Até os anos 1970, mais ou menos, o prato típico e sagrado dos domingos nas casas da classe média brasileira – e até mesmo nas de muitos trabalhadores – era a galinha. A galinha cozida (ou torrada, como diziam alguns), ao molho cabidela ou não, acompanhada de arroz, feijão verde, talvez uma farofinha, uma salada talvez. A bebida era normalmente o ponche de fruta do dia a dia, podendo às vezes ser um guaraná. A Coca-Cola não havia ainda dominado o mercado, pelo menos aqui no Nordeste. Havia umas laranjadas, tipo Crush, e a Grapette, de uva, cujo slogan genial era “quem bebe, repete”.
Denis Agati
Essa atenção estudiosa para a alimentação cotidiana do povo, se não começou com Gilberto Freyre, em Casa Grande & Senzala, muito deve a ele, certamente. Seu livro-monumento concedeu aos alimentos triviais dos brasileiros uma dignidade cultural extraordinária, que só vem aumentando a cada dia, como se sabe. Freyre estabeleceu, talvez pioneiramente, a importância e as origens dos principais pratos de nossa cozinha, valorizando a influência das três raças fundadoras da nacionalidade, o português, o negro e o índio, cada qual com sua tradição reciprocamente absorvida e dando origem à miscigenação que é a marca essencial do Brasil. Com essa ciência e essa consciência é que o genial pernambucano um dia levou a carioca e aristocrática filha caçula de Joaquim Nabuco, a escritora Carolina, então em visita ao Recife, para almoçar um célebre sarapatel num popular quiosque do Mercado de São José, famoso por sua qualidade, para escândalo da burguesia ignorante de Pernambuco. Ao que se sabe, Carolina,
F. Ibrahimzade
Os frutos do mar, os grelhados, as massas e o esquecido estrogonofe, tudo isso veio depois. Pelo menos, na maioria das mesas nordestinas e paraibanas. Aos poucos, com o crescimento da cidade, o surgimento de mais restaurantes e o próprio fluxo de turistas nacionais e estrangeiros, a velha galinha foi saindo de cena – e das panelas –, chegando ao ponto de até o nome perder, já que hoje chama-se elegantemente de frango a velha ave tão conhecida dos mais velhos. Galinha virou brega e, pior, apelido pejorativo de mulher namoradeira.
Quando a dona da casa não assumia, o preparo da penosa ficava a cargo da empregada da família, espécie extinta de faz-tudo, que morava na casa e trabalhava, sem reclamar, de domingo a domingo, numa quase escravidão. Ninguém questionava esse regime de servidão doméstica; era o “normal” e assim era aceito, inclusive pelas próprias vítimas.
A galinha era comprada viva, para ser morta em casa. Comprava-se no mercado e nas portas das residências, através de vendedores ambulantes que carregavam nos ombros umas varas em que eram penduradas as aves
Fernando Moital
Algumas casas mantinham galinheiro no quintal. Até Salazar, o poderoso primeiro-ministro português, teve galinheiro no quintal da casa simples, vizinha ao Palácio, em que morou por muitos anos. Sua governanta vendia regularmente alguns espécimes raceados para ajudar a pagar as contas da casa, responsabilidade assumida pessoalmente pelo austero político e não pelo Estado. Veja só.
Nestes tempos pós-modernos, desapareceram as galinhas e as empregadas-escravas, e o próprio almoço doméstico de domingo foi substituído pelo restaurante ou pelo delivery, sem falar na dispersão familiar, cada qual com sua programação individual e inegociável. Melhorou? Piorou? Há controvérsias. Não quero chatear ninguém com saudosismos inúteis. Digamos apenas que agora o “normal” é assim – e assim é aceito. Inclusive pelas próprias galinhas, digo, frangos.