No início dos anos 1980, uma música de Rita Lee, que tocava em todas as rádios do país, evocava em sua letra o ambiente do Brasil na virada da década de 1950 para 1960:
“Numa noite de verão
Ai! Que coisa boa
À meia luz, a sós, à toa
Você e eu somos um caso sério
Ao som de um bolero
Dose dupla
Românticos de Cuba... libre”
Caso sério (Rita Lee — Roberto Carvalho)
Nas palavras da canção apareciam aspectos representativos daquele período: a Orquestra Românticos de Cuba, o “cuba-libre”, o coquetel típico da época (rum, coca e limão), e a menção implícita à revolução que, no primeiro dia de janeiro de 1959, sob o comando de Fidel Castro e Ernesto ‘Che’ Guevara, tomara o poder na ilha de Cuba. O escritor Antônio Torres rememorou aquele tempo em uma crônica no Jornal do Brasil:
Sigamos de volta ás ondas de uma época na qual saracoteávamos como se estivéssemos na sonora Havana, então a mais franca zona americana com luxuosos cassinos bancados pela Máfia. Por baixo dos panos, rolavam os royalties para o ditador Fulgencio Batista. Enquanto isso, nós aqui, ainda uns rapazes imberbes inebriados pela cuba libre, adorávamos o nosso presidente JK, o seresteiro e pé de valsa. E ignorávamos a que liberdade se referia o coquetel de rum com Coca-cola. Apenas sonhávamos em ter entre os braços a bela garota de band-aid no calcanhar. Dois pra lá, dois pra cá.”
Havana, Cuba ▪ 1950s
Nilo Sérgio ▪ 1921—1981
Em 1952, Nilo Sérgio resolveu criar uma gravadora de discos, a Musidisc, inicialmente com a finalidade de estabelecer parcerias com gravadoras norte-americanas que lançavam discos de música instrumental. Com um grande instinto comercial e com o conhecimento do gosto musical do público adquirido em anos atuando em orquestras, Nilo Sérgio decidiu gravar alguns discos na Musidisc. Para uma das produções resolveu procurar o maestro Severino Araújo, de quem era muito amigo, e com quem trabalhara, como cantor, na Orquestra Tabajara.
Em depoimento para o livro de Carlos Coraúcci “Orquestra Tabajara – a vida musical da eterna Big Band brasileira” (Companhia Editora Nacional, 2009), Severino Araújo relatou que, em setembro de 1958,
Severino Araújo ▪ 1917—2012
Com os detalhes para a gravação acertados, precisaria se escolher um nome para a orquestra e que tivesse certo apelo comercial. Segundo Severino Araújo, houve relutância na escolha do nome Românticos de Cuba, em razão do momento em que estavam vivendo, no qual as forças revolucionárias cubanas que haviam descido da Sierra Maestra caminhavam para a vitória. Mas, acabou prevalecendo a vinculação de Cuba com o bolero. Após a realização das gravações, os músicos receberam os seus cachês e foram dispensados. A partir daí a Orquestra Românticos de Cuba, um grupo de músicos que fora formado apenas para gravações em estúdio, deixava, de fato, de existir. A orquestra só poderia ser ouvida em discos.
O primeiro disco da Românticos de Cuba foi lançado em 1959, com o título “Besame Mucho” contendo 24 clássicos do bolero como “Quizas, quizas, quizas”, “Quiereme mucho”, “Besame mucho”, entre outros. O sucesso comercial foi imediato e o disco logo entrou nas listas dos mais vendidos e, curiosamente, como pouco se sabia da origem da orquestra, colocado no segmento internacional, superando até um disco de Elvis Presley, como se vê nesse ranking do Diário Carioca:
Diário Carioca, 19.07.1959 ▪ Fonte: BN

Ary Vasconcelos ▪ 1926—2003
O êxito do primeiro disco da Românticos de Cuba levou a Musidisc a lançar, ainda em 1959, um novo disco da orquestra com o título “Quiereme mucho”. Desta vez, além de clássicos do bolero, foram incluídas músicas brasileiras e sucessos internacionais, mas devidamente abolerados pelos arranjos de Severino Araújo. Ary Vasconcelos, mais uma vez, deu ao disco uma cotação quase máxima:
O sucesso estrondoso da Românticos de Cuba extrapolou o mercado brasileiro. No final de 1959, a Musidisc publicou na revista norte-americana Cash Box anúncio de página inteira divulgando a orquestra e, logo em seguida, a gravadora abriria um escritório nos Estados Unidos. O êxito internacional da orquestra pode ser avaliado por um episódio. Em 1961, conforme relato de um filho de Nilo Sérgio ao jornal O Globo, quando da frustrada invasão de Cuba por grupos de exilados cubanos com o apoio da CIA, o escritório da Musidic nos Estados Unidos foi invadido por “competentes”
O sucesso comercial da orquestra obviamente levaria a novos discos usando a fórmula que vinha dando certo. De outubro de 1958 a maio de 1962, foram gravados cinco discos da Românticos de Cuba com arranjos do maestro Severino Araújo. A bem da verdade, são os melhores discos que foram feitos pela orquestra de estúdio. Mas, o sucesso da Românticos de Cuba acabou incomodando a gravadora Continental, que tinha o maestro como contratado e o proibiu de continuar fazendo arranjos para Musidisc. A Continental tentou, sem êxito, uma fórmula parecida, criando a Orquestra Romântica de Severino Araújo.
Severino Araújo, em depoimento para a obra de Carlos Coraúcci sobre a Orquestra Tabajara, demonstrou não ter boa lembrança do seu trabalho para a Românticos de Cuba:
“Eu nunca gostei e muitas vezes senti ódio da Românticos de Cuba. Uma orquestra que nunca existiu e sempre enganou o meu povo. Sou brasileiro e tudo que engana meu povo não tem a minha simpatia”.
A Musidisc também conseguiu êxito com outros artistas fictícios. Um deles, de nome Bob Fleming, na realidade o notável saxofonista Moacyr Silva, fez vários discos para a gravadora. Outra orquestra de estúdio criada na Musidisc e que fez relativo sucesso foi Os Violinos Mágicos (com arranjos do maestro Leo Peracchi).
Apesar de passados 65 anos do lançamento do primeiro disco da Românticos de Cuba, não custa nada tentar fazer uma experiência simples. Coloquem pra tocar um dos primeiros discos da orquestra, aqueles da fase do maestro Severino Araújo (todos disponíveis em plataformas digitais como o Spotify). Em pouco tempo, vai dar vontade de dançar “dois pra lá, dois pra cá” no ritmo do bolero. Naturalmente, agarradinhos. Como sugestão, ouçam a transformação que a batuta mágica de Severino Araújo fez com a canção francesa “Danse avec moi” na gravação da Orquestra Românticos de Cuba: