesmo sangue impetuoso, é um amor tão arrebatador e exigente quanto os demais. Um traço, porém, distingue-o: o apaixonado ama a uma só mulher e permanece fiel a vida inteira, mesmo quando as circunstâncias separam para sempre os dois enamorados. Privado da sua amada, o poeta prefere a solidão ou a morte.
A idade de ouro do amor platónico, dos poemas de amor comoventes e delicados e das paixões profundas e duradouras, foi o século VII. Os seus expoentes mais eloquentes são os célebres poetas Majnun Laila, Jamil (o amado de Bussaina), Kussaier (o apaixonado de Izza), Quays (o enamorado de Lubna) e Orua (o amante de Afra). Um detalhe curioso: esses poetas são conhecidos não pelo seu apelido, mas sim pelo nome próprio associado ao prenome da sua amada, como por exemplo Jamil Bussaina, Kussaier Izza, etc. Dois corações e dois nomes ligados para sempre num só...
A Oração da TardeJL Gérôme, 1865
Os biógrafos de Al-Farid relatam que ele passou toda a sua vida desejando encontrar-se com o divino e que somente alcançou esse desígnio na hora da morte. Durante a sua agonia, terá murmurado: “esperei tanto tempo por um olhar de Ti... Oh, quanto sangue correu por esse desejo meu!”. E, sorrindo, expirou. A sua obra foi recolhida num compêndio admirável chamado Divan. Dos seus poemas, os mais célebres são nazm as-suluk (Poema dos Progressos do Místico) e al-khamria (Ode ao Vinho), uma alegoria na qual o amor divino é glorificado, sob as aparências de um vinho capitoso.
O fim de Al-Hallaj, místico e mestre sufi de origem persa, foi mais sublime ainda. Acusado de heresia por pregar que a essência da religião era o amor e não a teologia, foi condenado à pena capital. Flagelado, mutilado, crucificado e esquartejado, conservou-se fiel à sua paixão até ao último suspiro. Quando o tiraram da prisão para o executar, conta uma testemunha que o viu dançar de júbilo sobre os seus grilhões recitando: “Aquele que me convida, para não parecer que me lesa, fez-me beber na taça em que Ele mesmo bebeu”. E quando foi erguido na cruz, ouviu-se entretendo-se em êxtase com Deus.
A crucificação de Mansur Al-Hallaj ▪ Manuscrito ilustrado, S.XIX ▪ Fonte: Wikimedia