Uma das vantagens de se morar num lugar que tem as quatro estações bem marcadas é ter uma voz constante a advertir sobre a passagem do tempo e, em consequência, sentir-se permanente alertado sobre o que realmente importa na jornada. No começo da primavera deste ano eu me fiz a solene promessa de passar a maior parte do tempo de vida que me resta em contemplação. Não que me faltem problemas – choro e ranger de dentes fazem parte do cardápio de todo vivente – mas à medida que envelheço, me dei conta que já não tenho tempo e energia a gastar com quem fermenta e piora as dificuldades naturais da vida. E isso inclui a mim mesma, pois, espiando direitinho nas gavetas da minha alma, encontrei uma tendência para criar armadilhas para consumo próprio.
Emily Jay
Abraçar a contemplação das coisas que estão ao alcance da vista talvez seja o que mais próximo encontrei da felicidade possível. Viver simplesmente, sem sobrecarregar os outros, sem sobrecarregar a mim. Ontem à tarde, o gato Mochi dormia com os bigodes agitados pela brisa e eu olhava as flores recém-nascidas na árvore que se debruça sobre a minha sacada. Senti, subitamente, uma alegria quase infantil só de lembrar que nessa época do ano as árvores da Califórnia estão cobertas de flores rosadas, roxas, vermelhas e brancas e, quando o vento as toca, elas dançam como bailarinas no calor das tardes. Saí para vê-las.
Sonia Zaghetto
Hoje vou tentar ver o mar, que sempre põe no meu coração uma irresistível vontade de abrir bem os olhos para captar o segredo das ondas que põem rendas na areia. Um rendado tão breve quanto a nossa passagem por esse mundo.
O mar me faz ter vontade de tudo perdoar, de nada complicar.
Viver simplesmente, enchendo a alma com a graça ao alcance dos olhos.
Sonia Zaghetto