Pode um branco escrever um romance sobre personagens de cor? E pode um ocidental escrever uma história passada no Oriente? Toda vida foi possível — e há mil exemplos —, mas agora parece que não. Agora a coisa não é tão simples, como nada mais parece ser simples, num mundo que, estou certo, ficou mais burro — e desagradável.
O leitor já formou uma ideia inicial da questão e deve estar, imagino, refletindo, pasmo, de boca aberta, sobre as nefastas consequências que essa tal de “apropriação cultural” pode ter para a literatura e para as artes em geral. Cada qual agora em tese só pode escrever sobre o seu próprio umbigo, sobre o seu próprio grupo. Pode?
Que isso é uma forma descarada de censura, não há dúvida. Pois a liberdade não consiste exatamente no direito de quaisquer autores e autoras escrever sobre o que bem quiserem?
Veio-me à lembrança um romance do maranhense Josué Montello situado na Paris ocupada pelos alemães. Para os adeptos da “apropriação cultural”, ele não poderia ter escrito tal obra, já que não viveu a experiência da capital francesa sob os nazistas. Só alguém que viveu aqueles dias sombrios poderia legitimamente fazê-lo. E Machado de Assis, sendo quem foi, poderia ter escrito seus romances ambientados nas burguesia e aristocracia cariocas do século XIX? E, hipoteticamente não podendo, essa burguesia e essa aristocracia por acaso conseguiriam gerar um gênio capaz de traduzi-las literariamente? Olha o problema. Amplie-se o quadro para o mundo inteiro e ter-se-á uma ideia do tamanho do pepino.
E o tal do “leitor sensível”? É uma nova categoria profissional, filha da “apropriação cultural”, cujo ofício consiste em ler, para as editoras, manuscritos que possuam potencial de críticas ou de questionamentos por parte de segmentos da sociedade. Desse modo, se um autor branco escreve sobre um personagem negro, contrata-se um leitor sensível negro para verificar
O leitor pode perfeitamente imaginar onde isso tudo irá parar, se é que parará em algum momento. O autopatrulhamento dos autores já é uma realidade há algum tempo. O “politicamente correto” não é de hoje e seus fanáticos seguidores vêm há anos cancelando criadores por quaisquer supostos deslizes, reais ou fictícios. E até retroativamente, como ocorreu com Monteiro Lobato, em lamentável episódio.
Não sei se a “apropriação cultural” é um fenômeno de mão dupla. Ou seja, se vale para todos ou apenas para alguns, o que seria simplesmente odioso. Há muita porra-louquice circulando por aí. Insana porra-louquice fundamentalista.