Ouvi a frase que intitula este artigo de um homem simples, sem escolarização formal, mas com a consciência bem azeitada sobre a triste condição do Brasil. Como sempre digo, o fato de ser analfabeto ou de não ter uma escolaridade formal e completa, em que se inclui o curso superior, não descredencia a inteligência de ninguém. Muitas vezes, pessoas assim são mais inteligentes e perspicazes do que muito doutor de anel no dedo e de título acadêmico.
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Não quero nem falar nos que estão ingressando na universidade. Uma lástima, principalmente nos cursos de Humanas. Digo isto por ter passado 38 anos como professor de Línguas e de Literaturas. Quem quiser me contrapor, fique à vontade, mas tem que mostrar, junto com a contraposição, a sua experiência como professor. Na teoria e na propaganda – nome aqui mais adequado do que publicidade – está tudo uma maravilha. A cada mudança no sistema de ensino, pois cada um que entra dá a sua contribuição para a manutenção da ineficácia, a promessa é de virarmos uma Suíça.
@UBE/PB
“Seguiram-se semanas de frequência continuada. Dividiu-me as matérias nesta ordem: segunda-feira, Português; terça-feira, Geografia; quarta-feira, Francês; quinta-feira, Matemática, Geometria e Trigonometria, matéria de que nunca pude entender; sexta-feira, História Universal; e o sábado se destinava a uma recapitulação, de caráter pitoresco, porque envolvia tudo que lhe vinha à mente, no instante, inclusive assuntos sociais e domésticos, além de política local. Era divertido. Uma espécie de sabatina. Eu fazia força para que chegasse o derradeiro dia da semana, devido à falta de protocolo, saindo da rotina e, por outro lado, por invadir searas diversificadas, deste modo descansando daquele castigo de ficar sozinho, durante duas horas da mais excessiva timidez diante de meu mestre.”
Edifício do antigo Convento Jesuíta, onde funcionava o Lyceu Paraibano, na praça Felizardo Toscano (atual praça João Pessoa), na cidade da Parahyba do Norte (atual João Pessoa
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Antes de ser professor particular de Ademar Vidal, Augusto dos Anjos, de janeiro a junho de 1909, foi co-diretor do Instituto Maciel Pinheiro, situado à Rua Barão do Triunfo, número 65, cujo currículo era o seguinte, de acordo com Raimundo Magalhães Júnior (Poesia e vida de Augusto dos Anjos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira/MEC, 1977, p. 199):
“Na primeira parte da 2ª seção primária o Instituto Maciel Pinheiro ensinava ‘língua materna, geografia, história do Brasil, astronomia, contabilidade, geometria’ e aperfeiçoava ‘a leitura em exercícios sobre prosadores de estilo simples e puro’. Na segunda parte, o programa incluía ainda ‘as principais noções de música, desenho, ciências físicas e naturais, história da civilização e, em se tratando de meninas, trabalhos de agulha’. Tudo isso em dois anos. A 3ª seção, com outros dois anos, incluía ‘noções das línguas latina e francesa, noções de escrituração mercantil e de economia política, além de instrução cívica, com o conhecimento da Constituição Federal e da Constituição Estadual.’”
Sei que alguns irão concentrar a leitura e as críticas, fora do contexto da época, no trecho sobre as meninas e os “trabalhos de agulha”. Deveriam perceber que o conhecimento, ainda no primário, de geometria e de astronomia tornaria sem sentido a discussão sobre se a Terra é plana ou redonda, como se um corpo plano não pudesse ser redondo... Por outro lado, se no momento atual é difícil ensinar língua, qualquer língua, percebe-se que, nos idos de 1909, as crianças no primário, além da língua portuguesa eram postas em contato com o francês e o latim. A organização mental que uma língua, na condição de um sistema natural, traz para a mente de uma criança,
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Há ainda outros ganhos, como o contanto com os escritores da língua, de início os “prosadores de estilo simples e puro”, eficaz método para estimular o hábito de leitura, ou “as noções de música”, que educaria o ouvido para evitar o que hoje se veicula como “música”. Não vou nem levar em conta as noções de ciências físicas e naturais, noções básicas, que são contrariadas, diariamente, por uma militância que só defende a ciência, quando ela lhe é conveniente.
Na realidade, os que quiserem ser críticos ao que foi aqui apresentado deveriam se fazer muitas perguntas, dentre elas, a mais crucial: Quando, em que ponto e por quê nos desgarramos?
Se ficarmos insistindo na exaltação de políticos; no vitimismo, que paralisa, e na lamentação inócua, a grande e brilhante reflexão de Dona Severina de Andrade, pela sua verdade simples e inequívoca, dará lugar e razão à ironia do cidadão do povo: “Daqui pra frente, só tem pra trás”.
E será, infelizmente, irreversível.