Pelé morreu. Dá para acreditar? Parece que não, mas é o jeito. Afinal, tratava-se de uma morte anunciada. Ele já estava condenado, recebendo apenas os cuidados paliativos: o corpo ferido irremediavelmente não mais respondia a quaisquer tratamentos. Fez-se o possível. Mas há, sabemos, um limite para tudo. Os seres e as coisas têm fim. Entretanto, repito: dá para acreditar?
Ídolos populares da altitude de Pelé parecem eternos. A gente se acostuma tanto com eles, com a presença cotidiana deles na nossa vida, através da televisão, dos jornais e demais meios de comunicação social, que nem sequer admitimos a hipótese de não tê-los mais.
Pelé (centro), Copa do Mundo de 1958 (Suécia) Arquivo Nacional
Quando o Brasil foi campeão mundial de futebol em 1958, eu tinha apenas três anos de idade; em 1962, no bicampeonato, tinha sete. Isso significa que o nome de Pelé entrou muito cedo na minha consciência de criança que mal compreendia aquela empolgação das pessoas em torno do futebol, da Copa do Mundo e dele, o ainda jovem Rei, espanto do mundo, gênio da raça, cujo apelido era repetido por todos, continuamente, em casa e na rua. Pelé Pelé Pelé.
Havia Garrincha e seus dribles espetaculares, é claro. E também o talento extraordinário de outros craques daquela geração. Mas o nome que ecoava mais era o de Pelé, sem dúvida. Talvez pelo som da pequena palavra, ou mais provavelmente por quem era designado por aquelas duas sílabas quase sagradas, pois qualquer que fosse o nome ou o apelido de Edson Arantes do Nascimento ele ressoaria da mesma forma. A televisão doméstica ainda não se massificara, mas o Canal 100 nos cinemas era o bastante para mostrar as peripécias futebolísticas do astro cada vez maior. E não só aqui, mas no mundo inteiro, para orgulho nosso.
Pelé no aeroporto Schiphol (Holanda, 1962) Joop van Bilsen
E veio 1970, no México. Com o tricampeonato mundial, a consagração indiscutível e definitiva. Era realmente o maior do mundo e da história do “esporte das multidões”. Depois, os argentinos tentaram elevar Maradona às mesmas alturas. Mas não era possível, salvo para os fanáticos. As trajetórias foram outras, principalmente fora dos campos. O “hermano” foi grande, ninguém nega, mas igualá-lo a Pelé é delírio.
Arquivo Nacional
Seu lugar de nascimento, Três Corações, confirma Minas como o grande celeiro de valores nacionais, hoje desfalcado, como o Brasil, aliás. A seu pedido, ele será velado no estádio do Santos, seu clube do coração, onde começou a brilhar. O círculo da vida finalmente fechado. Começo e fim de mãos dadas. Daqui para a frente, a lenda, já desenhada, tomará forma e cores permanentes.
Li que, já no hospital e quando consciente, rezava regularmente ao lado dos familiares. Provável resquício da fé simples aprendida na infância modesta da boca de sua mãe, ainda viva, segundo soube, e centenária. Imagino que essas orações, que nunca se esquece, tenham confortado seus momentos derradeiros. Assim espero.
Pelé com o Papa J. Paulo II, Vaticano, 1978 Arquivo Nacional