Gaurav D Lathiya
Pensemos humildemente, por exemplo, no III Reich de Hitler e na U.R.S.S. de Lenin e companhia, ambos feitos para durar pelo menos mil anos. O primeiro desmanchou-se no ar em meros doze anos, de 1933 a 1945, e o segundo, mais resistente, em apenas sete décadas, ou seja, praticamente nada em termos históricos. Boas lições, sem dúvida, para historiadores e leigos em geral. Mas isso acontece não só com os governos, as ideologias e estruturas de poder semelhantes; acontece também com pessoas, líderes, carismáticos ou não, e até com indivíduos comuns, cada qual na dimensão que lhe é própria. Tomei três nomes, um britânico e dois brasileiros, todos importantes, famosos e influentes ao seu tempo, hoje reduzidos a fumaça (ou quase), em comparação ao que já foram.
Estátuas de Lênin, Stalin e outros líderes e pensadores marxistas foram demolidas, removidas ou transformadas em pó em diversos lugares do planeta, após o colapso da União Soviética.
Tony BlairMirror
O segundo é um político nosso, rapaz oriundo de uma das mais nobres linhagens políticas brasileiras, que deu um presidente da República apoiado por praticamente todos os brasileiros, o honrado Tancredo Neves. Seu neto e jovem assessor, de nome Aécio, desde o início foi visto como sua continuidade na política mineira e brasileira, com imensas e justas (até então) perspectivas pela frente. Deputado federal, senador, governador de Minas Gerais e candidato quase eleito à presidência da República na eleição de 2014. Teria certamente chegado lá, mais cedo ou mais tarde, não tivesse se envolvido em obscuro caso de corrupção passiva, até hoje não suficientemente esclarecido. Politicamente, perdeu todo o prestígio e toda a influência nacional que chegou a desfrutar. Sua queda desonrosa favoreceu o surgimento de Bolsonaro como liderança antipetista. Hoje, Aécio é apenas mais um no Congresso, baixo clero. Desmanchou-se no ar como voz e persona. Ninguém o vê nem ouve.
Aécio NevesAg. BR
Sérgio MoroAg. BR
Esses fatos nos fazem pensar na precariedade de tudo, até das coisas mais sólidas. Outros tantos (e tantas) também desmancharam no ar, aqui e alhures. Gente como o ex-presidente Collor, José Dirceu, o médico Roger Abdelmassih, José Serra, Regina Duarte, a ex-ministra Zélia Cardoso de Melo e por aí vai. Tem para todos os gostos. Na quase totalidade dos casos, viraram vento por conta de seus próprios erros. Não podem nem culpar alguém. Seu único consolo é talvez pensar que, daqui a milênios, o mesmo acontecerá com Sócrates e Sartre. Mas aí por outros motivos, é claro. Cada qual se consola como pode.
As instituições, de todos os tipos (políticas, culturais, educacionais etc), também podem desmanchar no ar, ao longo do tempo. Com elas, o processo é mais lento, claro, mas é plenamente visível para qualquer observador mais atento. No caso delas, o desmanche tem a ver principalmente com a queda do nível intelectual e moral das pessoas que as integram e representam. Não é uma questão de elitismo, evidente, mas de simples mérito. Quando este é desconsiderado, em qualquer setor, é o começo do fim, não há escapatória. Os exemplos estão aí à vista.
PS: Após ver o resultado das recentes eleições, constatei (constatamos) que o PSDB, partido que representou a social-democracia no Brasil e tantas esperanças de liberdade e fraternidade, também, por culpa própria, desmanchou espetacularmente no ar.
Muito assunto, percebo, para os especialistas estudarem.
Muito assunto, percebo, para os especialistas estudarem.