Conta Otto Lara Resende que Guimarães Rosa gostava de dar o seguinte conselho aos seus amigos escritores: “Não fabriquem biscoitos, fabriquem pirâmides.”. Referia-se o autor de Grande Sertão: Veredas provavelmente a obras semelhantes ao seu célebre livro. Obras importantes, definitivas, de preferência volumosas. Rosa gostava de livros grossos, que ficassem de pé sozinhos. Vejam só. Como se fosse fácil fabricar pirâmides. Como se dependesse apenas da vontade e do esforço do escriba. Quantas pirâmides não teríamos se fosse assim tão simples...
Os biscoitos são os contos, as crônicas, os artigos, as miudezas literárias que tendem a passar ligeiro sem deixar rastro, segundo Rosa. Por esse critério, Rubem Braga e o nosso Gonzaga Rodrigues foram e são biscoiteiros.
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O próprio Rosa começou fazendo os biscoitos de Sagarana. Finos biscoitos, é verdade, mas biscoitos. E Dalton Trevisan só fabrica biscoitos? Os faraós serão apenas os construtores de vastos romances? Veja-se o perigo das classificações. E no entanto não podemos passar sem elas, pois são a maneira de pormos uma certa ordem no caos, para melhor entendê-lo. O homem é realmente um animal que classifica. E tem um orgulho danado em fazê-lo, como se classificando ele se tornasse mais senhor da confusa e enganosa realidade.
Bom, o fato é que a literatura não é feita somente de pirâmides. Aliás, seria até entediante se assim fosse. Onde ficaria, por exemplo, a leveza das crônicas? E a concisão dos contos, romances em miniatura? Creio que nem os mais talentosos escritores, capazes de levantar monumentos, aguentariam tamanha pressão de a todo tempo estar trabalhando em obras colossais.
João Guimarães Rosa ▪ 1874—1952
O problema, penso, é que o leitor, o leitor dito comum, não especializado, nem sempre está disposto a escalar montanhas, preferindo caminhar na planície ou, no máximo, subir uma simples colina. E por falar em montanha, lembremos a Montanha Mágica,
Thomas Mann ▪ 1875—1955
E como ficariam as editoras e as livrarias se não fossem os biscoitos? Sobreviveriam apenas à base de pirâmides? Duvido. Geralmente, sabemos, até pelo tamanho, as tais pirâmides são indigestas para o leitor mediano, desprovido de instrumentais teóricos e críticos para saber degustá-las com prazer. Esse leitor, que sustenta escritores e todo o complexo negócio do livro, gosta mesmo é de biscoito. O que não quer dizer, evidentemente, que ele não sabe apreciar as qualidades de um texto, diferenciando-o do lixo impresso que abunda por aí.
E o nosso Gonzaga, fabricante aldeão de finas iguarias em forma de crônicas? Por acaso, iremos avaliá-lo por baixo só por conta de seus personalíssimos biscoitos? Jamais, pois ele é de fato um escritor, um grande escritor, como sabemos. Possui indubitavelmente recursos literários para se aventurar na seara do romance, mas não quis.
Gonzaga Rodrigues
Outro paraibano que fabricou finíssimos biscoitos, no melhor sentido da palavra, foi Juarez da Gama Batista. Sua obra consiste em mais ou menos pequenos ensaios críticos, de uma qualidade reconhecida nacionalmente e que ele publicava como precários folhetos ou algo parecido, pela editora da UFPB ou de A União. Mas será menor o mestre por causa disso? Claro que não.
Mário de Andrade um dia disse ou escreveu a Carlos Lacerda que ele seria o maior escritor do país se renunciasse ao brilho fácil. Ou seja, se abandonasse a política, os discursos, as polêmicas jornalísticas, e se dedicasse exclusivamente, com afinco, às letras literárias. Ele não renunciou, pois amava demais o brilho mundano, e assim passou a vida fabricando biscoitos. Até que perto de morrer, como se adivinhasse que não teria mais tempo, ele finalmente levantou uma pirâmide indiscutível:
Carlos Lacerda ▪ 1914—1977
O fato é que de biscoitos e de pirâmides se faz a literatura. O velho Rosa, com sua distinção espirituosa mas radical, foi muito exigente e talvez um pouco preconceituoso com as obras menos piramidais. Hoje em dia, como leitor, sou cada vez mais um declarado fã de bons biscoitos. E, até pela idade, já não me atraem os esforços das grandes escaladas.