O envelhecimento de tudo que é vivo marca a gradativa vitória de Tânatos sobre os viventes. É inevitável, sabemos nós, eternos aprendizes da finitude. Aceitar isso com alguma naturalidade é sabedoria, pois de que adianta qualquer revolta e irresignação? Entretanto, dentro do possível, e mesmo sem se mostrar, Eros luta contra Tânatos até onde pode. É inevitável também, pois é da natureza de tudo que vive querer permanecer vivo, pelo menos até onde der. Eros e Tânatos, pulsão de vida e pulsão de morte, como dizem os psicanalistas, as duas forças vitais que nos regem e se combatem mutuamente.
Darcy Ribeiro ▪ 1922—1997
Também no octogenário poeta Drummond as duas pulsões lutaram de forma tenaz. Ele, sabe-se, foi muito sensual, cultivou o sexo da infância à velhice, mas sempre discreto, mineiro até a derradeira célula. Foi muito cioso de sua respeitabilidade pública e privada. Namorou e teve casos sem ostentar, mas também sem esconder. Certa vez o vi a passear tranquilamente com a namorada em Ipanema. Era já um ancião, mas muito digno e elegante, de blazer. Fiquei parado, embevecido, vendo-o passar por minha muda admiração, devagarinho.
O itabirano morreu em 1987, aos 84 anos. Os dois últimos livros seus publicados em vida foram Corpo, de 1984, e Amar se aprende amando, de 1985. Postumamente, foram publicados O amor natural, de 1992, e Farewell, de 1996.
Drummond era complexo. Dionisíaco e apolíneo ao mesmo tempo, era um na alcova e outro fora dela. Quem não soubesse, jamais adivinharia no reservado e tímido funcionário público o sátiro refinado, cultor das delícias sensuais. Tudo isso o fez conhecer e compreender melhor o amor em suas várias dimensões, e tudo isso ele levou para sua poesia, enriquecendo-a com a moeda inestimável da vida vivida. Afinal, quem melhor pode falar e escrever sobre Eros senão quem o conhece pessoalmente?
Carlos Drummond de Andrade ▪ 1902—1987
Os críticos já registraram a presença de Eros em Drummond desde o primeiro livro, Alguma poesia, de 1930. Lá já estão as pernas das mulheres que passam no bonde, os corpos enrolados e que se penetram e a lavadeira morena que iniciou amorosamente o menino itabirano. E assim praticamente em toda a sua obra em versos, com destaque para os livros derradeiros, quando Tânatos já se aproximava do ancião reclamando seu lugar.
Em Farewell (Despedida), livro póstumo de 1996, vê-se a derrota final de Eros, como não poderia deixar de ser. Está lá, no poema “Restos”, quatro versos que dizem tristemente a triste realidade do ocaso:
Restos
O amor, o pobre amor estava putrefato. Bateu, bateu à velha porta, inutilmente. Não pude agasalhá-lo: ofendia-me o olfato. Muito embora o escutasse, eu de mim era ausente.
O amor, o pobre amor estava putrefato. Bateu, bateu à velha porta, inutilmente. Não pude agasalhá-lo: ofendia-me o olfato. Muito embora o escutasse, eu de mim era ausente.
Transcrevo a seguir um dos últimos poemas de seu livro de despedida (Farewell), resumo de uma vida e de uma obra notáveis, derradeiro recado enviado a Eros e a Tânatos, deuses de seu particular Olimpo destroçado:
Sono Limpo
Não mais o sonho, mas o sono limpo de todo excremento romântico. A isso aspiro, deus expulso de um Olimpo onde sonhar eram versões de existir. Não à morte: ao sono que petrifica a morte e vai além e me completa em minha finitude, ser isento de ser, predestinado ao prêmio excelso de exalar-se. Não mais, não mais o gozo de instantes de delícia, pasmo, espasmo. Quero a última ração do vácuo, a última danação, parágrafo penúltimo do estado – menos que isso – de não ser.
Não mais o sonho, mas o sono limpo de todo excremento romântico. A isso aspiro, deus expulso de um Olimpo onde sonhar eram versões de existir. Não à morte: ao sono que petrifica a morte e vai além e me completa em minha finitude, ser isento de ser, predestinado ao prêmio excelso de exalar-se. Não mais, não mais o gozo de instantes de delícia, pasmo, espasmo. Quero a última ração do vácuo, a última danação, parágrafo penúltimo do estado – menos que isso – de não ser.