Era meio dia e o sol castigava a cidade. Um calor terrível. O sinal fechou e eu parei. Duas filas se formaram com outros automóveis parados também, esperando o sinal abrir. Lá da frente veio caminhando entre os carros um homem muito magro, rosto seco, não falava. Apenas empunhava um papelão onde se lia "Estou com fome". Dos carros ninguém deu importância àquele homem, ninguém baixou o vidro para uma esmola, talvez com receio do ar condicionado escapar do automóvel?
"— Dotô, mermo quando eles tem pena e dá uma grana, de vez em quando eles humilha nóis. Fica dizendo que o dinheiro não é pra nóis comprá droga".
"— Dotô, mermo quando eles tem pena e dá uma grana, de vez em quando eles humilha nóis. Fica dizendo que o dinheiro não é pra nóis comprá droga".
Fernand Pelez
"— Se a gente dizer que é pros fí ninguém acredita, porque os pirralho tão no barraco. Se nóis trais eles pra cá tem gente que fica com raiva. Eu digo que é pra tomar cana, aí eles ri e dá uns trocado".
Logo a seguir, em frente onde outrora funcionou a Adega do Alfredo outro ajuntamento de miseráveis. Semana passada eram quatro. Agora dobrou a quantidade. Não consegui vaga e ao chegar na esquina contei nove desvalidos da sorte espalhados pela calçada do muro em frente.
"— Tem gente que reclama que nóis fede. Tem onde tomar banho não. E sem sabonete nem pasta serve de nada tomar banho. Eu mermo, se quarquer um me der sabonete ou pasta eu vendo pra comprar de pão...ôxi, ficar cheroso e a barriga latino...".
Mihaela Mihailovici
"— Dotô, me diga mermo, se Deus está aculá (disse apontando com o queixo para a igreja), custava nada ele chegar aqui pra ajudar nóis?".
Tenho absoluta certeza de que neste Natal muita gente vai dar a esse pessoal uma parte do que sobrou das suas ceias. Por um dia eles comerão, preparando-se para outro ano de abandono e fome.
Iman Maleki
Repetindo Leandro Gomes de Barros: Por que existem uns felizes e outros que sofrem tanto? Nascemos do mesmo jeito, moramos no mesmo canto. Quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto?