Camões escreveu que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O poeta quer dizer com isso que nosso desejo é mutante. O que queremos hoje podemos rejeitar amanhã, e o que agora desprezamos pode no futuro ser objeto do nosso mais ardente empenho.
Essa verdade vale também para as palavras. Não que elas possam desejar alguma coisa. Palavras não são gente. Mas o prestígio de que desfrutam varia muito, refletindo a nossa forma de sentir o mundo.
Essa verdade vale também para as palavras. Não que elas possam desejar alguma coisa. Palavras não são gente. Mas o prestígio de que desfrutam varia muito, refletindo a nossa forma de sentir o mundo.
Waldryano
No tempo de Machado, “boceta” era uma caixinha em que se guardavam pequenos objetos ou rapé. Não tinha o sentido “cabeludo” que lhe dão hoje. Machado usa-a mais de uma vez para se referir ao recipiente de onde Pandora, a mãe Natureza, retirou as desgraças que atingem os homens.
O próprio rapé também saiu de moda, pois hoje uma turma pesada prefere cheirar outra coisa. Ninguém cheirava rapé para “viajar” ou cometer delitos; no máximo essa mistura de tabaco com substâncias aromáticas provocava alguns espirros. Era um estupefaciente descongestionante.
Waldryano
Também se trocou “flerte” por “paquera”, que não à toa se deriva de “paca” (“paqueiro” é o cão adestrado para caçar pacas). O flerte era um exercício estético, tinha a gratuidade da poesia. Não culminava necessariamente no ato sexual.
Flertava-se para degustar a conquista iminente, e muitos se contentavam com os preâmbulos cheios de promessas. Já a paquera tem muito de uma operação de caça, cujo objetivo é comer a presa.