A frase parece contrariar o juízo crítico que afirma devermos nos distanciar do objeto para vê-lo melhor e, assim, procedermos a uma análise, o mais possível, isenta. Mas só parece, porque, na realidade,
Particularmente, acho uma infantilidade entregar-se sem limites à adoração de qualquer ser humano, que não sejam os pais, merecedores de toda a nossa gratidão e dedicação. Em seguida, tenho a certeza de tratar-se de uma atitude nociva a demonstração explícita de um apoio irrestrito a pessoas que, no mais das vezes, são impostores e embusteiros. Só pessoas imaturas têm ídolos inatacáveis, por mais que os pés de barro estejam constantemente expostos.
Diante das lamentações de Teodorico, que fora “aos Santos Lugares para” se “refocilar” (Capítulo II, p. 159), ao sábio alemão Topsius, seu companheiro de viagem, o erudito germânico lhe dá uma bela lição de filosofia (idem, p. 160):
“O sábio fez considerações sobre a voluptuosidade. Ela é sempre enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma entristece...”
A situação é cômica, ainda mais se levarmos em conta os pontapés tomados na ilharga, a ele, Teodorico, endereçados pelo “Hércules”, pai de uma “Vênus”, que ele tenta espiar no banho, olhando pelo buraco da fechadura,
Lendo a cena de A Relíquia, não tive como não me lembrar de Augusto dos Anjos, embora em outra perspectiva. Não mais a da ironia, mas a da exposição de uma realidade que não condiz com as aparências, conforme se encontra no poema “As Cismas do Destino” (estrofe 89, versos 353-356, Parte III):
“Ah! Por mais que, com o espírito trabalhes
A perfeição dos seres existentes,
Hás de mostrar a cárie dos teus dentes
Na anatomia horrenda dos detalhes!”
Está aí a chave de todo o enigma. Seja no plano ficcional, com a crueza recriminatória de Augusto dos Anjos, ou com a ironia de Eça de Queirós, nos apresentando um personagem fingido e hipócrita, que resolve jogar o jogo de um mundo não menos fingido e hipócrita, e perde a aposta, por não ser tão ousado para dobrá-la, insistindo na mentira, como a hipocrisia pede
É impossível deixar de fora Camões e a passagem do Velho do Restelo, no Canto IV de Os Lusíadas (estrofe 94 e ss.), quando o personagem “d’aspeito venerando” e “cum saber só de experiências feito”, recrimina o desejo irrefreável da “glória de mandar” e da “vã cobiça”, que estão na origem da hipocrisia, cobiça tão devastadora para uma nação, porque vista como “ilustre” e “subida”, mas, quando submetida ao infalível microscópio, torna-se “dina de infames vitupérios”.
Só quando decidimos retirar o véu de nossos olhos e renunciar a uma avançada e voluntária catarata, é que avistamos a cárie no sorriso perfeito. E, se investigarmos com afinco, veremos que o sorriso perfeito é uma prótese...