Em 1968, a lista castrense de punidos da UFPB deu-me a conhecer de nome o jovem professor José Jackson Carneiro de Carvalho, da Faculdade de Filosofia e Letras. Quatro anos antes, o capitão com quem a ditadura substituiu o civilista Mário Moacyr Porto já havia me penalizado atando-me a um clipe e devolvendo-me ao quadro de redatores do Estado.
Foi nessas circunstâncias que retive o nome de Jackson, julgando-me no foco da mesma visão e engajamento político ou ideológico.
E tantas décadas depois, tocado há pouco pela morte de Jackson de Carvalho e revendo seu exaustivo esforço de inteligência e análise da obra de Albert Camus, no intuito de atingir o leitor volátil de hoje, como volto a reenquadrar-me naquela sentença bem humorada de um dos meus mais diletos críticos!
Foi um tormento que não passou de todo. Saí da leitura como quem sai de um pesadelo. Levantei da cama, numa madrugada fria do sanatório, inteiramente alheio ao ressono e à intermitência da tosse de meus setenta companheiros de enfermaria, quando fechei a leitura da tradução de “O Estrangeiro”, de Camus, que Pedro Santos me levara na visita do domingo.
E a densa nuvem de sombras a me perturbar. O que esse Camus pretende dizer?!” E fui à professora Ângela, indicada para essas horas: “Na tua lucidez, o que condenou sem remissão o Meursault do Estrangeiro? A fria indiferença ante a mãe morta, no velório, ou o assassinato do árabe?” / — Por que me pergunta? / — Porque Sartre explica o que não consigo perceber.”
Albert Camus Agip
O que não aconteceu com José Jackson Carneiro de Carvalho, que, vendo a angústia do apedeuta, dedicou três anos de sua aposentadoria, de sua merecida disponibilidade para pegar na mão de leitores menos iluminados. Entre os feitos e ascensões do magistério e do homem público, ficará o legado do escritor para cada geração que, daqui a cem anos, o encontre na estante, ainda que, com o tempo, se ache na prateleira de baixo e cheio de poeira. Foi assim que encontrei o livrinho de Lima Barreto quando Francisco de Assis Barbosa ainda não o havia ressuscitado.