No tempo das marmotas circulando pelo Ponto Cem Réis nas manhãs de domingo de Carnaval, havia a espontaneidade marcando o ponto e o passo. E o aguaceiro sacudido mesmo em quem era alérgico à folia. Saíam impropérios e as risadas ecoavam na matinal da irreverência. Faziam mingau de farinha de trigo e sacudiam nas cabeças bem penteadas; papa nos festejos momescos: um mingau improvisado na brincadeira que durava até o meio do dia com entrada na tarde.
Havia os xurumbas ou marmotas: gente vestida em trajes risíveis, homens em vestidos, mulheres em paletós. Um gozo. Pois bem, num desses dias, os três resolveram se paramentar heréticos, usando roupas femininas das mães, irmãs e primas.
Fonte: Buzzfeed
No cardápio da observação do sacrifício particular entravam pesados jejuns, inclusive a pão e água. O trio se aboletou no terraço. Silêncio: queriam que a dona da casa viesse e se extasiasse surpresa. Veio e ficou atônita, a mão tapando a boca, a segurar o suspiro do encontro inesperado. Quem seriam? As máscaras bem arranjadas escondiam a identidade dos três.
Mudos, olhavam o jeito de escandalizada da mulher beatíssima. Antes houvesse (talvez pensasse) ido ao retiro do Dom Adauto, conforme fora convidada. Não abriu a porta, entrou e os fantasiados seguiram rumo às Trincheiras. Ao chegarem próximos à balaustrada, o atrapalho. Um carro da Polícia Militar os deteve. Vieram com jeito de amigos; pediram que os três rapazolas despissem as caras. Alegavam a ocorrência de crime e estavam procurando o autor que, diziam, era um grupo de falsos foliões.
Fonte: Universo Retro
Assim o fizeram. Em saias estampadas, torços, pulseiras, sapatos femininos, pela vereda que os salvara do ridículo. Chegamos arfantes e temerosos. Éramos adolescentes. Sacudi o saiote de mamãe e a olhei: ela deu uma gargalhada. Bem que nos havia advertido do perigo em percorrer trilhas arriscadas. Riu de chorar. No rádio tocava a marchinha. Caímos no passo. Para relaxar.