Contador de causos igual o meu tio Miro, ninguém. Nem meu amigo Zé Laranja é bom proseador como foi esse meu tio, irmão do meu avô Vico. Como perceberam, era na verdade tio de meu pai, mas para mim e meus irmãos era o nosso tio Miro e pronto.
Vez ou outra, descia a serra para resolver alguma pendenga e aproveitava para nos visitar. Chegava em casa sempre de surpresa, com aquele jeito bonachão pedindo dormida. Era sempre uma grande festa. Eu e meu irmão tirávamos no par ou ímpar quem ia ceder a cama, mas não nos importávamos com o resultado da disputa, o que valia mesmo era ter esse nosso tio por lá, porque após o jantar ele sempre começava a contar os seus causos.
Yuri
Um tal Tião Belarmino juntou a mulher, seus cinco bacuris e resolveu morar no Itapeva, légua e meia do pico de mesmo nome. Década de 40 do século passado, morar naquelas bandas exigia coragem e determinação. Frio de doer, a uns 2 000 metros de altitude, clima úmido e nada de vizinhos. Pouca gente habitava aquelas brenhas. Gente quase nenhuma, mas onça...Agora, um pouco de Tião.
Nosso amigo cavou trincheiras na Revolução de 32, lá na Campista, à época podia se dizer, nos cafundós de Campos do Jordão. Esteve ali como ordenança de Gavião Gonzaga, prefeito local que comandou um batalhão constitucionalista lotado naquele alto de serra.
Yuri
Passado um tempinho, a porca deu cria, as galinhas, as patas e as marrecas estavam botando e até Mimosa estava de cabritinho novo e com o ubre assim de leite. Tudo ia bem até que numa madrugada com o ruço cobrindo a serra ouviu barulho no chiqueiro. Pistola, o cãozinho latiu, mas recuou. Manhãzinha, às primeiras luzes, Tião foi ao quintal e viu o estrago: Pelo menos três leitões haviam sido devorados. Viu o rastro de sangue e mais à frente um restinho de carcaça. A pegada que viu era de onça e sabido como era ainda conjecturou:
— Era uma fêmea.
Mês depois a mesma coisa. Zoada no terreiro, ruço cobrindo a visão, Pistola latindo, mas nada de avançar. De manhã, cadê a porca? Ainda bem que os leitões restantes já estavam desmamados. No chiqueiro sangue que não acabava mais. As pegadas eram de onça. A mesma de mês atrás, o dedo menor da pata esquerda dianteira estava faltando. Claro que era a mesma.
Chakkree Chantakad
Chico apareceu de cartucheira 12, dois canos, bornal com queijo, rapadura, garrafa d’água tampada com rolha, munição para uns vinte tiros, facão e coragem para aquela e quantas onças encontrasse. Sol ainda preguiçoso, ele, Tião e mais Garrucha seu cãozinho mais farejador do que um pointer inglês partiram para a jornada. Missão: dar um fim naquela gata assassina.
Tião à frente abrindo picada entre araucárias, quaresmeiras, palma de jerivá, pinho bravo, ipês e arbusto menores. Tirando o ruído do facão silêncio total, até que Garrucha farejou. Afastaram uns gravetos e lá estava a pegada da onça matadeira. Nem meia légua depois encontraram a toca da bichona. Nada da onça. Mas ouviram uns miados. Acenderam a tocha e foram entrando. O que viram? Dois filhotinhos. Chico pegou os bichinhos no colo e disse admirado:
— Compadre essas oncinhas têm dois chifrinhos cada uma. Deus me defenda nunca vi isso.
Mas Tião sabido como era, tinha explicação.
— Essa onça safada cruzou com meu bode.
Tio Miro garantiu que foi isso mesmo. Tio Miro não mentia.