Nós, mulheres, levamos muito tempo para compreender o nosso corpo. Às vezes, a vida inteira! De alguma forma nos é negado — quase proibido — esse contato e nos deparamos, de supetão, com as mudanças radicais que temos que experimentar:
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As menstruações ▪ sempre diferentes umas das outras, agregando uma série de incômodos e inconvenientes (quando não, dores e medos!) fortalecidos por preconceitos e estigmas que marcam o ciclo como algo feio, sujo, fedorento, indesejado;2
A gravidez (para muitas) ▪ um mundo de subjetividades e ao mesmo tempo de concretudes que surgem, a cada lua, e que acontecem dentro da gente, nesse corpo quase desconhecido;3
Na sequência vem o parto ▪ natural ou não, é a culminância dessa experiência. A gravidez e o parto transformam nosso corpo num "aparelho" inexplicavelmente poderoso, visceral e animal. Vem a produção de leite, a amamentação... percebemos um par de peitos diferentes, com outra função, desabrochando um outro tipo de amor e prazer. Viramos um bicho alimentando outro bicho e por bastante tempo, somos apenas isso! Pronto! Nem conhecemos um corpo e já precisamos aprender sobre um outro. Vamos ter que lidar com esse novo corpo enquanto aprendemos a maternidade. A maternidade envolve muita coisa, mas o ponto de partida e o de chegada não somos nós, é o outro. Então o corpo, corpo, corpo mesmo, fica bem longe de nosso foco. Socialmente é estabelecido que nosso corpo é um bem coletivo, como se pertencesse a todo mundo! As regras estão postas e pronto! Você não decide porque não conhece e você não conhece porque não decide;4
Chega então, com o passar dos anos, a menopausa ▪ O momento em que os hormônios nos abandonam. Dizem adeus! Ouvi dizer, certa vez, que o cachorro é o maior amigo do homem e o hormônio, o da mulher.O fato é que sem eles, mais uma vez, somos jogadas no precipício cheio de desconhecimento, e pleno de experiências desafiadoras! Ih! Não só os hormônios nos deixam,
Alexander Krivitskiy
Esse corpo que nos acompanhou na jornada da vida mais uma vez muda! Sem ser para fazer brotar a beleza da juventude ou para cumprir a missão de povoar o mundo! A mudança é marcada pela falta: falta de vitalidade, falta de energia, falta daquele padrão de beleza que nos foi imposto até aqui! O mais desafiador na menopausa é entender que nosso metabolismo mudou. Engordamos de qualquer forma! Retemos líquidos! O estômago fica dilatado! As roupas não cabem mais e as que cabem nem sempre combinam com a autoimagem que temos. É fogo! Por falar em fogo...
Como lidar com o calor arrebatador? Como lidar com esse suor excessivo que invade nossos momentos de trabalho, de lazer, de descanso? Como lidar com a pele, com o cabelo, com as unhas perdendo o viço, a força e o brilho? Como lidar com as dores nas articulações, com a insônia, com a irritabilidade sem sentido? Como lidar com a vontade de chorar por tudo e com a instabilidade emocional que nos atormenta? Nada é fácil nesse momento da vida das mulheres que sentem os sintomas da menopausa!
Escuto falar, aqui e acolá, de felizardas que não sabem o que é isso e fico pensando de onde vem esse merecimento...
Jessica Felicio
O danado é que o mundo segue, sem imaginar o que passamos. A vida segue incólume às montanhas que temos que ultrapassar todos os dias. Sem perceber, nos largamos ao relento várias vezes e nos resgatamos de novo. E de novo…
Cada uma de nós está só consigo mesma num esforço profundo pela luta diária e pela lucidez! Sim! Manter-se lúcida é necessário e difícil. Na nossa história, muitas mulheres foram internadas como loucas, histéricas, nessa fase da vida, por puro desconhecimento da sociedade de uma maneira geral da existência da menopausa e seus efeitos. "Triste, louca ou má..."
Fico pensando se os homens passassem por isso, quantas soluções eficazes já teriam sido expostas à sociedade e como nós, mulheres, já seríamos "treinadas" a detectar os sintomas e acolher nossos homens, ajudá-los.
Com as mulheres é um pouco diferente.
Jakob Owens
Estou buscando essa porta que me conduzirá ao amor próprio, ao autocuidado. Aprender a ficar comigo mesma e adentrar a sala das "mulheres sábias". Vou chegar lá! Vamos chegar lá mulheres!
Vamos acender uma fogueira e dançar ao redor do fogo. Sentindo, finalmente, o nosso corpo maduro e são gritar: Viva!