Duas avós num mesmo trecho de calçada. Quantos meninos tiveram essa boa sorte? Quantos desfrutaram do carinho simultâneo daquelas que embalaram com o mesmo desvelo as próprias crias e os rebentos que estas trouxeram ao mundo?
Tive tal ventura ao alcance de poucos passos. Cinco casas interpunham-se entre a da Vó Amélia, mãe da minha mãe, e a da Vó Sole, como resumíamos a doce Soledade, de quem meu pai nasceu. De uma, os melhores suspiros da minha vida, crocantes, com cheiro e gosto de limão. E com um mel que escorria do miolo ao derreterem na boca. Da outra, os pirulitos de maracujá tão deliciosos
As avós, sem dúvida, são feitas de açúcar. Pelo menos, a que tivemos eu, meus irmãos e primos a poucos metros uma da outra na Juripiranga da nossa infância. Eu recebia cada cota de doces e afagos com a impressão de ser o neto favorito, de merecer a preferência daqueles corações grandes o suficiente, todavia, para nosso indistinto abrigo. Percebi, com o tempo, que aquelas duas nos tomavam nos braços de igual modo enquanto alimentávamos, cada um por si, a ilusão da exclusividade.
Os pirulitos da Dona Sole tinham clientela muito mais vasta. Não serviam apenas para adoçar a existência dos filhos e filhas daqueles e daquelas que dera à luz. Também ganhavam as ruas em tábuas com mais de cem furinhos para a venda por meninotes escolhidos a dedo. Ora elevados acima da cabeça por cabos tão compridos quando os das vassouras, ora conduzidos à altura do umbigo por força de uma alça atada ao pescoço dos vendedores, esses tabuleiros percorriam a cidade com paradas em pátios de escola, na porta do cineminha e em volta do mercado público. Retornavam quase sempre vazios à cozinha de onde haviam saído com um pirulito em cada furo.
Foi-se muito cedo, com pouco mais de 60 anos de idade. E arrebatou o meu avô Frutuoso (de quem herdei o nome), quatro anos depois, no dia em que ele se casaria pela segunda vez. Exatamente assim: a noiva se pôs em vão no altar à espera de um noivo subtraído pela morte súbita. Teria minha avó paterna, então, quem sabe, esse único defeito. O que era seu era seu. Ela e o marido compartilham o mesmo túmulo na vizinha Camutanga, Pernambuco, de onde vieram ao mundo.
Viúva desde a juventude, Vó Amélia teve em tempo de vida o que não teve em bens materiais. Deixou-nos perto dos cem anos. Aos herdeiros restaram a saudade e a casa onde morava, produto do esforço do nosso avô Noel. Tratávamos o casal por Papai Noel e Mamãe Amélia. Surpreendi-me ao notar, ainda muito novo, que os presentes natalinos nada tinham a ver com a magrez e a calvície desse avô de tão pouca convivência. Deixou-nos quando a maior parte dos netos mal havia largado a fralda.
Fui o mais presente dos seus netos. Fiz-lhe visitas quinzenais por anos a fio ao cabo de viagens desde João Pessoa até Juripiranga. E só não aborreci uma de suas vizinhas com a frequência dos meus telefonemas porque esta última também dela cuidava como se filha fosse.
Eu e Miriam tentamos trazê-la para nossa companhia quando ainda morava só. Não conseguimos. Mas logo nos tranquilizamos ao vê-la acompanhada da primeira filha, na Juripiranga de onde pouco saiu para viagens sempre curtas a João Pessoa, ou Recife, lugares por onde a família se espalhou.
“Que cheiro bom tem essa casa”, minha mulher comentou quando pela primeira vez ali pôs os pés. “Tem o cheiro da dona. Cheiro de suspiro no forno”, respondi. E todos rimos. Eu com o coração de criança, Miriam com seu encantamento e ela, minha avó materna, com seus olhos de um azul profundo e seu jeito de fada.
Quanta falta Dona Sole e Dona Amélia fazem aos avós que nos tornamos. Conto hoje ao meu neto, que tem medo de alma, o que certa vez ouvi da mãe da minha mãe: “Quando alguém que nos ama morre, vira nosso anjo da guarda”. Que assim seja.