Certamente em função do tema que desenvolve – uma versão de como se teria urdido o mito de Jesus Cristo –, Waldemar Solha opera com alguns dos recursos que inauguraram a vertente dialógica da literatura. O presente trabalho se propõe a apontar alguns desses recursos, ligados ao diálogo socrático e à sátira menipeia, observando-lhes a pertinência linguística, em função do plano temático, e a possível eficácia literária.
O primeiro deles é o “dialogismo”, formulado segundo princípios teóricos de Mikhail Bakhtin. Os quatro evangelistas discutem o seu Cristo num teatro, cuja forma de estruturação é basicamente o diálogo. O engendramento do Libertador vai-se fazendo aos poucos, pela intervenção de cada um. Trata-se afinal de buscar a verdade, e esta (conforme postula Sócrates) não pode nascer de um só homem – está entre os homens.
Mikhail BakhtinUniversidade Lomonosov
“A cópia fotográfica disto que chamamos realidade não conseguiria jamais, eu sei disso, trazer à superfície este nosso Messias. Ele terá de ser o resultado de nossa disposição à mediunidade (...) que foi concedida aos artistas”.
Para destruir a dominação romana, os quatro não vão pegar em armas ou pregar em praça pública. Vão ativar reminiscências, estabelecer analogias no confronto dos diversos textos sagrados. O propósito deles, à maneira do que havia no diálogo socrático, é uma “procura e experimentação” da verdade, que se confundiria com o Verbo,
Pablo Renaud
Importa salientar que a simulação do recurso dialógico, como forma prevalente de estruturação da narrativa, não foi de modo algum gratuita. O romance enfoca um momento de ruptura da totalidade psicoemocional do homem, qual seja, o da decadência clássica e primórdios de uma nova religião. E o cristianismo instaurou a percepção e a expressão dramáticas, opostas à univocidade da epopeia e da tragédia. No drama, cuja essência é a tensão, exerce papel capital o diálogo. Privilegiando-o como forma de atuação dos evangelistas, o texto se harmoniza com o espirito em que se deu o advento cristão.
Menipo Mariano Fortuny
No romance, tal efeito se realiza em larga medida pelo uso de elementos tomados à linguagem cinematográfica. Isso permite multiplicar os ângulos de visão “inusitados” mediante os quais o artista transpõe o real, o que torna possível fundir todas as distâncias e todos os tempos. Como um dos objetivos do narrador é atualizar os instantes, já que a vigência dos mitos é atemporal, os processos cinematográficos, além do que representam por si, têm um valor quase simbólico.
São abundantes no texto passagens que reproduzem técnicas do cinema. A título de exemplificação, pincemos duas:
“Lucas... recuou com tal rapidez, que sua posição anterior ficou ainda um momento recuando no ar....” (p. 28);
“Eliseu, sendo visto de cima para baixo por ele (Elias), saiu correndo, aturdido com a ligação daquela travessia com a de Moisés, decrescendo na margem do Jordão, rapidamente se encolhendo na distância, sua voz diminuindo sensivelmente, ele gritando ‘Meu pai: Carros de Israel e seus cavaleiros!’”
O resultado não é só um texto verbal, é um filme. E como não, se tudo é cinema? Se o Homem não é outro senão o que “fora localizado a partir de um fotograma qualquer, perdido no meio do rolo do filme inteiro que, segundo os cálculos aproximados de Einstein, tem cerca de 200 bilhões de anos-luz de extensão”? (p. 59) Outro recurso ligado à sátira menipeia que aparece no romance é a “incorporação do fantástico de aventura”. Tal expediente decorre da própria matéria de que o romancista se apropria, representada pelo cruzamento entre a história e a lenda. Reconstituindo os passos de Ciro, Jacó, Moisés, o narrador como que revive os mitos, apresentando-os nos momentos de prova pelos quais teriam sobrevivido no imaginário popular. Nessas ocasiões o fantástico se confunde com o simbólico, pois aí se representam valores e se realizam desígnios que remontam ao começo dos tempos – à voz dos profetas.
WJ Solha
Citemos, por fim, a chamada “fusão de discursos”. Os argumentos de que Solha lança mão para provar a sua “tese” sobre o Cristo têm variada proveniência: livros sagrados, textos de literatura, obras historiográficas. E têm sobretudo um fundamento popular: a crença pagã na “festa do sol renascente”, que acorre por ocasião do solstício de inverno. Nessa data, “o Sol (...) aparece de volta, depois de um longo inverno, para nos salvar do Mal e das Trevas” – imagem do que, para o homem, representa a vinda do Salvador.