Imagine-se em Genebra, depois de uma esticada de 12 horas desde a italiana Florença em busca da bem-amada. Ponha-se de mãos dadas com ela em passeio por um bairro tranquilo da cidade. Saudosos de casa, os dois param, perplexos, diante de um cineminha, em razão do letreiro: “Aujourd’hui, Paraíba mon amour”. Isso mesmo, expressões do mais legítimo forró paraibano nas telas da Suíça.
Pois isto aconteceu, de fato, com Marcílio Franca e sua Alessandra, ele numa rara folga do pós-doutorado em Direito pelo Instituto Universitário Europeu e, ela,
Alessandra e Marcílio Franca
Diga-se de Marcílio – membro do Ministério Público de Contas com atuação no Tribunal de Contas da Paraíba – que é um cidadão do mundo. E que é uma referência internacional nos campos do Direito, do estudo e do ensino acadêmico. Você o encontra na lista de professores visitantes das Faculdades de Direito das Universidades de Pisa e Turim (ambas na Itália) e do Instituto de História do Direito de Ghent (Bélgica).
Não tente ir a fundo no seu perfil. É quase interminável. O homem é membro do Conselho Executivo da International Law Association (a Ila, com sede em Londres), é árbitro suplente do Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul, é árbitro, ainda, da Court of Arbitration for Ar (a CAfA, de Rotterdam) e da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (a WIPO, de Genebra). A missão da ONU em Timor Leste o teve como consultor jurídico. E vamos parar por aqui.
Cinema Bio, Genebra
Inicialmente programado apenas para a televisão, “Paraíba, meu amor” logo chegaria à tela grande. Naquele ano, foi exibido na Alemanha e, também, no Festival de Montreux. Já em 2009, ganhou o Golden Reel Award de Melhor Musical, no Festival do Filme, de Tiburon, Califórnia.
Com um medo desgraçado de avião, Dominguinhos recusou a viagem até a Europa. O jeito foi o francês Richard Galliano, acordeonista de fama mundial, vir até aqui, talvez, com um único desconforto: o testemunho de um quebra-pau dos diabos em forró de quinta categoria num desses pés de serra onde um sujeito deve ter mexido com a mulher do outro. Uma hora de filme e lá veio a consagração. Solenemente, Galliano pôs na cabeça o chapéu de couro entregue por Dominguinhos de quem também recebeu a missão: “Esse caboclo é, agora, embaixador do forró na Europa”. O documentário reúne esses dois sob o sol e a lua do Nordeste e intercala, do início ao fim, apresentações e entrevistas da Prata da Casa.
“Paraíba, meu amor” é fruto do encantamento do diretor suíço Bernard Robert-Charrue com os tons e os ritmos por ele conhecidos em 2005, quando se encontrava em Olinda. A produção – com auxílio de luxo do também suíço Pierre Landolt, ele mesmo convocado para uma fala curta – iniciou-se no ano seguinte.
F. Delay
Pierre me falava com a autoridade de quem é sócio da Novartis, o quarto maior laboratório farmacêutico do planeta. Numa das edições de 2000, a Revista “Exame” contava que a Fundação Sandoz, criação familiar, controlava, em Genebra, o Banco Edouard Constant, a Interoute (empresa de telefonia atuante em onze países europeus) e a World Online International, um provedor de serviços de Internet criado na Holanda.
Patrocínio melhor para este saboroso documentário, então, não haveria. O patrocinador, além do dinheiro, tem um caso de amor bem antigo com a Paraíba, sua música e seus enredos. Algumas matérias de jornal o tratam como “o magnata dos Sertões”. As locações do filme, é bom lembrar, situam-se nas trilhas e veredas de Campina Grande, Pombal e Patos, há muito percorridas por esse europeu de alma sertaneja.
Ah, sim... Dias depois daquela sessão de cinema, Marcílio almoçava num restaurante local quando o garçom pediu, em voz alta, que alguém com o nome de Bernard se apresentasse a fim de atender o telefone. “Sou eu”, respondeu um homem que então se erguia da mesa ao lado para o atendimento requerido.
Era o próprio. De volta ao prato, o cineasta respondeu aos cumprimentos do fã paraibano e o conduziu à casa onde morava para o repasse de uns dez DVDs com cópias de “Paraíba, meu amor”. Não seria preciso dizer que vários conferencistas de renome internacional, gente digna dos grandes simpósios acadêmicos, passaram a receber parte dessas cópias de um Marcílio orgulhoso das origens: “Esta é a música da minha terra”.