Houve uma época em que me passou pela cabeça escrever livros de autoajuda. A justificativa para isso, confesso, não era das mais nobres. Como os autores desse tipo de literatura vendem muito, pensei em me arriscar no gênero para, quem sabe, robustecer minha conta bancária.
Eu imaginava que fazer livro de autoajuda seria fácil. Não precisava ser erudito nem conhecer profundamente filosofia, psicologia, antropologia ou qualquer outra dessas especialidades nobres. Bastava ter delas uma leitura superficial, algum bom senso e, claro, uma boa dose de esperteza.
Eu imaginava que fazer livro de autoajuda seria fácil. Não precisava ser erudito nem conhecer profundamente filosofia, psicologia, antropologia ou qualquer outra dessas especialidades nobres. Bastava ter delas uma leitura superficial, algum bom senso e, claro, uma boa dose de esperteza.
Nathalia Segato
“Não complicar” significava exaltar sempre o otimismo, a esperança, a alegria de viver, e sobretudo não estimular a reflexão. Alguém já disse que pensar dói; geralmente quem lê esses livros não está
Giancarlo Duarte
Convencido dessas verdades, que pareciam extraídas de um manual de autoajuda para escritores, comecei o meu trabalho. Escrevi umas frases chochas sobre o poder do pensamento positivo e a permanência da magia no mundo técnico e frio de hoje.
Coisas do tipo “Se você quer, você pode”, ou “Só uma coisa é proibida ao ser humano: desistir”. Inventei que um personagem vivido na Idade Média, Abhsalão, havia me aparecido em sonho e ditado os quatro passos para alcançar a felicidade (infelizmente me faltou imaginação para dizer que passos era esses, mas fiquei de pensar e escrever depois). Completei com umas pitadas de marketing empresarial, encorajando os leitores a “agregar valor” a suas vidas.
Rafaela Biazi
Moral da história: ninguém escreve bem sobre aquilo em que não acredita. A partir daí passei a respeitar mais os autores de autoajuda. Eles podem ser rasos, medíocres, previsíveis, mas se têm sucesso é porque acreditam no que dizem.