“Ce chien est à moi”, disaient ces pauvres enfants. “C’est là ma place au soleil”, Voilà le commencement et l’image de l’usurpation de toute la terre – Blaise Pascal.
Outro dia me encontrei numa praia de Pacífica recolhendo conchas, pedras miúdas, pedacinhos de corais. Enchia os bolsos, coletando fragmentos do mundo para pôr, secos e limpos, na janela que se abre para os verdes de um jardim que me acostumei a chamar de meu. E nada como o mar não cultivado para me pôr em estado de filosofia, descobrindo razões para pensar nas tolices despercebidas do meu cotidiano.
Pacific BC
“Este cachorro é meu”, diziam aquelas pobres crianças. “Este é o meu lugar ao sol”, eis o princípio e a imagem da usurpação de toda a terra.“
O velho Pascal tem razão ao falar sobre propriedade e o desejo quase libidinoso de ter, acumular, trazer para casa coisas que chamamos nossas – mas não o são, de fato.
A rigor, o que temos, nesta vida, que podemos dizer que seja realmente nosso? Nem mesmo o frágil corpo – pensei, lembrando que entre poeira, dormindo dentro de mil caixas e abarrotando prateleiras, gavetas e cômodos, há tantas coisas se empilhando. Inúteis, esquecidas…
Sonia Zaghetto
A voz de Pascal zumbia, implacável: começa o vício na infância, com o pronome meu, que se apossa de cão, gato e peixinho de aquário, e se estende vida afora, na qual cada um marca cuidadosamente seu lugar ao sol. “É que a gente quer reter uns retalhos da beleza”, argumentei, sem muita convicção, me perguntando como resistir a um coralzinho rosado ou a uma alga que parecia cauda de sereia. Mas apenas suspirei, pois entendo bem como a propriedade das coisas do mundo é ordenadora na nossa sociedade; engloba desde essas coisas simples até decisões históricas que após alguns séculos despertam vergonha, protesto e rancor. Está mesmo em toda parte.
Sonia Zaghetto
Sonia Zaghetto
O mesmo Pascal – meditando sobre esse tema, oferece pistas sobre o antídoto. Detecta que o homem caminha pela vida alheio à verdade sobre a usurpação. O sentimento de posse foi introduzido sem razão em nós e no correr do tempo tornou-se razoável. Autêntico e eterno desejo, só termina quando o homem se torna consciente do processo.
Lembro das minhas pedras na janela, de flores ressecadas em livros. Vai dar um enorme trabalho para os meus filhos jogarem fora tudo isso. A morte revestirá de desimportância o que para mim é recordação cálida de momentos que desejo eternizar.
Gabriella Marino
Delicadamente, devolvo o coralzinho rosado à areia. Prometo-me, solenemente, nada mais recolher. Cada coisa ficará no seu lugar nativo. E meu quarto cada vez mais vazio, até que ele caiba, inteirinho, na mala modesta que contém apenas o essencial.
Eu, o espírito cético pousado no meu ombro e todas as coisas da Terra aguardamos os próximos capítulos. O sol de verão dissipou a neblina. Surge um arco-íris de flores nas árvores e nos arbustos que circundam o mar e isso nos dá esperança de que o futuro seja apenas de contemplação e não de coleta. Queremos dizer um amém coletivo, mas é muito cedo para tal. Hábito consolidado é cabo de aço, embora tenha nascido fino como teia de aranha.
Sonia Zaghetto