Antes que alguém (algum espírito de porco) pergunte o que é que nós brasileiros temos a ver com a rainha da Inglaterra, respondo logo: Em princípio, nada. Mas, pensando bem, numa visão menos estreita, como simples ocidentais, temos, sim, alguma coisinha a ver com aquela senhora que morreu na última quinta-feira, aos 96 anos, depois de reinar por setenta anos no Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) e de se tornar, sem nenhuma dúvida, um dos maiores e mais populares ícones mundiais da segunda metade do século XX até hoje. Mesmo os mais exaltados republicanos, reconheça-se, haverão de ter a imagem dela gravada na mente, tanto ela esteve cotidianamente presente nos meios de comunicação do mundo inteiro, ao ponto de incorporar-se ao imaginário coletivo, semelhante a uma marca planetária, tipo Coca-Cola, McDonald’s e outras de igual porte e penetração. Por isso, ela era pop – e continuará sendo ainda por muito tempo.
@Cheung Paul
Não sei se o leitor concorda, mas, para mim, à medida em que ia envelhecendo, mais simpática a rainha ia ficando. Afinal, quem não simpatiza com uma velhinha elegante e de sorriso largo? Só mesmo os de coração desalmado. Sua figura, cada vez menor fisicamente, mais encurvada, nos últimos tempos adornada por uma bengala, os vestidos de cores as mais diversas, cuja escolha, soube, tinha a ver com razões de segurança, e a sempre presente bolsa e o infalível colar de pérolas, marcas suas há décadas. Tão presente e tão popular tornou-se, que Andy Warhol, o artista plástico norte-americano, retratou-a, assim como fez com outros ícones do século passado, a exemplo de Marilyn Monroe, Elisabeth Taylor, Elvis, Mao etc.
British Heritage
Foi a derradeira das grandes figuras públicas que lhe foram contemporâneas no século XX, como Churchill, De Gaulle, Kennedy, Mao, Margaret Thatcher, Indira Gandhi, Mitterrand e Fidel. Ela sobreviveu a todos e por pouco não alcançou os cem anos de vida, como sua mãe, que morreu aos 103 anos de idade, ainda lúcida e tomando várias doses de gim por dia. Sua disposição impressionava a todos até recentemente. Parecia que era imortal, enquanto o filho Charles envelhecia a olhos vistos.
Twitter Royal Family
Seu legado para a monarquia no Reino Unido é imenso. Seu longo reinado já faz parte da história de seu povo, tão importante – ou mais – do que o de sua xará Elizabeth I e o de sua ascendente Vitória, todas grandes rainhas e grandes mulheres. Se há uma palavra que traduz sua passagem pelo trono, essa palavra é estabilidade. O Reino Unido, nos últimos setenta anos, conheceu muitas turbulências políticas, econômicas, sociais e culturais. Mas a presença serena e sóbria de Elizabeth II garantiu a unidade do reino e seu prestígio internacional, mesmo sem o protagonismo exercido até a Segunda Guerra, quando o império no qual “o sol nunca se punha” cedeu lugar aos EUA, à URSS, ao Japão, à Alemanha e à China na cena mundial. Coube a ela preservar um pouco (ou muito) da antiga grandeza britânica decaída, assim como a De Gaulle coube recuperar um pouco (ou muito) do orgulho da França, diminuído após a ocupação nazista, em 1940.
British Heritage
Para muitos, a monarquia é coisa do passado. Pode até ser. Mas o charme discreto da rainha fez com que se conservasse, não só para seus súditos, toda a “mística” da Coroa, seus rituais incomparáveis, seus mistérios fascinantes. Não há republicano que resista à beleza solene dos funerais, das coroações e dos casamentos reais britânicos. São incomparáveis em sua grandiosidade de organização, de fausto e de detalhes significativos. Nada fica ao sabor dos imprevistos e dos improvisos. É o próprio retrato da civilização. Uma civilização em que a tradição e a história contam muito, como valores importantes da nação.
@Queen Elizabeth Official Page
God save the queen!