O Hotel Tambaú, onde se hospedava, não parecia caminhar para a bancarrota e, portanto, ainda conseguia atrair próceres da República. Simpático, afável, ele me recebeu à beira de uma daquelas três piscinas circundadas por jardins, redários e passarelas. A todo instante,
Fonte: gov.br
A entrevista iria para a edição seguinte da Revista A CARTA, projeto editorial de Josélio Gondim semanalmente aguardado nos meios políticos, econômicos e culturais da Paraíba. Nascido em 1915 na areia de Copacabana, como assim resumiu o coração do Rio de Janeiro de onde veio ao mundo, o velho Houaiss não escondia a paixão nutrida por este nosso pedaço do Brasil em muito feito de aflições e padecimentos.
Em João Pessoa, onde os coqueiros, o vento e o mar convidam ao esquecimento da vida pobre e precária nos guetos e roças, o ministro da Cultura do governo de Itamar Franco, naquele março de 1993, recebeu medalha da Fundação Casa de José Américo, em cerimônia a propósito dos 13 anos da morte do escritor paraibano, atendeu a reitores de universidades nordestinas e fez a principal conferência do Fórum Universitário, então uma das mais ativas mesas de debate dos problemas regionais e nacionais.
Fonte: robertoamaral
Fiz-lhe a pergunta: “Em tempos de crise, a cultura sempre é artigo supérfluo. De que forma seu Ministério enfrenta o problema?”. Resposta:
“Sua afirmação é verdadeira. Em 1992, nossas dotações representaram 0,04 por cento do orçamento da União. Não há outra Pasta tão apoucada quanto a da Cultura. Mas, se não tem os recursos desejados para sua vida burocrática, funcional, este Ministério tem como conseguir verbas para seus projetos”.
A lei do mecenato, em parte por ele gerida, e o Fundo Nacional de Cultura, gerido totalmente, davam-lhe a esperança da captação de uns US$ 500 milhões. Faltaria, depois disso, a superação de outro obstáculo: “É que a Lei Rouanet tem utilização um tanto difícil e o usuário a ela ainda não se acostumou”, contou.
Mas não perdia a esperança: “Vamos ver se arrancamos, a curto prazo, alguma coisa da ordem de US$ 40 milhões para o incremento do cinema e, também, já temos do presidente Itamar a promessa de que, no ano de 1994, iremos contar com a centuplicação dos recursos orçamentários destinados ao patrimônio histórico e cultural,
O ministro não tinha dúvida quanto a isso: “O uso e a conceituação do mecenato são para a iniciativa privada. O Estado não é mecenas, é fomentador, é prestamista, emprestador, mas não um mecenas”.
A Lei Sarney, a seu ver, “permitia certas malandragens”. Para ele, não fazia sentido contemplar-se um programa da Xuxa, um espetáculo de Julio Iglesias, ou dos Trapalhões, porquanto isso já tinha público certo. O bom e real mecenato deveria ser dado a projeto que, tendo valor cultural, não tivesse rentabilidade econômica. E lamentou: “Isso serviu de pretexto para o neoliberalismo do sr. Collor, baseado nesses incidentes atípicos, e não típicos, condenar a lei como um todo. Foi um erro histórico”.
Ministério da Cultura
Como eu gostaria de ter sua opinião sobre o acordo da reforma ortográfica aprovado em 2009 sem qualquer menção a seu nome nem aos esforços que empreendeu neste sentido.
Wallflare
Nos arraiais de agora, ocorre-me que a criticada Lei Rouanet, apesar dos pesares, sempre exigiu a seleção dos projetos por ela contemplados. Nunca o dinheiro, ponto a ponto, de Prefeituras para o bolso das muitas bandas e cantores ocasionais, seja-lhes o repertório adequado às nossas melhores tradições, ou a estas absurdamente alheio.
Outra conversa que eu bem gostaria de ter, se assim me fosse possível, seria com o poeta Juvenal, o crítico da política do pão e circo posta em prática na Roma Antiga para entreter as massas e conter seus reclamos. O poeta se surpreenderia com o fato de que ao povaréu, hoje em dia, basta o circo para aplacar as revoltas. E, decerto, esconderia isso dos Césares.
A tempo: dei à matéria d’A CARTA, o título “O verbo e a verba”. Um passarinho me disse que o velho Houaiss gostou.