Il faut être toujours ivre, tout est là; c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre.
(Charles Baudelaire- Les petits poèmes en prose)
Merisi nunca teve um rosto fácil. Quando se olhava no espelho. Quando tinha coragem. Outros o espiavam de lá. Para além das marcas da bem-vinda boemia, dos fins das noites fauves, das madrugadas de ninguém é de ninguém, encontrava sempre outras caras. Estranhas olheiras fundas. Rugas insuspeitadas. Rictos que se reaprenderam risos.
Quem era ele mesmo? Mutante. Metamorfo…
Caravaggio
Nada era estático no histórico de sua própria imagem. Desde os punhos crispados e já tantas vezes suturados próprios das noites nunca mais dormidas à boca de língua ávida por novas descobertas de madonas que ele fodia e que lhe chupavam, sábias.
Artemísia, a bela, que o esperava nua nas noites de tempestade, queria mais que tudo poder lhe decifrar os olhos. Principalmente quando o conjunto desarmônico do seu rosto entrava em mutações que a fascinavam.
Caravaggio
E suicida de amor expunha a jugular que palpitava intensa, a pele faiscante, contra o branco imaculado dos lençóis amarfanhados.
Ele lhe buscava o sexo e lhe tapava a cara
Amar é como morrer, cuspia Merisi para Artemísia, a triste. E a virava de costas como fazia aos rapazes que buscava nas madrugadas, jogando-os contra o tenebrismo dos muros escuros da cidade alcoviteira, evitando o claro escuro dos faróis dos carros, por não querer nunca ver-lhes os rostos que suspeitava cambiantes como o seu.